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Full text of "Os brilhantes do brasileiro"

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Presented  to  the 

U^^LARYofthe 

UNIVERSITY  OF  TORONTO 

by 

Professor 

Ralph  G.  Stanton 


BRANCO 

|0  220  e  320 

I  Irmaiin. — 
OH  Felízeii. 
ftl.  — VII,  O 
latbeina.  — 
nan.  — XI  e 
J.  C.  Vieira 

—  XIII.  Di- 
>  Candai.  — 
njr.  — XVII, 

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ADO 


N.*  1- —  V— "'""  .-»v.^.«.«^  —  ...UBtre  Tartarin) 

1  vol.  de  176  paginas. 

N.»  2  —  D.  Carlos,  do  Saint-Réal,  1  vol.  de  144  paginas. 

N.»  3  —  Madame  Chrysanthème,  de  Pierre  Loti,  1  vol. 

N.»  4  —  Sapho,  de  A.  Daudet,  1  vol.  de  200  paginas. 

N.«  5  —  Negro  e  côr  de  rosa,  de  Jorge  Ohnet,  1  vol.  de  160  pag. 

N.»  6  --  O  senador  Ignacio,  de  Th.  Cahu  (Théo-Crit).  1  vol. 

N.»  7  — Jettatura,  de  Theophile  Gauthier,  1  vol.  de  170  paginas. 

N.»  8  —  Casa  com  escriptos,  de  Carlos  Dickens. 

N.*  9  —  O  canteiro  de  Saint  Point,  de  Lamartine. 

N.»  10  — Rosa  e  Ninette,  de  A.  Daudet. 

N.»  11  —  Primeiro  amor,  de  Ivan  TourgueneflP,  1  vol.  de  160  pag. 

N.«  12  — Peccadc  mortal,  de  André  Theuriet,  1  vol.  de  170  pag. 

N.'  13-0  Judeu,  de  Henry  Murger,  1  vol.  de  160  paginas. 

N.»  14-0  tanoeiro  Nuremberg,  de  Hoffmann,  1  vol,  de  170  pag. 

N.*'  lõ  — Dinheiro  maldito  (Polikouchka).  costumes  russos,  pelo 
Conde  Leon  Tolstoi. 

N.»  16  — Vida  phantastica,  por  Mèry,  1  volume  de  170  pag. 

N.*  17  —  0  padre  Daniel,  de  André  Theuriet,  1  vol.  de  160  pag. 

N.o  18  — Um  coração  simples,  de  Gustave  Plaubert. 

N.*  19  — Yan,  de  Jean  Karneau,  1  volume  de  170  paa. 

N.«  kO  — O  tio  Scipião,  de  André  Theuriet,  1  vol.  de  196  paf. 

N.*"  21  —  Diário   de  uma  mulher,  de  Octávio  Feuillet. 

N.«  22-0  crime  do  juiz,  de  Paulo  Féval,  1  vol.  de  170  pag. 

N.«  23  —  A  Inundação,  de  Emilio  Zola,  1  vol.  de  187  pag. 

N.«  24  —  08  Rantzau,  de  Erckman  Chatrian,  1  vol.  do  200  pa^k 

LISBOA 

Parceria  ANTÓNIO  MARIA  PEREIRA 

(livraria  editora) 

50t  52  —  Rua   Augusta  —  52,  54 


CoUecção  ANTÓNIO  MARIA  PEREIRA 

VULGARISAÇAO  DOS  MELHORES  LIVROS 

LITTERATDRAS  P0RTD6DEZA  E  ESTRANGEIRAS 


Romances,  Contos,  Viagens,  Historia,  etc,  etc. 

Volumes  in-8.*  de  160  a  200  paginas,  em  corpo  8  ou  10,  ezcellente  edição, 
em  óptimo  papel.  Preço  de  cada  Tolume  200  réis  brochado, 
ou  300  réis  elegantemente  encadernado  em  percalina.  Para  as  provincias 
accresce  o  porte  do  correio 

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N.®  1  —  Tristezas  á  Beira-Mar.  romance  de  Pinheiro  Chagas,  1  vol. 

N.<*  2  —  Contos  ao  Luar,  por  Júlio  Cezar  Machado,  1  vol. 

N/  3  —  Cármen,  romance  de  Merimée,  traducçâo  de  Mariano  Levei,  1  vol- 

H.'*  á  —  Â  Feira  de  Paris,  por  Iriel,  1  vol.  (2.'  ediçSo). 

N."  5  —  0  direito  dos  filhos,  George  Ohnet,  1  vol. 

N.o  6  —John  BuU  e  a  suailha,  traducçâo  de  Pinheiro  Chagas,  1  vol. 

N."  7  —  O, juramento  da  duqueta,  romance  histórico  por  P.  Chagas,  1  vol. 

N."  8  —  Â  lenda  da  meia-noite,  romance  phantastico,  por  P.  Chagas,  1  voL 

N.»  9— A  jóia  do  viee-rei,  romance  histórico,  por  Pinheiro  Chagas,  1  vol. 

N."  10—  Vinie  annos  de  vida  litteraria,  por  Alberto  Pimentel,  1  vol. 

N."  11— flonra  d'aHista,  romance  de  Octávio  Peuillet,  traducçSo  de  Pi- 
nheiro Chaga»,  1  vol. 

N.*  12—  0«  meus  amores,  contos  e  bailadas,  po    Trindade  Coelho,  1  vol. 

N.*»  13  e  14  — .4  aventura  d'um  polaoo,  por  Victor  Cherbuliez,  traducçâo 
de  Maria  Amália  Vaz  d«  Carvalho,  2  vol. 

N."  15 —  Os  contos  do  tio  Joaquim,  por  R.  Paganino,  1  vol. 

N."  16  —  As  batalhas  da  vida,  contos  por  Guiomar  Torrezâo,  1  vol. 

N.°  17  —Noites  de  Cintra,  romance  por  Alberto  Pimentel,  1  vol. 

N.*«  18  e  19— Em  segredo,  romance,  trad.  de  Margarida  de  Sequeira,  2  vol. 

N.®*  20  e  21  —  .á  Irmã  da  Caridade,  por  Bmilio  Castellar,  traducçâo  de  L. 
Q.  Chaves  2  vol. 

N."  22  —  Migalhas  de  historia  portuguesa,  por  Pinheiro  Chagas,  1  vol. 

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N."  25  —  Contos  phantastieos,  por  Theophilo  Braga,  1  vol. 

N.°  26-0  mysterio  da  estrada  de  Cintra,  por  Eça  de  Queiroz  e  fiamalho 
Ortigão,  1  vol. 

N.o  27—0  naufrágio  de  Vicente  Sodri,  rom.  histórico  de  P.  Chagas    1  vol. 

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IT.*"  30  e  31  -.amor  à  antiga  romance  de  Caiei,  2  vol. 

N."*  32  — ^a  Netas  do  Padre  Eterno,  por  Alberto  Pimentel. 

N.«  33  —  Contos,  de  Pedro  Ivo,  1  vol. 

N."  84 — O  correio  de  Lyão,  por  Pierie  Zaccone. 

N.»  85— Fida  de  Lisboa,  por  Alberto  Pimentel. 

N.°  36  —  Historias  de  BVades,  por  Lino  d'A88umpçâo. 

N."  37  —  Obras  primas,  por  Chateaubriand. 

N.»  38—0  Exilado,  romance  histórico,  por  Mauricia  C.  de  Figueiredo. 

N."  39  —  Poema  da  Mocidade,  por  Pinheiro  Chagas. 

N.°  40  e  41  —.4  Vida  em  Lisboa,  por  Júlio  César  Machado. 

N.*  42  e  43  —  Espelho  de  Portuguezes,  por  Alberto  Pimentel. 

N.°  44  — A  Fada  d'AuUuil,  por  Ponson  du  Terrail,  traducçâo  de  Pi- 
nheiro Chagas. 

N.o  4Ò  —  A  Volta  do  Chiado,  por  Beldemonio  (Eduardo  de  Barro*  Lobo). 

N*  46—Séea  e  Mica,  por  Lino  d'A88umpçao. 

N."  47  —  Ninho  de  guincho,  por  Alberto  Pimentel. 

N."  48  —  Vasco,  por  Arthur  Lobo  d'Avila. 

N.*  49  —  Leituras  ao  terão,  por  António  Xavier  Rodrigues  Cordeiro. 

N.*  60  —  Lut  éoada  por  ferros,  por  D.  Anna  Augusta  Plácido. 


Requisições  á  Parceria  António  Maria  Pereira 

Biua  AxÊguêta^  CO,  B9  §4  -^LISBOA 


€Oi.E.E:eçAo  «c  oivomcA 

Volumes  de  tn-iB.".  de  240  a  320 

ROMANCES    DOS   MELHORES    AUGTORES 

A  100  réis  o  vohimc  (pelo  correio  120  réis) 

*  N.»  1  —  Aventuras  prodigiosas  de  Tartarin  de  Tarascon,  se- 
guidas de  Tartarin  noa  Alpes;  por  A.  Daudet,. 

♦  N.»  2  —  Pedro  e  João,  por  Guy  de  Maupassant. 

•  N/  3  -  Sérgio  Panine,  por  Jorge  Ohnet. 
N.*  4  —  O  Sonho,  por  Emilio  Zola. 

N.«  5  —  Soror  Philomena,  por  Edmond  e  Jules  Goncourt. 
N.»  íí  —  O  medico  assassino,  por  Octávio  Féré. 
N."  7  ~  Os  milhões  vergonhosos,  por  Heitor  Malot. 

♦  N.«  8  —  O  amigo  Fritz,  por  Erckmman  Chatrian. 
N.«  9  —  Vogando,  por  Guy  de  Maupassant. 

♦  N.»  10— Um  romance  de  mulher,  por  Pierre  Mael. 

•  N/  11  —  Vontade,  por  Jorge  Ohnet. 

•  N.»  12  —  0  Nababo,  por  A.  Daudet. 

•  N.°  13  —  Um  coração  de  mulher,  por  Paul  Bourget. 

♦  N.*  14  — Beatriz,  por  Rider  Haggard. 

•  N.»  15-0  crimo,  por  Gabriel  d^Annunzio. 

♦  N.«  16  —  Lise  Fleuron,  por  Ohnet. 

N.»  17  —  Os  dois  rivaes,  por  Armand  Lapointe. 

N.*  18  —  O  ultimo  amor,  por  Jorge  Ohnet 

N.«  19  — Um  Búlgaro,  por  Ivan  Tourgueueff. 

N.»  20  — Memorias  d'um  suicida,  por  Maxime  du  Camp. 

N."  21  —  Forte  como  a  morte,  por  Guy  de  Maupassant. 

•  N.»  22  —  A  alma  de  Pedro,  de  J.  Ohnet. 
N.»  23  —  Camilla,  de  Guérin-Giniety. 
N.»  24  — Trahida,  de  Maxime  Paz. 

N.<*  25  — Sua  Magestade  o  Amor,  por  A.  Belot. 
N.o  26  — Magdalena  Férat,  por  Emilio  Zola. 
N.»  27  —  Os  Reis  no  exílio,  por  A.  Daudet. 
N.»  28  — Divida  de  ódio,  por  Jorge  Ohnet 
N.*  29  —  Mentiras,  por  Paul  Bourget. 
N.»  30  —  Marinheiro,  por  Pierre  Loti. 
N.»  31  —A  montanha  do  Diabo,  por  Eugénio  Sue. 
N;»  32— A  Evangelista,  por  A.  Daudet. 

♦  N.«  33  —  Aranha  Vermelha,  por  R.  de  Pont  Jest. 
N.o*  34  e  35  —  Ódio  antigo,  por  Jorge  Ohnet. 

N.»  36  —  Parisienses !  . .  romance,  por  H.  Davenel. 
N.»  37  — Ao  entardecerl...  rom.,  por  Iveling  Ramband. 
N.°  38  — A  confissão  de  Carolina,  romance. 
N.<*  39  —  Um  casamento  no  mosteiro,  por  Alfredo  AssoUand. 
N.»40  — Os  Parias,  oriííinal  de  Francisco  da  liocha  Martins. 
N.*»  41  —  O  abbade  de  Fa vieres,  romance,  por  J.  Ohnet. 
N.*  42  — A  agonia  de  uma  alma,  romance,  por  Ossip  Febubin. 
N.»  43  — Memorias  d'um  burro,  por  Madame  Ségur. 
N.»  44  —  A  nihilista,  por  Catulle  Mendes. 
N.»  45  —  0  grande  Industrial,  por  George  Ohnet 
N.»  46— Morta  d'amor,  por  Albert  Delpit. 
N.»  47— João  Sbogar,  por  Carlos  Nadier. 
N."  48— Viagem  sentimental,  por  Sternô. 
N.»  49— O  milhão  do  tio  Raclot,  por  Emile  Richebourg. 
N.*  50— A  confissão  de  um  rapaz  do  século,  por  Muaset. 
N.»  51—0  romance  de  um  príncipe,  por  Pierre  de  Lano. 
N.*  52—0  castello  de  Lourps,  por  J.  K.  Huysmans. 
N.»  53— Amor  de  Miss,  por  J.  Blain. 
N.*  54— A  sogra,  por  Dubut  de  Laforest. 
N.«  55— Colomba,  por  Próspero  Merimée. 
Todos  os  vol.  com  este  signal  *  estSo  esgotados  mas  vfto  ser  re* 
impresios. 


OBRAS 


CAMILLO  CASTELLO  BRANCO 


EDIÇÃO  POPULAR 

3CX1-V 

OS  BRILHAIITES  00  BimSILEIRO 


VOLUMES    PUBLICADOS 


I  — Coisas  espantosas. 

II  —  As  três  irmans. 

III  —  A  engeitada. 

rV  — Doze  casamentos  felizes. 

V  —  O  esqueleto. 

VI  —  O  bem  e  o  mal. 

VII  —  O  senhor  do  Paço  de  Ninães. 

VIII  —  Anathema. 

IX  —  A  mulher  fatal. 

X  —  Cavar  em  ruinas. 

XI  ) 

Correspondência  epistolar. 


XII 

XIII  —  Divindade  de  Jesus. 

XIV  —  A  doida  do  Candal. 
XV  —  Duas  horas  de  leitura. 

XVI  — Fanny. 

xvn  ) 

XVIII  I  Novellas  do  Minho. 

XIX  ) 

XX  ) 

Horas  de  paz. 

XXII  — Agulha  em  palheiro. 

XXIII  —  O  olho  de  vidro. 

XXIV  —  Annos  de  prosa. 

XXV  — Os  brilhantes  do  brasileiro 


CAMILLO  CASTELLO  BRANCO 


§S  illlffi  DO  MSIL 


QUARTA  EDIÇÃO 


REVISTA  E  CORRECTA  PELO  AUCTOR 


LISBOA 

Parceria  ANTÓNIO  MARIA  PEREIRA 

UVRARIA  EDITORA 

Rua  Augusta,  5o,  5-2  e  $4 
1904 


LISBOA 
OpnciNAS  Typographica  e  de  Encadernação 

Movidas  A  vapor 

Rua  dos  CorreeiroSf  70  e  72^  /•• 

1904 


PKEpflCIO  Dfl  SEGUííM  EDIÇÃO 


Recebeu  o  publico  urbanamente  este  livro 
posto  que  o  livro  não  se  apresentasse  sempre 
de  luva  branca  aos  seus  hospedeiros  amigos. 
Algumas  vezes,  o  auctor,  descurando  a  pauta 
do  moderno  decoro  com  os  leitores,  abusou 
do  tom  de  familiaridade,  e  nos  quer  parecer 
que  despiu  a  casaca,  e  se  ficou  em  mangas  de 
camisa  a  contar  as  manhas  das  Ruivas  e  Ca- 
traias, dos  Fialhos  e  Athanasios.  Tem  elle  dito 
aos  seus  amigos  que  a  velhice  auctorisa  cer- 
tas liberdades;  e  que,  por  mais  agua  de  cal 
que  se  lance  nos  esgotos,  os  cheiros  nauseati- 
vos  vaporam  sempre.  Esta  rasão  da  velhice  e 
dos  cheiros  não  é  efficaz ;  e,  por  tanto,  é  de  es- 
perar que  elle,  na  terceira  edição  do  romance, 
introduza  sifões  mais  perfeitos  nas  suas  latri- 
nas sociaes,  tornando  inodoros  os  seus  perso- 
nagens. 


Afflícções  sudoriferas 


Em  um  frigidissimo  dia  de  janeiro  de  1847,  por 
volta  das  nove  horas  da  manha,  o  sr.  Hermene- 
gildo Fialho  Barrosas,  brasileiro  grado  e  dos  mais 
gordos  da  cidade  eterna,  estava  a  suar,  na  rua  das 
Flores,  encostado  ao  balcão  da  ourivesaria  dos  srs. 
Mourões.  As  camarinhas  aljofravam  a  brunida  testa 
de  Fialho  Barrosas,  como  se  a  porosa  cabeça  d'este 
sujeito  filtrasse  hydraulicamente  o  estanque  de  soro 
recluso  no  bojo  não  vulgar  do  mesmo. 

Era  o  suor  respeitável  da  mortificação;  o  espon- 
jar das  glândulas  pela  testa,  quando  as  lagrimas 
golpham  dos  seus  poços,  e  não  bastam  já  olhos  a 
estancal-as.  Era,  em  fim,  a  dor  que  flameja  infer- 
nos em  janeiro,  e  tira  d'um  homem  adiposo  e  gla- 
cial lavaredas,  como  o  ethna  as  repuxa  por  entre 
as  neves  do  seu  espinhaço. 

Sondemos  o  que  passa  dentro  d'aquelle  corpo,  e 
desinchemos  as  bochechas  do  estylo. 


8  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Hermenegildo  Fialho  tinha  recebido,  ás  oito  da 
manhã,  no  seu  escriptorio  de  consignações  e  des- 
contos na  rua  das  Gongostas,  um  bilhete  da  ouri- 
vesaria Mourão,  convidando-o  a  entrar  n'aquelle  es- 
tabelecimento, quando  podesse,  para  negocio  ur- 
gente. 

O  substantivo  anegocio»  abalou-o.  O  adjectivo 
«urgente»  sacudiu -o. 

Poz  o  chapéo,  revestiu  de  borracha  os  pés  im- 
permiaveis,  affligindo-os ;  enroscou  a  cara  no  cache- 
nez,  sobraçou  o  guarda- chuva,  e  foi  impando,  costa 
acima,  pelo  largo  de  S.  Domingos,  resmuneando 
no  intimo  de  si:  «negocio  urgente!...  que  diabo  de 
urgente  negocio  será  este  com  o  ourives  !?...» 

—  Então  que  temos? — perguntou  o  esbofado 
Barrosas,  e  sentou-se  na  gemente  cadeira. 

E  os  srs.  Mourões  disseram  pouco  mais  ou  me- 
nos o  seguinte:  Que,  seis  annos  antes,  elle  brasi- 
leiro lhes  havia  comprado  um  adereço  de  brilhan- 
tes, composto  de  gargantilha,  brincos,  broche  e  bra- 
celete por  6:5oo.'ZC500o  réis,  com  o  fim  de  presentear 
sua  noiva,  segundo  elle  comprador  o  declarara.  Que, 
passados  sete  mezes,  pouco  mais  ou  menos,  uma 
mulher  desconhecida  entrara  na  loja,  e  lhes  vendera 
um  brilhante  desengastado  por  2boití)ooo  réis.  Seis 
mezes  depois  haviam  comprado  á  mesma  mulher 
outro  de  igual  quilate  e  valor.  Corrido  o  mesmo 
praso,  outro  lhes  fora  offerecido  e  vendido.  Que, 
no  fim  d'um  anno,  um  ourives  visinho  lhes  tinha 
negociado  um  brilhante  de  cem  libras,  o  qual  lhes 
despertara  reminiscência  de  ter  sido  vendido  em 
sua  casa';  mas,  por  mais  que  avivaram  lembranças-, 


Os  brilhantes  do  brasileiro  (j 

não  recordaram  a  quem.  E,  volvido  pouco  mais 
d'um  anno,  diverso  ourives  lhes  vendera  outro  bri- 
lhante do  mesmo  preço,  dizendo  que  o  comprara  a 
um  joalheiro  hespanhol.  Não  obstante,  insistiam  em 
affirmar  que  as  duas  ultimas  pedras  tinham  já  sido 
d'elles;  sem  todavia  desconfiarem  de  roubo.  Acon- 
tecendo, porém,  que  oito  dias  antes,  uma  mulher 
com  geito  de  criada,  a  mesma  que  primeiro  lá  ti- 
nha ido,  lhes  levasse  uma  pulseira  para  se  engas- 
tarem pedras  falsas  no  encaixe  de  outras  já  desen- 
cravadas,  a  desconfiança  inclinou-se  logo  para  rou- 
bo. Ficou  a  pulseira,  e  depressa  reconheceram  que 
era  de  sua  casa,  e  d'ahi  a  suspeita  de  que  os  bri- 
lhantes comprados  lhe  houvessem  pertencido.  Os 
dois  maiores  ainda  existiam  soltos.  Ajustaram^os 
nos  engastes:  frizavam  perfeitamente.  Recordaram 
com  mais  seguras  probabilidades,  e  convieram  na 
presumpção  que  a  pulseira  era  parte  das  jóias  do 
noivado  compradas  pelo  sr.  Barrosas,  seis  annos 
antes.  E,  na  incerteza,  deliberaram  prudentemente 
reter  a  mulher,  quando  ella  viesse  buscar  o  brace- 
lete, certos  de  que,  a  ser  a  jóia  do  sr.  Fialho,  por 
força  se  praticara  roubo,  sendo  improvável  que  um 
sujeito  notoriamente  rico  mandassse  vender  bri- 
lhantes e  repor  minas  novas  na  pulseira  de  sua 
esposa. . . 

—  Deixe-m'a  cá  ver!  —  atalhou  o  brasileiro  — 
Mostre-me  isso  ? 

Mostraram-lh'a. 

Era  a  pulseira  de  Angela. 

Aqui  principiou  a  borbulhar  um  sumo  gomoso  e 
crasso  da  testa  do  homem. 


jo  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  É  de  minha  mulher,  acho  eu  !  —  tartamudou 
ainda  indeciso  o  sr.  Fialho  —  Que  é  da  criada? 

—  Está  na  policia  porque  tentou  fugir.  Se  vossa 
senhoria  quer,  vae  um  cabo  buscal-a. 

—  Bom  será,  que  eu  não  posso  mecher-me. . . 
Parece  que  me  arde  o  interior !  Dão-me  os  senho- 
res um  copo  d'agua,  se  fazem  favor?...  Isto  só  no 
inferno  I  —  proseguiu  o  sr.  Barrosas^  batendo  na 
testa  com  os  pulsos  -  Minha  mulher  não  vendia  os 
brilhantes  !  É  impossível !  Vendêl-os  p'ra  quê  ?  P'ra 
quê,  não  me  dirão  os  senhores  ? 

—  Pôde  ser  que  estejamos  enganados  —  observou 
um  dos  honrados  ourives ;  —  mas  o  esclarecerm^o- 
nos  é  tão  necessário  para  vossa  senhoria  como  para 
nós.  Se  nos  illudimos,  ficamos  contentíssimos  e  so- 
cegados.  As  nossas  suspeitas  não  offendem  ninguém, 
senão  a  criada.  Em  fim,  cumprimos  um  dever. 

—  Fazem  muito  bem  —  obtemperou  o  brasileiro  ; 
—  mas  minha  esposa  não  vendia  os  brilhantes... 
Roubar-lh'os  a  criada?  isso  pôde  ser;  mas...  Que 
figura  tem  ella  ? 

—  Baixa,  gorda,  mais  de  meia  edade,  vestida  lim- 
pamente. 

—  Os  signaes  são  d'ella. . .  Tem  uma  verruga  no 
nariz,  assim  do  feitio  de  ervilha  ? 

—  Não  reparei.. . 

—  E  um  dos  olhos  assim  a  modo  de  vesgo  ? 

—  Parece  que  sim...  Ella  não  pôde  tardar. 

—  E  então  os  senhores  —  volveu  o  brasileiro  com 
outro  gesto  de  cara  e  tom  de  voz  mais  afinado  — 
se  os  brilhantes  forem  meus,  como  hade  isto  ser  ? 

—  Como  hade  ser  ?!.. . 


Os  brilhantes  do  brasileiro  Ji 

—  Perdi-os,  eim? 

—  Isso  é  outra  questão. 

—  Que  questão  ?  Eu  acho  que  não  ha  questão  ne- 
nhuma... Se  os  senhores  compraram  uma  coisa 
roubada... 

—  Provado  o  roubo,  iremos  haver  a  importância 
dos  dois  brilhantes  uhimamente  comprados  ao  ou- 
rives que  nol-os  vendeu;  quanto  aos  que  comprá- 
mos a  pessoa  desconhecida,  posto  que  já  não  este- 
jam em  nossa  casa,  restituiremos  o  seu  valor,  se 
vossa  senhoria  quizer;  mas  seria  justo  e  honroso 
que  o  sr.  Fialho  não  sacrificasse  quem  o  acautellou, 
para  evitar  que  lhe  roubem  as  outras  jóias.  Do  con- 
trario, teríamos  de  nos  arrepender  d'um  zelo  que 
nos  vem  prejudicar. . . 

N*este  comenos,  chegou  a  criada  com  um  muni- 
cipal e  cabo  de  policia. 

—  E'  ella  mesma!  cá  está  a  ladra!  —  bradou  o 
brasileiro  —  Com  que  então  roubaste  a  pulseira  de 
tua  ama  ? ! . . .  Diz  lá  !  Não  respondes  ? 

A  creada  abaixou  a  cabeça,  e  fechou  hermetica- 
mente os  beiços,  como  se  receasse  que  alguma  pa- 
lavra lhe  fugisse. 

—  Que  dizes  tu,  Victorina  ?  —  bradou  o  amo  — 
Onde  tens  tu  o  dinheiro  dos  meus  brilhantes  ?  Diz 
onde  está  o  dinheiro  que  eu  não  te  metto  na  cadeia... 
Declaras  ou  não  ?  Olhem  a  ladra  que  não  tuge  nem 
muge  l  Já  viram  ?  Olha  que  te  rebento,  mulher  ? 
Falias  ?  Roubaste  os  brilhantes  ?. . .  E  esta  !  nem  pa- 
lavra !  Justiça  com  ella !  Enxovia,  até  declarar  onde 
está  o  meu  dinheiro!. . . 

Os  circumstantes^,  espantados  do  silencio  da  cria- 


12  Os  brilhatites  do  brasileiro 

da,  e  talvez  suspeitosos  d'algum  mysterio  talvez  jus- 
tificativo da  inculpabilidade  d'ella,  instavam-na  a 
responder. 

—  Perderia  a  falia  com  o  susto  —  aventou  o  cabo, 
e  sacudiu-a  pelos  hombros  paralhe  desemperrar  a 
lingua  —  Você  não  pôde  fallar,  creatura  ?  Que  fez 
você  ao  dinheiro  dos  brilhantes  ? 

—  Gastei  o. . .  — respondeu  ella  soluçando. 

—  Ah  !  já  confessou  ? — interveio  Hermenegildo — 
cadeia  com  ella,  que  eu  cá  vou  a  casa  ver  se  me 
falta  mais  alguma  coisa.  Hade  ir  degredada  ! 


II 


l:650tfl00  réis 


Estava  Angela  na  janella  de  sua  casa  na  «rua  do 
Bispo»,  quando  o  marido  surdiu  da  esquina  da  «Pra- 
ça nova».  Reconheceu-o  logo  pela  corpulência  re- 
donda. Retrahiu-se  da  janella,  e  disse  comsigo  as- 
sustada : 

—  Ha  novidade  !  O  coração  bem  m'o  dizia. . . 
Meu  marido  nunca  vem  a  casa  a  esta  hora !  E  Vi- 
ctorina  sem  chegar ! . . .  Que  seria  ! , . . 

O  resfolgar  de  Fialho,  escada  acima,  cobria  o 
estrondo  dos  pés  nos  degráos  que  rangiam. 

—  Angela !  Angela  !  —  clamava  elle. 

—  Que  é  ? 

—  Dou-te  parte  que  estás  roubada !  —  bradou 
o  espheroide. 

—  Roubada  !  gaguejou  a  esposa. 

—  Sim !  roubada,  tu  1  Aqui  tens  o  teu  bracelete 
sem  os  brilhantes.  Gonhecel-o  ?  Vê  lá  que  ladra 
sahiu  a  tua  criada  favorita !  Um  conto,  seiscentos  e 


14  Os  brilhantes  do  brasileiro 

cincoenta  mil  réis   de  pedras...  foi -se  !  E  tu  sem 
dares  tino  d'isto,  mulher  !  Viste  ? 

A  pulseira  tremia  nas  mãos  convulsivas  d'Angela. 

E  o  marido  proseguia : 

—  Aqui  tens  1  tirou-lhe  as  pedras  boas,  e  tinha  a 
pulseira  nos  Mourões  para  lh'as  incravarem  falsas. 
Lá  está  na  administração  a  ladra,  e  de  lá  vae  pr'á 
cadeia,  onde  hade  morrer ;  mas  o  meu  conto,  seis- 
centos e  cincoenta  mil  réis,  esse  é  que  não  torna... 

Angela  chorava  soluçante. 

—  Não  chores,  menina  !  —  accudiu  o  sr.  Barrosas 
—  olha  que  isto  não  abala  a  nossa  fortuna. . . 

—  O'  meu  Deus!  —  balbuciou  a  senhora  —  com 
as  mãos  nas  faces. 

—  Não  te  afflijas  que  eu  comprò-te  outra  pulseira, 
mulher,  deixa-me  cá  por  minha  conta  a  criada ;  que 
essa,  ou  eu  não  heide  ser  Hermenegildo,  ou  ella 
hade  morrer  na  enxovia. 

—  Que  infortúnio,  Jesus,  que  infortúnio  !  —  bra- 
dou ella  desafogando-se  a  custo  dos  soluços. 

—  E  ella  a  dar-lhe !  Tem  animo,  Angela  í  Já  te 
disse  que  te  dou  outra  pulseira.  Sou  muito  rico, 
graças  a  Deus !  Da  ladra  da  moça  eu  te  vingarei ! 

Angela  cobrou  alento^  ergueu  a  face,  enxugou  as 
lagrimas,  e  disse  serenamente : 

—  Não  prendas  a  criada  que  ella  estáinnocente. 

—  O  quê  ? 1 

—  Victorina  não  roubou  os  brilhantes. 

—  Então  quem  diabo  os  roubou  ? 

—  Mandei-os  eu  vender. 

—  Tu  ?  1  pr'a  que  ?  o  dinheiro  d'elles  que  lhe  fi- 
zeste ?  —  exclamou  o  marido,  fazendo  ambos  os  pés 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i5 

atraz^  e  tressuando  novos  repuxos  de  afflicto  suor 
—  Tu  mentes,  Angela  1  Dizes  isso  para  livrar  a  cria- 
da, não  é  verdade  ? 

—  A  verdade  é  que  Victorina  está  innocente.  Cas- 
tigame  a  mim,  se  queres,  que  os  brilhantes  foram 
vendidos  por  minha  ordem  —  tornou  ella  com  admi- 
rável serenidade. 

—  Que  fizestes  ao  dinheiro,  4u  ?  —  ululou  Fialho, 
sopesando  com  as  mãos  o  arquejar  do  abdómen. 

—  Gastei-o. 

—  Em  quê?  Não  tinhas  o  que  te  era  necessá- 
rio ? ! 

—  Tinha  ;  mas. . .  gastei  o  dinheiro. .  . 

—  Com  quem  ?  com  quem  ?  torno  a  perguntar 
com  dez  milhões  de  diabos,  com  quem  gastaste  um 
conto  e  seiscentos  e. . . 

—  Não  foi  em  coisas  que  me  deshonrassem,  nem 
a  ti.. . 

—  Então  diz  em  que  foi  ? 

—  Não  posso. 

—  Não  podes  ?  Raios  ! .  . .  pois  não  podes  ?  então 
quem  é  que  pôde  ? 

—  Não  posso. 

—  Arrebento  !  Tu  não  me  cegues,  mulher !  Olha 
que  eu  já  te  não  vejo  nem  enxergo !  Com  quem  gas- 
taste um  conto  e  seiscentos  e . . . 

—  Mata-me  que  te  perdoo  a  morte  !  —  volveu  ella 
tranquillamente  —  Morrerei  sem  remorsos  nem  ver- 
gonha. As  jóias  de  minha  mãe  valem  quatro  a  cinco 
contos  de  réis.  Faz  de  conta  que  estás  pago  do 
roubo  que  te  fiz :  lá  as  tens. 

—  A  historia  não  é  essa,  não  é  o  dinheiro. . .  — 


i6  Os  brilhantes  do  brasileiro 

replicou  briosamente  o  marido  —  O  que  se  quer  sa- 
ber é  a  quem  deste  o  capital  ? 

—  A  quem  o  precisava  para  não  ser  infeliz. 

—  Essa  é  boa !  Então  deste  um  conto  e  seiscen- 
tos e  cincoenta  mil  réis  de  esmola  ? 

—  Dei. 

—  Mas  a  quem?  a  quem?  com  dez  milhões  de... 

—  Não  te  posso  diíer  mais  nada,  Hermenegildo. . . 
.A  criada  está  innocente.  Não  a  prendas. 

—  Hade  ir  presa  até  dizer  a  quem  deste  o  di- 
nheiro. 

—  Ella  morrerá,  sem  o  dizer. 

—  Pois  hade  morrer. . .  —  vociferou  Barrosas  sal- 
tando e  batendo  com  os  dois  pés  em  cheio  no  soa- 
lho—  E  tu...  não  sei  o  que  será  de  ti... 

—  Mata-me  que  eu  não  tenho  pena  de  deixar  o 
mundo. . .  — murmurou  socegadamente,  mas  debu- 
lhada em  lagrimas,  a  pallida  senhora. 

Hermenegildo  rolou  a  sua  pessoa  fumegante  esca- 
das a  baixo.  Entrou  no  escriptorio  do  administra- 
dor, chamou  de  parte  a  authoridade,  e  contou-lhe 
o  occorrido  com  a  mulher^  insinuando  o  magistrado 
a  sacar  da  criada  o  segredo. 

—  O  meu  dever  é  aceitar  as  declarações  voluntá- 
rias da  criada,  —  disse  o  administrador  —  Não  posso 
incutir-lhe  terrores,  nem  devassar  os  segredos  da 
vida  domestica  de  vossa  senhoria.  Se  sua  senhora 
diz  que  a  criada  está  innocente,  a  confissão  da  ré 
não  basta  a  destruir  o  depoimento  da  ama,  sendo 
de  mais  a  mais  muito  natural  que  os  brilhantes  se 
hajam  vendido  por  consentimento  de  sua  esposa ; 
aliás  desde  muito  que  ella  teria  dado  pela  falta.  Em- 


05  brilhantes  do  brasileiro  17 

fim,  sou  obrigado  a  interrogar  a  ama  e  a  criada,  uma 
na  presença  da  outra. 

—  Essa  vergonha  é  que  eu  não  quero  !  —  obstou 
desabridamente  o  brasileiro. 

—  O  interrogatório  hade  ser  secreto :  não  ha  tes- 
temunhas que  divulguem  este  acto  impreterível  de 
justiça,  —  contraveio  a  authoridade.  —  Se  sua  senho- 
ra disser  de  modo  convincente:  «a  criada  cumpriu 
as  minhas  ordens»  é  certo  que  a  moça  não  pôde  ser 
pronunciada,  visto  que  obedeceu  a  sua  ama ;  e  os 
desvios  dos  bens  communs  feito  pela  esposa  não  é 
roubo,  nem  a  cumplicidade  da  criada  é  punível.  Se 
sua  esposa  foi  burlada  por  algum  industrioso,  e  qui- 
zer  declarar-se,  o  meu  dever  é  seguir  o  fio  do  en- 
redo ;  mas  o  que  eu  não  posso  é  interrogal-a  sobre 
segredos  da  sua  vida  intima.  Isso  pertence  a  vossa 
senhoria  mediante  processo  d'outra  naturesa. . . 

—  Então...  afinal  diz-me  vossa  senhoria  que... — 
interrompeu  o  brasileiro  zangado. 

—  Que  vou  mandar  chamar  sua  senhora. . . 

—  Pois  chame  !  —  bradou  elle  —  Este  negocio 
hade  aclarar-se . . .  Não  se  me  importa  a  vergonha 
nem  o  diabo !  Eu  sou  um  homem  de  bem,  sr.  ad- 
ministrador ! 

—  Quem  o  duvida  ? 

—  Ninhos  atraz  das  orelhas  não  m'os  fazem  1 

—  Com  rasão. . . 

—  O  meu  dinheiro  quero  saber  que  fim  levou.. . 

—  Essas  averiguações  é  que  são  delicadas,  sr. 
Fialho,  —  aconselhou  a  authoridade  —  E  parecia-me 
rasoavel  e  prudente  que  vossa  senhoria  as  guardasse 
para  o  secreto  da  sua  casa. 

2 


i8  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Mas  ella  não  o  diz! 

—  Se  o  não  diz  a  vossa  senhoria,  menos  o  dirá 
a  mim  ou  ao  juiz. . . 

—  Diz  que  deu  um  conto  e  seiscentos  e  cincoenta 
mil  réis  de  esmolas !  O  senhor  acredita  isto  ? 

—  Acredito;. ..  porque  não  ?  Se  ella  repartisse  por 
todos  os  infelizes  do  Porto  essa  grande  quantia,  es- 
tou em  que  não  chegaria  um  pinto  a  cada  pobre. 

—  Mas  então  a  criada  que  diga  a  quem  levava  as 
esmolas.  Dá-me  vossa  senhoria  licença  que  eu-  per- 
gunte ? 

—  Sim,  senhor  —  respondeu  o  administrador,  e, 
tangendo  uma  campainha,  disse  ao  official  de  dili- 
gencias : 

—  Essa  mulher  que  entre  aqui  sósinha. 
Entrou  Victorina. 

—  Responda  alli  a  seu  amo  —  disse  a  authoridade 
á  presa. 

Hermenegildo  assoou-se,  fez  duas  upas  na  cadei- 
ra, rossou  no  pavimento  as  espaciosas  plantas,  e 
rompeu  n^este  interrogatório: 

—  Quem  roubou  os  brilhantes? 

—  Fui  eu,  senhor. 

—  Mentes!  Os  brilhantes  foi  tua  ama  que  t'os 
mandou  vender! 

Victorina  estremeceu,  fitou  o  administrador,  e  ga- 
guejou palavras  imperceptíveis. 

—  Foi  sua  ama  que  mandou  vender  os  brilhan- 
tes?— interveio  a  authoridade. 

—  Não,  senhor. . .  Fui  eu  que  os, . .  furtei. 

E  as  lagrimas  derivavam-lhe  pelas  faces  copiosa- 
mente. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  ig 

«Esta  mulher  está  innocente!»  disse  entre  si  o 
interrogador. 

—  Mentes,  desavergonhada! — trovejou  o  sr.  Fia- 
lho, jogando  com  as  catapultas  dos  braços  á  cara  da 
criada. 

—  Levemos  isto  mais  moderadamente,  sr.  Barro- 
sas,—  admoestou  o  administrador  —  Ora  diga-me, 
mulher,  foi  vocemecê  mesma  que  vendeu  os  bri- 
lhantes ? 

Demorou-se  Victorina  em  responder: 

—  Fui,  sim,  meu  senhor. 

—  A  quem? 

Repetiu-se  a  mesma  tardança  na  resposta. 

—  A  quem  os  vendeu?  aos  ourives  Mourões?  — 
repetiu  o  funccionario. 

—  Sim,  senhor. 

—  Todos  ? 

—  Sim,  senhor. 

—  Está  vocemecê  mentindo.  Os  Mourões  compra- 
ram três  pedras  a  uma  mulher,  que  provavelmente 
era  vocemecê,  e  duas  a  um  visinho.  Como  explica 
vocemecê  esta  verdade  com  a  sua  mentira? 

A  mulher  abafava  com  soluços. 

—  Seja  verdadeira;  vocemecê  não  roubou  os  bri- 
lhantes: vendeu-os  por  ordem  de  sua  ama. . . 

—  Não,  senhor — acudiu  a  criada  com  vehemencia. 

—  Não  me  desminta,  que  logo  vae  ser  sua  ama 
interrogada  na  sua  presença,  e  ella  mesma  já  disse 
ao  sr.  Fialho  que  vocemecê  não  furtou  a  pulseira. 

—  O  que  eu  quero— intermetteu-se  o  brasileiro — 
é  saber  a  quem  a  tua  ama  dava  o  dinheiro. 

—  Isso  é  que  eu  não  quero  saber  em  quanto  sua 


20  Os  brilhantes  do  brasileiro 

senhora  se  não  queixar  de  que  foi  lograda  fraudu- 
lentamente— emendou  o  administrador  do  bairro — 
Já  disse  a  vossa  senhoria  que  esta  repartição  judi- 
ciaria não  é  confessionário,  nem  entende  com  a  mo- 
ralidade dos  actos  domésticos,  entre  casados,  em 
quanto  elles  se  não  queixam  competentemente.  Da 
minha  competência  é  saber  como  heide  enviar  esta 
mulher  ao  juizo  criminal.  EUa  teima  que  roubou  os 
brilhantes;  a  esposa  de  vossa  senhoria  declara  que 
os  mandou  vender.  O  meu  juizo  está  feito;  mas. . . 

—  Então  qual  é  o  juizo  do  sr.  administrador? — 
interrompeu  o  queixoso. 

—  E'  o  )uizo  do  sr.  Fialho. 

—  O  meu  ? ! 

—  Sim :  o  senhor  diz  que  foi  sua  esposa  quem 
mandou  esta  ou  outra  mulher  vender  as  pedras : 
eu  digo  o  mesmo. 

—  Mas  quem  me  hade  a  mim  dizer  o  caminho 
que  levou  o  dinheiro?  Um  conto  seiscentos  e. . . 

—  Sua  senhora,  se  quizer. 

—  Mas  esta  mulher  sabe-o. 

—  Vocemecê  sabe-o,  mulher?  —  perguntou  a  au- 
thoridade  sorrindo. 

—  O  quê,  meu  senhor? 

—  Sabe  o  que  aquelle  senhor  deseja  saber? 

—  Sabes  a  quem  tua  ama  dava  o  dinheiro  dos 
brilhantes  ?  —  perguntou  o  amo  com  estrondosos 
berros. 

—  Que  brilhantes? 

—  Os  brilhantes  que  ella  te  mandava  vender. 

—  Não  me  mandou  vender  nada. 

—  Então  roubastel-os  tu? 


Os  brilhantes  do  brasileiro  21 

—  Sim,  senhor. 

Hermenegildo  sobre  poz  os  braços  um  no  outro, 
transversalmente  apoiados  no  estômago,  e  começou 
a  dar  com  elles  de  modo  que  tiravam  um  som  de 
tympanites  das  cavernas  subjacentes. 

—  Já  viram  pouca  vergonha  d'este  feitio?  —  gri- 
tava elle  —  Veja  vossa  senhoria  se  isto  náo  é  para 
indoudecer  um  homem ! 

E,  levantando- se  com  prodigiosa  rapidez,  excla- 
mou : 

—  Vou  consultar  os  meus  amigos  sobre  o  que 
devo  fazer;  vossa  senhoria  faça  a  sua  obrigação.  O 
negocio  é  muito  serio.  Heide  sahir  com  honra  d'esta 
tramóia.  Sou  um  homem  de  bem.  Quem  quizer  sa- 
ber quem  é  Hermenegildo  Fialho  Barrosas,  pergun- 
te-o  ahi  na  praça  do  commercio  do  Porto. 

—  Sei  que  é  um  honrado  capitalista,  sr.  Fialho ! 
Quem  lhe  nega  as  suas  excellentes  qualidades? 

—  Vossa  senhoria  parece  que  está  disposto  a  fa- 
vor dos  criminosos  !  —  retorquiu  o  ricasso,  esbofe- 
teando uma  mosca  na  testa. 

—  Quem  são  aqui  os  criminosos? 

—  Não  sei !  não  entendo  esta  balbúrdia ! 

—  Sua  senhora  diz  que  mandara  vender  os  bri- 
lhantes. Quer  que  ella  seja  enviada  ao  juizo  crimi- 
nal com  o  labeo  de  ladra? — volveu  o  administrador 
agastado. 

—  Não  quero  isso!  quero  saber  quem  recebeu  o 
dinheiro. 

—  Não  posso  esclarecei  o. 

—  O  dinheiro  gastei-o  eu — repetiu  Victorina. 

—  E'  o  que  vamos  ver. 


22  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Disse,  e  tangeu  de  novo  a  campainha  o  funccio- 
nario  mandando  o  official  que  intimasse  a  sr.*  D.  An- 
gela a  comparecer  na  administração. 

—  Que  vem  ella  cá  fazer  ? ! — exclamou  Victorina 
com  afflicção — Minha  ama  não  tem  que  fazer  n^esta 
casa! 

—  Cá  se  avenham!  —  disse  o  brasileiro,  e  sahiu 
em  cata  dos  seus  amigos. 


III 


Retratos  do  nataral 


Os  amigos  do  sr.  Fialho,  áquella  hora,  estavam 
em  grupo  na  calçada  dos  Clérigos  á  porta  do  im- 
maculado  capitalista  ***. 

Hermenegildo  chamou-os  á  sala  do  primeiro  an- 
dar d'aquelle  prestante  amigo  dos  brasileiros,  e 
fallou  d'este  theor: 

—  Meus  amigos  velhos !  srs.  Athanasio  José  da 
Silva,  Pantaleão  Mendes  Guimarães  e  Joaquim  An- 
tónio Bernardo  ! . . . 

Interrompa- se  a  apostrofe,  e  desenhemos  as  proe- 
minências moraes  características  d'estes  sujeitos  in- 
vocados a  conferir  e  alvidrar  n'um  pleito  de  honra. 

O  sr.  Athanasio  tem  quarenta  e  oito  annos,  é  ca- 
pitalista, casado,  sócio  que  foi  de  molhados  com  o 
sr.  Fialho,  bom  visinho,  cidadão  pacifico,  e  aos  cos- 
tumes disse  nada.  Porém,  o  povo  reza  que  elle, 
apanhando  em  flagrante  a  esposa  n'uma  excursão 


24  Os  brilhantes  do  brasileiro 

philarmonica  ás  espheras  sonorosas  com  um  cai- 
xeiro, tão  duro  e  miúdo  tocara  o  compasso  no  cai- 
xeiro com  a  batuta  de  uma  tranca,  que  o  rapaz  ex- 
pulso a  couces  chegou  á  terra  natal  e  expirou  oito 
dias  depois,  contando  o  segredo  a  sua  família. 

A  esposa  de  Athanasio,  depois  de  encerrar-se 
quinze  dias  no  seu  quarto,  viu  abrir-se  a  porta  á 
força,  fez  o  acto  de  contricçao  para  morrer  christã- 
mente,  e  ia  expirar  de  pavor,  quando  o  marido  lhe 
abriu  os  braços  e  disse:  «Estás  perdoada;  mas,  se 
fazes  outra,  escavaco-te.»  Desde  então  o  porte  d'esta 
senhora  reduz  as  Fulvias  e  Marcellas  a  condições 
indignas  dos  gabos  históricos.  Peccadora  que  passe 
por  ella  é  visão  que  a  enjoa  e  adoenta.  As  filhas, 
quando  a  escutam  discretar  em  virtudes,  cuidam  que 
sua  mãe  é  uma  mulher  da  Biblia. 

Quanto  a  probidade  mercantil,  Athanasio  José 
da  Silva  é  contrabandista,  e,  algum  tempo,  ia  men- 
salmente á  estalagem  da  Ponta-da  Pedra,  em  três 
carruagens  de  recreio,  com  sua  familia  e  as  famílias 
dos  dois  amigos  presentes,  receber  cortes  de  seda, 
cambra'*as,  rendas  e  pellames  inglezes.  Conforme  á 
justiça  e  ás  manhas  do  Porto,  a  firma  de  Athana- 
sio é  das  mais  acreditadas  na. praça,  e  as  gazetas, 
quando  escrevem  Athanasio  José  da  Silva,  ante- 
pÕe-lhe  ao  nome  os  adjectivos  honrado  e  probo;  e, 
se  acontece  ir  para  Caldas  ou  praias  com  a  mulher, 
vae  sempre  f  o  honrado  capitalista  com  sua  virtuosa 
esposa». 

Pantaleão  Mendes  Guimarães,  quarenta  e  cinco 
annos,  capitalista,  armador,  antigo  negreiro  e  ten- 
gajador»  moderno.  Ha  doze  annos  que  uma  fres- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  25 

cassa  loureira,  chamada  Francisca  Ruiva,  lhe  coou 
filtros  cupidineos  atravez  das  enchundias  do  peito, 
e  lhe  atorresmou  os  toicinhos  da  alma.  Pantaleao 
trasladou  do  bordel  ás  alcatifas  de  sua  casa  a  Ruiva 
saudosa  do  lundum  chorado,  investiu  a  da  gover- 
nança da  dispensa,  e  mais  tarde  esposou-a,  no  in- 
tento de  condecorar  socialmente  a  lama  que  trou- 
xera do  alcouce.  E,  de  feito,  D.  Francisca  Mendes, 
n'este  anno  de  1847,  1^  logrou  a  satisfação  de  se 
ver  também  calumniada  de  «esposa  virtuosa»  nas 
gazetas. 

Joaquim  António  Bernardo,  negociante  por  ata- 
cado de  fazendas  brancas,  quarenta  e  um  annos, 
estúpido  perversissimo,  antigo  gandaieiro,  que  pas- 
sara uma  doce  mocidade,  subtrahindo  assucar  mas- 
cavo das  caixas  expostas  no  Terreiro  do  Paço,  e 
actual  irmão  da  Misericórdia  do  Porto  e  fiscal  da 
mesma.  Casou  com  a  mais  desbragada  pôlha  que 
deu  a  Maya,  e  arreiou  a  de  veludos  e  setins  para  a 
passear  nas  praças  do  Porto  com  o  gáudio  d'um 
cornaca  vaidoso  que  expÓe  o  seu  elefante  ajaezado 
bisarramente.  Esta  Lais  de  trapeira,  quando  passa 
espeitorada,  recende  e  trescala  o  fartum  das  excre- 
ções cutâneas. 

Não  obstante,  a  sua  recamara  não  inveja  á  de 
Lésbia  o  sevo  de  delicias  em  que  a  maiata,  Circe 
digna  dos  javardos  que  a  esforçam,  ganhou  renome 
que  bastaria  a  felicitar  três  coUarejas.  Esta  dama 
já  se  viu,  n'um  periódico,  em  que  se  dava  conta 
d'um  seu  baile,  nomeada  de  «illustre  e  distincta.» 
Ambos  os  epithetos  lhe  quadravam,  occultos  os 
substantivos.  Não  a  tratavam  de  virtuosa,  porque 


20  Os  brilhantes  do  brasileiro 

o  localista  receou  que  o  termo,  revendo  ironia,  lhe 
fechasse  as  portas  do  seguinte  baile. 

Eis  aqui  noiuito  em  escorço  esboçados  os  traços 
dos  três  amigos  de  Hermenegildo  Fialho  Barrosas. 

Deixal-o  fallar  agora. 


IV 

Tribunal  de  honra 


—  Amigos  e  senhores  —  proseguiu  Fialho  —  a  ra- 
são  doesta  chamada  vão  vocês  sabel-a ! 

—  Você  parece  que  está  afflicto,  sr.  Hermenegil- 
do ? !  —  accudiu  magoadamente  Pantaleão. 

—  Se  lhe  parece  !. . .  E'  um  caso  d'honra  e  que  me 
ha  de  atirar  á  cova ! 

—  Ora  deixe-se  d'isso !  —  sobreveiu  Joaquim  Ber- 
nardo—  Então  os  amigos  p'ra  que  servem?  Aqui 
estamos  physica  e  moralmente  para  tudo  que  fôr 
preciso. 

—  Meus  amigos  !  — volveu  o  marido  de  Angela  — 
acontece  em  minha  casa  o  mais  extraordinário  caso 
que  vocês  ouviram. . . 

—  Como  assim  ? !  —  interrompeu  o  marido  de 
Francisca  Ruiva. 

—  Negocio  de  mulheres!...  Poucas  vergonhas  de 
mulheres!...  Ainda  ha  quem  se  case!...  —  esclare- 
ceu Fialho  intercortando  as  palavras  com  uns  sus- 


2<y  Os  brilhantes  do  brasileiro 

piros  que  lhe  subiam  do  estômago  á  mistura  com 
os  arrotos  de  bacalháo  assado  do  almoço. 

—  De  mulheres?!  querem  vocês  ver!... — disse 
com  espanto  Athanasio  José  da  Silva.  • 

—  Temos  maroteira  ?  —  perguntou  Pantaleão. 

—  Ouçam  lá.  Minha  mulher  vendeu  cinco  brilhan- 
tes da  pulseira  de  casamento  que  eu  lhe  dei,  e  não 
diz  o  que  fez  a  um  conto  seiscentos  e  cincoenta  mil 
réis  sonante  que  recebeu  pelos  brilhantes.  Aqui  es- 
tá o  que  eu  tenho  a  dizer. 

Os  três  conferentes  levantaram-se  a  um  tempo, 
cruzaram  as  mãos  sobre  os  osssos  sacros  respecti- 
vos, e  começaram  a  passear  cada  um  para  seu 
lado. 

Quem  primeiro  parou  e  fallou  do  seguinte  modo 
foi  o  marido  da  maiata : 

—  Physica  e  moralmente  fallando,  sua  mulher, 
amigo  Hermenegildo,  vendendo  os  brilhantes  e  dis- 
pondo do  dinheiro,  deve  dizer  o  que  lhe  fez,  por 
força  ou  por  geito.  Eu  cá  por  mim  pegava  d'um  ar- 
rocho, e  dizia-lhe:  «ó  minha  amiga,  você  diz  o  que 
ÍQZ  ao  dinheiro,  ou  acaba  se  aqui  hoje  o  mundo!» 

—  Amigo  Joaquim  —  contrariou  Pantaleão  —  Não 
voto  por  esse  systema,  e  queira  perdoar.  Vamos  por 
partes.  O   amigo  Fialho  desconfia  de  sua  mulher? 

-Eu? 

—  Sim :  parece-lhe  que  ella  doidejou  e  lhe  fez  al- 
guma patifaria  ? 

—  Eu  sei  cá,  homem  !. . .  Vejo  isto  I. . .  Ah  !  esque- 
ciame  de  dizer  que  ella  diz  que  deu  o  dinheiro  aos 
pobres.    . 

—  Bem  me  fio  eu  n'isso !  Essa  não  amolo  eu  !  — 


Os  brilhantes  do  brasileiro  29 

refutou  Pantaleão,  bascolejando  nas  queixadas  um 
riso  gallêgo  —  Aos  pobres  1 . . . 

—  Também  eu  não  a  engulo  !  —  concordou  o  ir- 
mão da  Misericórdia  —  Que  diga  o  nome  dos  po- 
bres I  Sim !  queremos  saber  quem  são  os  pobres. 
Physica  e  moralmente  fallando,  se  ella  o  não  disser, 
está  provado  o  crime. 

—  isso  está  !  —  obtemperou  Athanasio  —  E  cá,  se 
a  tratantada  fosse  comigo,  era  negocio  feito,  per- 
cebe você  ? 

—  Você  que  faria?  —  perguntou  Fialho. 

—  Eu  ?  I  Eu  ? !  então  você  ainda  me  não  conhece  ? 
eu  cá  era  dois  pontapés,  e  rua,  percebe  você  ? 

—  Isso  não  são  modos !  —  obstou  Pantaleão  Men- 
des Guimarães  —  Amigo  Fialho,  você  averigue  esse 
caso  com  vagar. 

—  Não  tenho  que  averiguar!  — recalcitrou  o  ma- 
rido de  Angela  —  E'  isto  que  lhes  digo.  Gastou  o 
dinheiro  e  não  diz  em  quê. 

—  Então,  convento  com  ella  !  —  alvitrou  o  pru- 
dente Guimarães — Um  homem  de  créditos  faz  isto. 
Os  amigos  digam  agora  o  que  entenderem. 

—  Eu  —  opinou  Joaquim  José  Bernardo,  descas- 
cando os  rebordos  das  ventas  infectas  —  physica  e 
moralmente  fallando,  também  vou  para  ahi,  atten- 
dendo  a  que  é  melhor  não  dar  escândalo.  Você  ad- 
ministra-lhe  de  comer  e  beber  no  convento,  e  não 
quer  mais  saber  d'ella. 

—  E  se  lhe  pozer  demanda  a  mulher  ? !  —  lem- 
brou Athanasio. 

—  Demanda?  ora  essal... — accudiu  Joaqaim 
Bernardo  —  Demanda  ? 


3o  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Sim ;  vamos  que  ella  pede  metade  da  fortuna, 
ou  o  dote  de  trinta  contos  com  que  o  amigo  Fialho 
a  dotou? 

—  O  amigo  Fialho  não  tem  nada  —  respondeu 
triumphantemente  o  arbitro  —  Tudo  que  elle  tem  é 
nosso  por  uma  escriptura  de  divida.  Você  tem  pro- 
curação d'essa  mulher? 

—  Tenho. 

—  Então  que  lhe  pegue  com  um  trapo,  physica  e. . . 

—  Pelo  que  ouço  —  interrompeu  Fialho  —  vocês, 
amigos,  decidem  que  minha  mulher  se  porta  mal... 

—  Pois  isso !  —  confirmou  Pantaleão  —  Nem  dado 
nem  de  graça  !  Você  inda  duvida  ? ! 

—  Eu,  como  não  tenho  desconfiado  nem  visto 
nada. . . 

—  Podéra  vêr  I.  . . — redargiu  o  fiscal  da  Miseri- 
córdia. 

—  E  vocês  tem  ouvido  fallar  de  minha  mulher  ? 
—  perguntou  Fialho. 

—  Olhe,  isto  de  fallar,  falla-se  de  todas  —  respon- 
deu o  marido  da  maiata. — Nem  a  minha  tem  es- 
capado, cá  por  certos  zuns-zuns  que  me  chegaram 
aos  ouvidos ;  mas  vem  barrados  cá  pr*a  mim,  que 
eu  sei  quem  tenho. . . 

Pantaleão  e  Athanasio  trocaram  uns  lances  d'o- 
Ihos  velhacos  em  que  Hermenegildo  entrou  com  o 
seu  contingente  de  fino  maroto. 

—  Isso  é  verdade  —  apoiou  o  marido  de  Francis- 
ca Ruiva  —  A  gente  se  for  a  dar  ouvidos  á  cana- 
lha, está  perdida  com  a  sua  vida.  Um  homem  tem 
sempre  rabos  de  palha.  Mas  eu  ando  tanto  ao  se- 
guro cá  a  respeito  da  minha  honra,  que  desafio  o 


Os  brilhantes  do  brasileiro  3r 

mais   pintado  a  dizer    de  minha  mulher  isto  ou 
aquillo. 

D'esta  vez  os  olhos  de  Joaquim  encontraram  os 
de  Athanasio,  em  quanto  Fialho  lá  entre  si  dizia  : 
«Estás  arranjado  com  a  virtude  de  tua  mulher. . .» 

—  Meus  amigos,  —  disse  Athanasio  a  seu  turno  — 
isto  é  terra  de  calumnias  e  aleivosias.  A  inveja  vin- 
ga-se  em  nos  ferir  no  mais  sagrado  de  nossas  al- 
mas. Aqui  estou  eu  que . . . 

O  truculento  homicida  do  caixeiro  ia  fazer  o  elo- 
gio da  consorte,  quando  Barrosas  bradou  impacien- 
temente : 

—  Então  em  que  ficámos,  senhores  ? 

—  Em  que  ficámos  ? !  —  perguntou  Athanasio. 

—  Sim !  os  amigos  estão  ahi  a  palavriar  em  obje- 
ctos que  não  vem  á  collecção.  Ora  que  tenho  eu  que 
as  suas  mulheres  sejam  isto  ou  aquillo  ?  Se  são  boas 
e  virtuosas,  dêem  graças  a  Deus,  e  tratem  de  reme- 
diar este  contra-tempo, 

—  Não  tem  rasão  de  se  agoniar,  amigo  Fialho  — 
contrariou  mansamente  Pantaleao  — Isto  veio  ao  ca- 
so de  você  perguntar  se  tinhamos  onvido  fallar  de 
sua  mulher. . . 

—  Mas  ouviram?  —  accudiu  arrebatado  o  esposo 
de  Angela. 

—  Eu  não  !  —  condisseram  os  três  simultanea- 
mente ;  —  mas  você  bem  sabe,  —  ajuntou  Joaquim 
António,  resalvando  melhor  juizo  —  que  a  nós  nin- 
guém dizia  nada  porque  sabem  que  o  Fialho  e  nós 
somos  carne  e  unha, 

—  Sim — obtemperou  Pantaleao — Pôde  ser  que  ha- 
ja alguma  cousa ;  mas  pelo  que  eu  sei  não  perde  eHa. 


32  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Mas  vocês  entendem  que  o  dinheiro  não  foi 
para  esmolas. . .  —  repisou  o  marido  incommodado. 

—  Sim  eu.  . .  — murmurou  Joaquim. 

—  A  faliar  a  verdade. . .  —  disse  outro. 

—  E'  muita  esmola. . .  —  concluio  o  terceiro. 

—  Não  que  o  administrador  disse  que  podia 
ser  ! . . . — sobreveio  Fialho  casquinando  uma  risada 
gosmenta. 

—  O  administrador  é  um  asno!  —  definiu  laco 
nicamente  Pantaleão. 

—  Asno  e  mais  alguma  cousa  1  —  obtemperou 
Athanasio. 

—  E  então  dizem  vocês  —  tornou  o  brasileiro  — 
que  eu  devo  metter  já  minha  mulher  n*um  convento  ? 

—  Podéra...  —apoiou  o  marido  de  Francisca 
Ruiva. 

—  Deve  dar  esse  exemplo  de  moral  publica !  — 
confirmou  o  marido  da  maiata. 

—  E  saber  quem  lhe  comeu  os  brilhantes  para  se 
lhe  dar  cabo  da  casta  !  —  addicionou  o  matador  do 
caixeiro. 

—  E  isto  como  hade  ser  —  volveu  meditativo  o 
interrogador  dos  honrados  juizes  de  sua  dignidade 

—  Eu  não  a  quero  vêr  mais  diante  dos  meus  olhos  ! 

—  Também  nos  parece  acertado  isso. . .  —  con- 
veio  um  dos  três. 

—  Pois  então,  é  mister  que  os  meus  amigos  se 
encarreguem  de  lhe  dizer  que  se  recolha  a  um  con- 
vento. 

—  Não  me  nego  a  servil  o,  sr.  Fialho,  no  que  po- 
der ser-lhe  útil  —  disse  magnanimamente  Athanasio 

—  Os  amigos   conhecem-se  nas  occasiões,  percebe 


Os  brilhantes  do  brasileiro  33 

você  ?  Quer  então  que  vamos  dizer  a  sua  mulher 
que  é  preciso  já  )á  entrar  n'um  convento. . . 

—  Se  ella  não  disser  a  quem  deu  o  dinheiro,  no- 
meando os  pobres  um  a  um. . .  —  condiciou  Her- 
menegildo. 

—  Apoiado !  —  approvou  Athanasio  —  Se  o  di- 
nheiro se  foi  em  esmolas,  então  o  caso  muda  muito 
de  figura,  acho  eu. 

—  Isso  é  verdade  —  consentiu  o  fiscal  da  Mise- 
ricórdia \  —  mas  é  necessário  que  ella  não  torne  a 
cahir  na  asneira  de  dar  tão  grandes  esmolas» . .  que 
eu,  amigos  e  senhores  meus,  ainda  que  ella  me  dis- 
sesse os  nomes  dos  pobres,  havia  de  pôr  de  quaren- 
tona a  galga ! . . .  Em  fim  lá  vamos . . .  Amigo  Fia- 
lho, descance  em  nós,  e  espere-nos  aqui. 

Sahiram  os  mensageiros,  e  ficou  entregue  ás  con- 
solações do  aíFectuoso  dono  da  casa  o  agonisado 
marido. 


Considerações  plásticas 


D.  Angela  já  descia  as  escadas,  encaminhando  se 
á  administração,  quando  foi  intimada  a  comparecer 
em  juizo.  Pela  primeira  vez,  em  sua  vida  de  vinte 
e  seis  annos,  encarava  um  official  de  justiça,  cujo 
semblante  carregado  e  voz  cavernosa  a  trespassou 
de  susto.  O  esbirro  caminhava  de  par  com  ella, 
dando  ao  acto  uma  solemnidade  policial  que  fez  es- 
panto nos  logistas  visinhos.  Alguns  enviaram  os 
marçanos  na  colla  da  pallida  mulher  de  Fialho,  e 
ficaram  conjecturando,  com  variadas  hypotheses, 
por  que  iria  capturada  a  visinha. 

O  administrador,  ao  ver  Angela,  ergueu-se  em 
respeitosa  postura,  postergando  o  estylo  costumado 
n'esta  ordem  de  funccionarios,  cujo  lance  de  olhos 
é  sempre  fulminante,  denotando,  nos  vincos  da  fron- 
te severa,  a  carranca  da  justiça  que  os  anima  e 
afeia. 

Esta  desusada  urbanidade  do  magistrado  pôde 
explical-a  a  bellesa   de  Angela.  A  condição  d'um 


Os  brilhantes  do  brasileiro  35 

administrador  de  bairro,  no  exercício  de  suas  func- 
ções,  não  ha  ahi  compendio  de  civilidade  que  a 
pula  e  amacie  tanto  como  uns  olhos  meigos  que 
obrigam  a  respeito  e  amor  quando  intentam  so- 
mente pedir  commiseração. 

A  esposa  de  Hermenegildo  Fialho,  se  não  era 
formosa  para  causar  assombros,  tinha  direito  a  ser 
considerada  uma  das  mais  galantes  esposas  de  bra- 
sileiros, os  quaes,  n'aquelle  tempo,  eram  os  usufru- 
ctuarios  mais  ou  menos  exclusivos  das  peregrinas 
burguezas  do  Porto. 

Angela  não  era  portuense,  como  opportunamente 
se  dirá ;  mas,  no  rosado  sadio  da  musculatura  e  re- 
dondez das  formas,  pertencia  á  espécie  de  belleza 
sohda  e  tanto  ou  quê  patriarchal  que  distinguia  e 
avantajava,  sobre  todas,  as  senhoras  da  cidade  eter- 
na de  ha  quinze  annos  para  além.  E,  como  vem  de 
molde,  deixarei  aqui  em  estylo  lamentoso  uma  sau- 
dade á  memoria  d*aquella  raça  forte  de  mulheres 
quasi  extincta,  e  já  hoje  representada  por  suas  filhas, 
dessoradas  no  ambiente  impuro  dos  collegios,  e  adel- 
gaçadas por  uma  alimentação  franceza  que  lhes  de- 
pauperou a  opulência  do  sangue  herdado. 

Orvalharam  se-me,  ha  dias,  estes  olhos,  quando 
passados  annos  de  ausência  do  grande  confluente 
das  famílias  do  Porto,  volvi  ás  praias  da  Foz,  e  re- 
conheci a  custo  as  bellas  damas  da  minha  moci- 
dade. Fora  de  lisonja,  eram  ainda  grandiosas  remi- 
niscências dos  explendores  da  formosura  antiga, 
sem  impedimento  da  superabundância  de  tecidos 
moles  que  lhes  almofadavam  as  espáduas  e  qua- 
dris :  o  que  porém  entristecia  era  ver  as  filhas  d'es- 


^6  0$  brilhantes  do  brasileiro 

tas  sadias  mães.  Britannicamente  esgrouviadas,  de- 
latando a  magresa  na  adherencia  dos  trajos  aos 
ossos  escarnados,  as  filhas  das  sebáceas  bellesas 
de  i85o  assustam  a  alma  devotada  mais  fervorosa- 
mente ao  ideal;  que  a  pailidez  e  o  osso  não  é  o 
prisma  por  onde  poetas  costumam  entrever  as  des- 
lumbrantes coisas  do  céo. 

Além  d'outras  causas  doeste  deplorável  estiola- 
mento  da  geração  nova,  insisto  nas  que  já  argui : 
collegio  e  alimentação.  O  collegio  em  que  o  espiri- 
to atazanado  pelo  supplicio  lento  da  geographia,  da 
historia  e  da  grammatica,  perde  a  seiva  nativa,  e 
refaz-se  a  expensas  do  corpo;  de  maneira  que  a 
idéa  se  enriquece  ao  passo  que  o  musculo  deteriora : 
questão  fundamental  de  physiologia,  que  importa 
ser  estudada  nos  tratadistas  especiaes.  Quanto  á 
alimentação,  é  sabido  e  notório  o  progresso  peri- 
goso da  culinária  portuense  n'estes  últimos  vinte 
annos.  A  cosinha  tornou-se  a  antecâmara  da  sepul- 
tura. As  intoxicações,  causadas  pelas  especiarias, 
sobre-excedem  a  mortandade  feita  pelo  verdête,  pe- 
los fósforos  e  pelo  acido  prussico. 

Ora  é  de  saber  que  as  mães  d'estas  meninas 
apenas  aprenderam  o  necessário  de  leitura  e  es- 
cripta  para  sustentar  uma  correspondência  honesta 
e  parcimoniosa  com  os  sujeitos  adquados  ao  intento 
licito  da  familia  e  da  procreação.  De  espirito  não 
consummiam  coisa  que  lhes  fizesse  falta  no  corpo. 
A  naturesa  florecia  e  fructificava  desempedidamente. 
Pôde  ser  que  a  mulher  ignorasse  a  forma  do  globo 
e  a  situação  geographica  da  Abissínia;  mas,  cm 
compensação,  o  rosado  das  faces  e  o  alabastrino 


Os  brilhantes  do  brasileiro  3j 

dos  hombros  pareciam  estar  pedindo  azas  para  dis- 
putar formosura  a  uns  anjos  que  vos  encantam  por 
entre  as  folhagens  e  festões  dourados  das  cathe- 
draes.  Rasoavel  ignorância  e  solida  nutrição  expli- 
cam a  robustez  d'aquella  donosa  plêiade  de  cheru- 
bins  portuenses  que  levavam  os  olhos  do  forasteiro. 
Homem  de  Lisboa,  que  entrasse  no  theatro  de 
S.  João,  recordava-se  de  S.  Carlos  como  quem  se 
lembra  de  ter  visto  aquellas  almas  brancas  e  Uvi- 
das  das  formidáveis  visões  do  florentino  ;  ao  mesmo 
passo  que  os  rostos  carminados  das  filhas  do  norte 
realisavam  o  mais  vivaz  colorido  do  pincel  flamengo. 

Pois  saibam  que  vae  volatisar  se  da  terra  portu 
gueza  essa  raça  de  mulheres  que  nossos  filhos  já 
não  hão  de  ver.  Eu  não  deploro  este  desappareci- 
mento  somente  por  que  me  sinto  levado  na  corrente 
em  que  derivam  as  graças  plásticas  do  meu  tempo : 
esse  egoísmo  não  cabe  na  minha  alma.  Lamento, 
s'obre  tudo,  a  sorte  dos  meus  netos,  se  elles  tive- 
rem bastante  espirito  para  se  não  contentarem  com 
o  amor  dos  puros  espíritos.  Volvidos  cincoenta  an- 
nos,  n'este  andar,  se  a  mulher  assim  continua  a  su- 
btilisar-se,  a  conservação  da  espécie  não  me  parece 
provável.  A  meu  ver,  o  fim  do  mundo  está  se  an- 
nunciando  na  delgadeza,  seccura  e  descarnamento 
da  fêmea.  Virá  uma  geração  em  que  mulher  e  ho- 
mem se  defrontem,  não  já  para  se  quererem  e  ama- 
rem, senão  para  discutirem  egualdade  de  direitos 
entre  espirito  e  espirito,  entre  osso  e  osso.  Chegado 
o  género  humano  a  essa  extremidade,  acabou-se  este 
globo,  que  me  parece  ser  o  mais  ordinário  de  todos. 

Não  era,  todavia,  assim  quando  existiam  mulhe- 


3&  Os  brilhantes  do  brasileiro 

res  como  a  do  brasileiro  Hermenegil(jo  Fialho  Bar 
rosas. 

Alta  e  refeita ;  cabellos  castanhos  ;  testa  larga  e 
escantuda;  sobrolhos 'pretos  ;  pálpebras  amorteci- 
das com  aquelle  doce  cançasso  do  somno  irresisti- 
vel ;  faces  que  as  rosas  não  deixam  ser  trigueiras, 
mas  que  um  primoroso  apreciador  do  bello  desejaria 
menos  carminadas ;  beiços  arqueados  pelo  molde  da 
pequena  bocca,  ainda  pequena  quando  o  riso  mostra 
o  esmalte  dos  dentes;  pescoço  alto,  quebrando  em  on- 
dulações de  jaspe  e  torneios  de  espáduas  e  n'outras 
ondulações  que  o  cantor  das  Ilhas  dos  Amores  sa- 
bia descrever  lindamente  colhendo  nos  pomares  as 
suas  graciosas  analogias  :  tal  era  Angela.  Tal  era  ? ! 
Que  presumpção  !  Quem  soube  ahi  descrever  uma 
bellesa  mediana  por  maneira  que  vingasse  retra- 
tal-a  no  espirito  do  leitor  ?  E  que  direi  da  mulher 
que,  á  feição  de  Angela,  sobrelevava  ás  de  mais  gra- 
ças o  realce  d'um  suavissimo  colorido  de  candidez 
em  que  transluzia  alma  sublimada  e  cheia  de  poé- 
ticas tristezas! 

Que  admira,  pois,  que  o  administrador  do  bairro 
cortejasse  com  aíFavel  sombra  a  esposa  de  Fialho, 
sendo  que,  já  de  antemão,  propendia  a  protegel-a 
das  iras  um  tanto  brutas  do  mazorral  marido  ? 

—  Minha  senhora  —  disse  elle,  mandando  retirar 
os  circumstantes,  menos  a  criada  —  Seu  marido 
accusa  esta  mulher  de  lhe  haver  roubado  uns  bri- 
lhantes . . . 

—  Meu  marido  engana-se  —interrompeu  Angela 
—  Os  brilhantes,  que  a  minha  criada  vendeu,  fui  eu 
quem  os  mandou  vender. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  3g 

—  Mas  a  sua  criada  confessou  ter  sido  ella  quem... 
—  Já  sei  que  ella  confessou ;  mas  não  creia  vossa 

senhoria  senão  o  que  eu  lhe  digo  Esta  mulher  está 
innocente.  Pôde  vossa  senhoria  mandal-a  embora 
sem  receio,  que  estou  prompta  a  declarar  por  es- 
cripto  que  mandei  vender  os  brilhantes  da  minha 
pulseira. 

O  funccionario  sentia  sinceramente  não  ter  mais 
que  fazer  n'este  lance,  em  harmonia  com  o  código 
administrativo.  Quizera  elle,  com  qualquer  motivo 
judicial,  prolongar  a  sua  interferência  nos  negócios 
domésticos  da  linda  creatura ;  mas  não  lhe  occorria 
coisa  que  lhe  desculpasse  a  curiosidade,  ou,  mais 
exactamente,  a  fulminante  ternura  que  o  alvoraça- 
ra. Não  obstante  o  acanhamento  natural  d'estas  pai- 
xões de  assalto,  o  bacharel,  que  não  era  já  verde, 
e  podia  com  a  gravidade  do  aspecto  honestar  o  in- 
tento, animou-se  a  entrar  no  mysterio  dos  brilhantes 
com  a  seguinte  pergunta  : 

—  Vossa  excellencia  tem  bastante  confiança  no 
amor  de  seu  marido  ? 

Angela  poz  os  brandos  olhos  no  semblante  do 
interrogador,  silenciosa  e  desconfiada  do  intento  de 
tal  pergunta. 

O  administrador  insistiu,  esclarecendo : 

—  Pergunto  eu,  minha  senhora,  se  provada  a  in- 
nocencia  da  sua  criada,  vossa  excellencia  consegui- 
rá explicar  a  venda  dos  brilhantes  sem  irritar  o  gé- 
nio de  seu  marido,  motivando  suspeitas. .. 

Atalhou  Angela : 

—  Mandei  vender  os  brilhantes  para  fazer  bem 
a  uma  pessoa  infeliz. 


40  Os  brilhantes  do  brasileiro 

O  funccionario  receava  transpor  muito  além  a  ba- 
lisa  do  seu  officio,  averiguando  a  espécie  de  philan- 
tropia  que  uma  esposa  honesta  escondia  de  seu  ma- 
rido ;  mas  o  peccado  da  curiosidade,  desculpado 
pela  bellesa  da  interrogada,  esporeou-o  até  á  indis- 
crição de  perguntar  lhe  : 

—  E  essa  pessoa  infeliz  é...  é  pessoa  de  quem 
seu  marido  possa .. .  suspeitar...  relações...  me- 
nos louváveis  ? . . . 

Angela  doeu-se,  ou,  mais  ao  certo,  pareceu  cor- 
rida da  pergunta,  corando,  e  baixando  os  olhos  si- 
lenciosa. 

O  administrador  não  instou,  já  convencido  da  im- 
puresa  da  caridade.  Faltava  solida  base  para  tal 
juizo ;  mas  a  malicia  humana,  se  algumas  vezes  in- 
fama, adivinha  outras.  D'esta  vez,  porém,  o  magis- 
trado adivinhava  apenas  que  n'aquelle  mysterio  o 
coração  era  grande  parte. 

—  Bem  —  disse  elle,  violentando-se  a  respeitar  o 
segredo  alheio  de  sua  alçada  —  O  que  tenho  ave- 
riguado é  que  vossa  excellencia  mandou  vender  os 
seus  brilhantes,  e  que  a  criada  obedeceu  ás  ordens 
de  sua  ama. 

—  Certamente. 

—  Pôde  por  tanto  vossa  excellencia  retirar-se, 
quando  quizer,  e  a  sua  criada  também.  E  estima- 
rei —  ajuntou  elle  com  intencional  mas  delicada  iro- 
nia —  que  vossa  excellencia  comsiga  conciliar  á  sua 
boa  acção  a  complacência  do  sr.  Fialho. 

Deu  ares  de  o  não  perceber  a  pallida  esposa  do 
brasileiro.  Erguueu-se,  e  sahiu.  A  criada,  limpando 
as  lagrimas,  acompanhou-a. 


VI 


Amigos  do  seu  amigo 


Já  Hermenegildo  Fialho  estava  afflicto  com  a  de- 
mora dos  três  parlamentarios  enviados  á  esposa. 
Não  cuidava  elle  que  Angela  comparecesse  na  poli- 
cia, ou  se  havia  esquecido  de  ter  concordado  com 
a  authoridade  sobre  a  urgência  da  acareação  entre 
ama  e  criada. 

A  impaciência  dava-lhe  empurrões.  Gahia  aquelle 
sujeito  sobre  as  molas  das  othomanas  flácidas  e  fa- 
zia ringir  os  aços.  Resaltava  com  pasmosos  saltos 
d'um  coxim  para  outro,  e  parecia  tentar  um  suici- 
dio  por  despejo  da  janella  á  calçada  dos  Clérigos, 
quando  enxergou  na  Praça-nova  Joaquim  António 
Bernardo,  Pantaleão  Mendes  e  Athanasio  José  da 
Silva. 

Os  solicitadores  da  honra  de  Fialho  caminhavam 
á  pressa  e  com  ar  de  embezerrados.  O  brasileiro 
pregara  os  olhos  n'elles,  a  vêr  se  lhes  lia  alguma 
coisa  nas  physionomias,  cá  do  segundo  andar  onde 


4^  Os  brilhantes  do  brasileiro 

os  outros  Ihejviam^a  cara  grande  e  escarlate  como 
a  lua  dos  theatros. 

—  O  homem  dá-lhe  ataque  apopletico  !  —  disse 
Athanasio  a  Pantaleão. 

—  Asno  será  elle  se  lhe  der  algum  ataque!  — 
observou  Joaquim  António,  empregando  a  gramma- 
tica  e  a  phylosophia  do  seu  uso. 

—  Qual  ataque  nem  qual  diabo  !  —  corroborou 
Pantaleão  Mendes  — Um  homem  é  um  homem,  sabe 
você,  amigo  Athanasio  ?  E  mulheres  não  faltam, 
physica  e  moralmente  fallando.  Haja  dinheiro  e 
saúde :  o  mais,  regalorio ! 

—  Pois  sim  —  redarguiu  Athanasio,  quando  su- 
biam a  escada  — ;  mas  você  não  se  vá  pôr  a  dizer 
isto  nem  aquillo  da  mulher,  percebe  você  ?  Conte 
o  que  se  passou,  e  deixe  obrar  a  naturesa. 

—  Não  me  dê  conselhos...  —  resmuneou  Panta- 
leão —  Deixe  o  negocio  por  minha  conta ;  que  a 
honra  dos  meus  amigos  é  como  se  fosse  a  minha. 

Hermenegildo  estava  no  topo  da  escada  com  os 
braços  em  cruz  no  costado,  e  o  queixo  debaixo  ca- 
bido e  apoiado  sobre  o  papo  dos  bócios. 

—  Então  que  ha?  —  perguntou  elle  esgazeando 
pelas  caras  homogéneas  dos  três  um  relance  d'olhos 
penetrante. 

—  Vamos  conversar  —  respondeu  Pantaleão,  le- 
vando o  de  braço  dado  para  a  sala. 

—  Vocês  tardaram  tanto!  —  volveu  o  brasileiro. 

—  Estivemos  á  espera  que  a  sua  mulher  se  despa- 
chasse lá  da  policia ;  depois,  palavra  pucha  palavra, 
e  deitou-nos  a  conferencia  a  esta  hora  —  explicou 
Athanasio,  encarregando  Pantaleão,  por  um  gesto 


Os  brilhantes  do  brasileiro  43 

de  cabeça,  de  ser  o  relator  dos  casos  acontecidos. 
O  qual  tirou  do  interior  umas  palavras,  cortadas 
por  pausas  que  davam  á  narrativa  uns  toques  de  se- 
riedade, prejudicando  a  Índole  ridicula  da  scena. 

—  Senhor  compadre  —  disse  o  marido  de  Fran- 
cisca Ruiva.  —  Sua  mulher  não  estava  em  casa ;  aqui 
o  amigo  Joquim  foi-lhe  na  piugada,  e  soubemos  que 
ella  tinha  sido  chamada  á  presença  do  administra- 
dor. Esperamos  uma  hora  e  pico.  N'isto  chegou  ella 
a  mais  a  criada.  Estávamos  sentados  no  banco  do 
pateo,  quando  sua  mulher  deu  comnosco,  e  fez-se 
amarella  como  esse  colete  que  você  traz  vestido. 
Erguemo-nos,  fizemos  lhe  as  nossas  cortezias,  e  dis- 
se eu  que  lhe  queríamos  uma  palavrinha  em  parti- 
cular. Mandou-nos  subir,  e  chamou  para  dentro  que 
nos  abrissem  a  sala  de  visitas.  Entrámos,  e  d'ahi  a 
pouco  chegou  ella,  assim  com  modos  de  quem  se 
não  importava  muito  comnosco.  Sentou-se,  e  per- 
guntou o  que  quedamos ;  não  foi  isto,  amigo  Atha- 
nasio  ? 

—  Tal  e  qual ;  é  como  você  diz. 

—  Eu  tomei  a  palavra,  e  disse  que  o  meu  honra- 
do compadre  e  amigo  velho  Hermenegildo  Fialho 
Barrosas  nos  mandara  os  três  afim  de  averiguar  a 
quem  a  senhora  D.  Angela  deu  um  conto  seiscentos 
e  cincoenta  mil  réis  de  esmola.  E  vae  ella  esteve  um 
quasi  nada  a  pensar,  e  respondeu  que  me  não  dizia 
a  mim  nem  a  ninguém  o  que  não  tinha  dito  a  seu 
homem,  entende  o  amigo  ?  Depois,  aqui  o  nosso 
Athanasio  tomou  a  palavra,  e  começou-lhe  a  dar 
práqui-prácolá,  porque  torna  e  deixa,  a  senhora  deve 
confessar  o  que  fez  ao  dinheiro,  quem  lh'o  apanhou. 


44  Os  brilhantes  do  brasileiro 

que  qualidade  de  pessoa  era;  porque  as  mulheres 
não  podem  dispor  assim  dos  capitães  dos  seus  ho- 
mens, aliás  ninguém  pôde  contar  com  o  que  é  seu ; 
e  de  mais  a  mais  dar  um  conto  seiscentos  e  cincoen- 
ta  mil  réis  sem  dizer  a  quem,  era  caso  para  descon- 
fiar de  certas  coisas  muito  feias,  etc.  etc.  etc.  Em- 
fim,  o  amigo  Athanasio  batalhou  com  ella,  apertou-a 
por  todos  os  lados,  mas  respondeu  você,  compadre? 
não  respondeu  ?  nem  ella  !  Vae  depois,  o  amigo  Joa- 
quim fallou  também  com  toda  a  prudência  e  corte- 
zia,  discorrendo  a  respeito  da  honra  d'um  liomem, 
e  também  não  fez  nada.  Emfim,  como  ella  estivesse 
a  ouvir  sem  responder  uma  nem  duas,  eu  tomei  a 
palavra,  e  disse  que  o  senhor  seu  marido  lhe  orde- 
nava que  se  recolhesse  sem  perda  de  tempo  a  um 
convento.  Agora  é  que  são  ellas  1  —  proseguiu  Pan- 
taleão  Mendes  batendo  nas  próprias  pernas  duas 
palmadas  que  soaram  como  se  as  ponderosas  mãos 
batessem  nas  pernas  d'um  Cileno  de  pedra.  —  Que 
cuida  você,  compadre,  que  ella  respondeu  ? !  Que... 

—  Que  não  ia!  —  atalhou  o  brasileiro,  careteando 
com  olhos  e  bocca  e  nariz  uma  temerosa  carranca 
de  cólera. 

—  Isso  mesmo  !  —  conclamaram  os  três. 

—  «Não  vou» — accrescentou  o  relator — mão 
vou  para  convento»  disse  ella.  E  disse  mais:  tmeu 
marido  tomou  conta  das  jóias  que  eram'  de  minha 
mãe ;  que  fique  lá  com  o  dinheiro  dos  brilhantes,  e 
que  me  mande  o  resto;  se  quizer  mandar;  se  não 
quizer,  que  fique  com  tudo.  Convento  é  que  não.» 
Ha  de  ir!  gritei  eu;  ha  de  ir,  que  seu  marido  é 
quem  governa  na  senhora.  aNão  vou»  teimou  ella. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  45 

Então  que  quer  a  senhora  fazer,  se  o  seu  homem 
a  deixar,  sem  comer,  nem  beber,  nem  casa  ? —  «Tra- 
balharei para  viver  ;  e,  se  morrer  de  fome,  Deus  me 
dará  o  céo,  porque  morrerei  honrada  e  innocente.» 
—  Foi  o  que  ella  disse,  e  nós  quedamos  a  olhar  uns 
p'ros  os  outros.  Disse-lhe  então  o  amigo  Athanasio 
que  dissesse  a  quem  deu  o  dinheiro,  se  estava  hon- 
rada e  innocente. 

—  E  vae  ella. . .  —  accudiu  o  brasileiro  anciada- 
mente. 

—  Respondeu  que  só  se  confessava  a  Deus,  que 
sabia  a  pureza  do  seu  coração.  Não  foi  isto,  sr. 
Athanasio? 

—  Sem  tirar  nem  pôr. 

—  Tornei  a  fazer-lhe  outra  predica  —  proseguiu 
Pantaleão.  —  Disse-lhe  tudo  quanto  me  lembrou  em 
termos  commedidos,  não  sei  se  me  entende  ?  Não 
acreditei  que  ella  fosse  honrada  nem  innocente  por 
varias  rasões.  Ouviu-me  tudo  com  má  cara,  e  poz- 
se  de  pé,  e  disse  que,  se  lhe  não  quedamos  mais 
nada,  que  podíamos  ir  á  nossa  vida.  Veja  você  que 
atrevida  má-creação  a  da  tal  senhora  1  Impor  d'este 
modo  três  amigos  de  seu  marido,  que  iam  alli  tra- 
tar d'um  negocio  muito  serio  1  Coisa  assim  nunca 
me  aconteceu  na  minha  vida ;  e  só  pela  honra  d'um 
amigo  velho  é  que  se  pôde  tragar  d'estes  bocados ! 
A'  vista  d'isto,  a  nossa  commissão  estava  acabada. 
Não  tínhamos  que  fazer  alli.  Pegámos  nos  chapéos 
e  nas  bengalas,  e  sahimos.  Aqui  tem  o  acontecido. 
Você  fará  o  que  quizer,  compadre. 

Hermenegildo  começou  a  passear  na  sala,  jogan- 
do de   braços  por  maneira  que  parecia  ensaiar-se 


46  Os  brilhantes  do  brasileiro 

com  elles  para  esvoaçar.  Os  amigos  contemplavam- 
no  com  umas  caras  tristes,  quando  um  criado  en- 
trou com  uma  bandeja,  na  qual  transparecia  em 
christaes  a  opala  de  antiquíssimos  vinhos,  lardea- 
dos  de  marmelada,  e  outras  fructas  assucaradas  que 
negaceavam  o  apetite.  O  bisarro  dono  da  casa  con- 
vidou os  quatro  attribulados  a  honrarem  a  sua  gar- 
rafeira, e  sem  esforço  obteve  que' todos,  excepto 
Fialho,  rebatessem  os  Ímpetos  da  sua  angustia  com 
alguns  tragos  de  licor  que  investe  os  ânimos  de  for- 
ça reagente,  e  infunde  stoicismo  nas  mais  sandias 
almas. 

—  Compadre,  beba  d'este  —  disse  Athanasio  sob- 
pondo  ao  nariz  do  amigo  afflicto  o  cálix  aromático. 

—  Tire  isso  p'ra  lá  !  —  refusou  Fialho,  sacudindo 
a  cabeça,  e  fechando  os  olhos,  talvez,  á  tentação. — 
E  resmuneou,  entre  trágico  e  cómico  : 

—  Se  fosse  veneno,  mettia-o  no  corpo. . . 

—  Não  seja  asno  !  —  accudiu  com  hombridade 
Joaquim  António  Bernardo  —  pois  você  ainda  está 
n'essa  —  Matar-se  por  causa  de  mulheres  I  Está  a 
ler  o  nosso  homem  t  —  ajuntou  o  marido  da  maiata, 
gargalhando  com  applauso  dos  circumstantes  que 
bascolejavam  o  vinho  e  o  riso  entre  as  mandíbulas. 
—  Ingula  esse  nó  que  tem  nas  goelas,  e  beba,  ami- 
go Fialho  !  Mulheres  1 . . .  Com  que  então  você,  com 
amigos  e  fortuna,  era  capaz  de  tomar  veneno  p'rá- 
mor  d'uma  desaustinada  de  mulher  que  se  portou 
mal !  Ella  que  se  mate,  se  quízer ;  e  você  viva  re- 
galadamente com  cento  e  noventa  contos  que  tem. 
Faça  de  conta  que  ella  morreu,  e  trate  de  arranjar 
outra. . . 


Os  brilhantes  do  brasileiro  4'] 

—  Ou  duas,  que  é  melhor  —  emendou  Athana- 
sio. 

—  Ou  três  que  é  mais  peitoral  —  ampliou  Pan- 
taleão,  jpondo  a  mão  suavemente  nos  gorgomilos 
por  onde  ia  passando  um  damasco. 

—  O  dono  da  casa,  invejoso  do  espirito  dos  seus 
amigos,  accrescentou ; 

—  Quatro,  quatro,  para  não  ser  pernão. . .  O  da- 
do é  sete  fêmeas  para  cada  macho. 

—  Macho  será  você  !  —  replicou  Athanasio  com  a 
boca  a  disbordar  de  marmelada. 

Eis  aqui  o  caixilho  luctuoso  em  que  incuadrava 
a  agonia  de  Hermenegildo.  Por  pouco  não  descam- 
bava em  orgia  o  tribunal  de  homens  congregados 
para  julgar  a  deshonra  de  Angela,  e  salvar  a  digni- 
dade do  marido.  Paliavam  todos  a  um  tempo,  al- 
vitrando planos  tendentes  a  evitar  que  a  esposa  in- 
fiel tivesse  parte  nos  haveres  do  brasileiro.  Para 
poder  entrar  n*esta  secção  importante  com  inergia, 
Fialho  sopeteou  duas  bolachas  americanas  n'um  cá- 
lix do  de  1806,  e  poz  a  mão  instinctivamente  no  bu- 
cho aquecido,  e  capaz  de  competir  em  calor  com  o 
coração  visinho.  Os  amigos,  fazendo-o  beber  segan- 
do cálix,  applaudiam  o  seu  triumpho,  e  juravam  que, 
ao  terceiro,  a  honra  do  seu  amigo  ficaria  lavada  co- 
mo as  goelas. 

Apoz  longos  debates,  em  que  todos  fallavam  á 
mistura,  convieram  em  que  Fialho,  como  commcr- 
ciante  que  era,  se  obrigasse  por  escriptura  a  di- 
vidas excedentes  ao  valor  dos  seus  bens  immoveis. 
e  desde  logo  alienasse  os  titulos  bancários,  e  se  co- 
zesse com  o  dinheiro.  A  soberana  rasaoque  poz  os 


48  Os  brilhantes  do  brasileiro 

cinco   alvitristas  n'este  accordo,  deve-se  a  Athana- 
sio,  o  qual  raciocinara  d'esta  laia : 

—  Amigo  e  compadre  Fialho,  não  ha  que  duvi- 
dar :  sua  mulher  tem  homem  a  quem  deu  o  dinhei- 
ro. Este  homem  hade  aconselhal-a  a  separar-se  de 
você  para  se  dividirem  os  bens,  percebe  você  ?  Se 
você  os  tiver,  que  remédio  ha  senão  repartil-os.  O 
maior  logro  e  castigo  que  você  pôde  pregar  a  ella 
e  mais  ao  patife  é  não  ter  nada  que  repartir?  Eim  ? 

A  resposta  geral  foi  um  brado  unisono.  E  logo, 
no  afogo  do  enthusiasmo,  sacrificaram  a  quarta  gar- 
rafa e  uma  bandeja  de  pasteis  de  Santa  Clara. 

—  Mas,  se  ella  não  quizer  sahir  de  casa?  —  per- 
guntou Barrosas,  acalmado  o  barulho. 

—  Você  já  não  tem  casa.  A  sua  casa  está  vendi- 
da. Um  de  nós,  quando  o  compadre  quizer,  vae  to- 
mar posse,  e  sua  mulher  recebe  intimação  judicial 
para  despejo,  percebe  você?  —  respondeu  enfatica- 
mente Athanasio. 

—  Diz  você  bem,  compadre  —  obtemperou  Fia- 
lho —  que  eu  tenho  procuração  d'ella  em  branco. 
Faz-se  escriptura  da  venda  da  casa.  E  n'esse  caso 
é  preciso  avisal-a  que  se  mude  quanto  antes.  Vamos 
ver  se  ella  sahe  ao  bem. 

—  Duvido;  —  atalhou  Joaquim  António  Bernardo 
—  aquillo  é  mulher  finória  e  soberba.  Sem  ser  por 
justiça,  não  a  põe  o  amigo  fora  de  casa. 

Continuaram  debatendo  questões  jurídicas  ao  pro- 
pósito, em  que  as  sandices  se  disputavam  primasia, 
até  que,  chegada  a  hora  de  jantar,  Hermenegildo 
foi  hospedar-se  em  casa  do  compadre,  reservando 
para  a  reunião  do  dia  seguinte  o  plano  definitivo. 


VII 


Revelações  cómicas 


A's  onze  da  noite  d'aquelle  dia,  Hermenegildo 
Fialho  rebolava-se  no  enxergão  de  pennas,  e  gemia 
uns  gemidos  que  soavam  como  regougo  de  raposa. 
A  comadre  foi  escutal-o  á  porta,  e  veio  dizer  ao 
marido  que  o  compadre  estava  a  gemer  de  sauda- 
des da  indigna  mulher.  Ageitou-se  á  esposa  escan- 
dalisada  boa  occasião  de  cortar  nas  mulheres  des- 
leaes;  o  marido,  porém,  que  tinha,  ás  vezes,  cons- 
cienciosas brutalidades,  tapou-lhe  os  respiradoiros 
da  ira,  murmurando : 

—  Galla-te,  calla-te;  e  não  me  cantes  tretas  a 
mim . . . 

A  esposa  incolheu-se,  odiou  mais  do  intimo  o 
marido,  e  gosou  o  néctar  dos  deuses,  o  prazer  da 
vingança  antecipada,  e  a  prelibaçao  da  vingança 
porvir.  Ah  !  Athanasios,  Athanasios  ! . . . 

Ergueu-se  o  verdugo  de  caixeiros  deshonestos. 
(Veja  o  cap.  III)  e  foi  ao  quarto  do  hospede. 

4 


So  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Que  tem,  compadre?  —  perguntou  elle  — Não 
pôde  dormir  ?  Estranha  a  cama,  ou  que  é  ? 

—  E'  uma  dor  de  barriga  —  respondeu  o  triste, 
apanhando  nas  mãos  a  parte  dorida,  e  acocorando 
se  —  Fez-me  mal  o  empadão  das  ostras.  Dá-me  vo 
cê  um  bocado  de  Hollanda,  a  ver  se  esmôo  este 
diabo  de  marisco? 

Fialho  sugou  na  botija,  e  d'ahi  a  pouco  tinha  es- 
moido  o  empadão,  e  rebentava-lhe  tanta  saúde  pela 
cara  fora  que  parecia  desafiar  todas  as  ostras  do 
sr.  Bocage  a  perturbar-lhe  o  somno. 

Mas  o  compadre,  sentando-se-lhe  na  cama,  per- 
guntou : 

—  Quer  você  cavaco  ?  Ainda  agora  deram  as 
onze. 

—  Vá  lá;  vamos  conversar,  que  eu  estou  esperti- 
nado. 

—  Você  nunca  desconfiou  de  sua  mulher  ? 

—  Eu  nunca. 

—  Não  ia  lá  por  casa  ninguém. . . 

—  Nem  alma  viva,  a  não  ser  a  costureira.  Visitas 
foi  coisa  que  nunca  me  entraram  das  portas  p'ra 
dentro,  afora  você  e  mais  a  sua  patroa. 

—  Mas  no  theatro . . . 

—  Theatro!  tó  carocha  t  foi  logar  onde  nunca  a 
levei . . . 

—  E  na  missa  ? 

—  Missa ! . . .  não  era  moda  lá  em  minha  casa . . . 
Você  bem  sabe  que  a  gente  lá  no  Brasil  perde  o 
pêllo.  Logo  que  casei  disse-lhe  que  isto  de  missa 
era  uma  historia.  Ella  ao  principio  ficou  estarreci- 
da: mas  foi-se  afazendo.  Comprei-lhe  um  oratório 


Os  brilhantes  do  brasileiro  5i 

e  dei'Ih'o  p'ra  que  resasse  em  casa,  se  quizesse.  E 
o  caso  é  que  ella  e  mais  a  criada,  aos  domingos, 
fechavam-se  no  quarto  duas  horas  a  resar  ladainhas. 
Ora  fiem-se  lá  nas  mulheres  resadeiras  ! . . .  Olhe 
você,  compadre,  se  a  religião  não  é  uma  patranha ! 

—  Patranha  1  e  que  grande  patranha ! 

—  A  sua  mulher  resa  ? 

—  Nem  se  sabe  benzer,  acho  eu. 

—  Faz  ella  muito  bem;  mas  vae  á  missa  dos 
Congregados  ao  meio  dia,  que  eu  já  a  tenho  visto 
entrar  na  egreja. 

—  Vae  por  dar  um  passeio,  e  mais  os  pequenos, 
percebe  você?  Ora  diga  me  cá,  compadre  —  conti- 
nuou o  previsto  Athanasio  sem  dar  logar  a  que  o 
hospede  averiguasse  coisas  tendentes  a  provar  que 
a  mulher  do  seu  amigo  conciliava  a  pureza  dos  cos- 
tumes com  a  ignorância  do  signal  da  cruz  —  eu  ouvi 
dizer,  e  sei  com  certeza,  que  você  tinha  seus  amo- 
res fora  de  casa.  Nunca  lhe  perguntei  nada  a  tal 
respeito  por  se  não  oíFerecer  occasião ;  mas  eu  sei 
que  você  tinha  em  S.  Roque  da  Lameira  uma  mo- 
çoila da  sua  terra,  chamada  Rosa ;  e  outra  na  sua 
quinta  da  Cruz  da  Regateira,  chamada  Benedicta. 

—  Não  lhe  mentiram.  Confesso  o  meu  peccado; 
mas  dou-lhe  a  rasão.  Minha  mulher  não  me  tinha 
amor  de  casta  nenhuma.  Tratava-me  como  se  trata 
um  tio.  Entrava  e  sahia  a  semana  sem  me  dar  um 
beijo,  nem  se  lhe  importava  que  eu  comesse  ou 
não  comesse.  Você  sabe  que  eu  sou  atreito  a  mo- 
léstia de  fígado,  e  que  só  me  sinto  alliviado  com 
papas  de  linhaça ;  pois  ella  mandava-me  pôr  as  ca- 
taplasmas pelo  galego !  Diga-me  se  uma  boa  esposa 


52  Os  brilhantes  do  brasileiro 

consente  que  alguém  ponha  as  cataplasmas  em  seu 
marido!...  Um  homem,  quando  anda  pelos  cincoen- 
ta,  precisa  ser  affagado,  não  é  verdade  ? . . .  E  p'ra 
isso  é  que  eu  me  casei  com  uma  rapariga  pobre, 
apesar  de  ser  fidalga,  formando  tenção  de  a  deixar 
rica.  Imagine  você  que  ella  nunca  me  fez  um  cari- 
nho. A'  minha  beira  estava  sempre  triste  como  a 
noite.  Nunca  se  ria  de  chalaça  que  eu  lhe  dissesse ; 
e  depois  que  eu  me  deitava  ficava  ella  duas  horas 
a  costurar,  mais  duas  horas  a  resar,  e  via-se  mes- 
mo que  me  aborrecia.  Aqui  tem  você  a  rasão  por 
que  eu  trouxe  da  minha  terra  duas  raparigas  boas 
e  bonitas  que  me  amam  com  todo  o  aífecto,  e  cho- 
ram, quando  se  passam  três  dias  sem  eu  lá  ir. 

—  E  sua  mulher  desconfiava? 

—  Sabia  tudo,  por  que  um  brejeiro  d'um  caixeiro, 
que  eu  puz  fora,  lh'o  mandou  contar  n'uma  carta. 

—  E  ella  que  fez  ? 

—  Deu-me  a  carta,  e  disse  que  não  tornasse  a  fa- 
zer os  meus  caixeiros  sabedores  dos  meus  desvarios. 

—  E  não  se  zangou !  ? 

—  Nada. 

—  Ora  essa!. . . 

—  Pois  se  ella  não  me  tinha  amor  nenhum!.. . 
Você  não  intendeu  ainda? 

—  Agora  percebo...  Mais  uma  rasão  para  ter- 
mos a  certesa  de  que  ella  fazia  outro  tanto. 

—  Pois  isso  é  claro  como  a  luz  que  nos  está  alu- 
miando... Chegue-me  d'ahi  a  genebra,  que  estou 
com  azia. 

O  brasileiro  embocou  a  botija,  gorgolejou  três 
bons  tragos,  e  proseguiu: 


Os  brilhantes  do  brasileiro  53 

—  Se  ella  me  tivesse  amor,  fazia  o  diabo  em  casa, 
logo  que  soubesse  das  minhas  asneiras,  não  é  ver- 
dade? Pois  nunca  me  jogou  a  mais  pequena  cha- 
laça a  tal  respeito ! . . . 

—  Então  não  ha  que  duvidar: — evidenciou  Atha- 
nasio  Mendes — sua  mulher  tinha  com  quem  se  dis- 
trahir-,  e  agora  percebo  eu  como  é  que  ella  está  in- 
nocente.  Quer  dizer  na  sua  que  está  tão  innocente 
como  você,  seu  maganão ! 

Athanasio  riu-se  do  chiste  do  próprio  remoque. 

—  Pois  sim  —  reflectiu  judiciosamente  Fialho  — 
mas  você  bem  sabe  que  nós,  os  homens,  não  so- 
mos mulheres.  Elias  tem  outra  casta  de  obrigações. 
Se  a  mulher  for  egual  ao  marido,  então  não  ha 
honra  nem  vergonha  n'este  mundo,  não  acha? 

—  Diz  bem,  compadre ;  mas  é  que  ellas  abusam 
do  exemplo  que  os  homens  dão,  percebe  você  ? 

—  Isso  também  é  verdade— concordou  Hermene- 
gildo, fechando  o  olho  esquerdo. 

—  Você  parece  que  quer  dormir.. . — notou  o  hos- 
pede. 

—  Sim,  elle  agora  parece  que  chega — resmungou 
Fialho,  fechando  o  olho  direito. 

Minutos  depois,  esta  victima  deplorável  da  per 
versão  dos  costumes . . .  roncava. 


VIII 


Revelações  tristes 


A'quella  hora  alta  da  noite,  Angela,  ajoelhada 
diante  do  sanctuario,  pedia  á  Virgem  que  lhe  inspi- 
rasse o  melhor  meio  de  cumprir  os  seus  deveres  na 
apertada  situação  em  que  se  via. 

O  ar  innocente  d'esta  mulher  que  se  ajoelha  como 
infeliz  sem  culpa,  deve  tocar  o  animo  de  quem  vae 
lendo  isto,  e  já  desde  o  começo  do  livro  pende  a 
desconfiar  da  virtude  da  esposa  do  brasileiro.  E', 
pois,  tempo  de  antepararmos  da  involuntária  aleivo- 
sia  a  mulher  pura. 

Na  margem  direita  do  Lima,  ergue-se  por  entre 
arvores  seculares  o  antiquissimo  paço  de  Gondar, 
cujo  decimo  oitavo  senhor,  no  tempo  da  invasão 
franceza,  era  Simão  de  Noronha  Barbosa,  capitão  de 
cavallaria,  gentil  e  valente,  em  annosflorentissimos. 

Ainda  não  tinha  dezeseis  quando  amou  a  filha  de 
um  seu  caseiro,  com  quem  queria  casar  se.  Os  pa- 
rentes e  o  tutor  debalde  lhe  anteposeram  os  estor- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  55 

vos  da  lei  e  ainda  ordens  expressas  da  regência.  A 
mulher  humilde  chegou  a  ser-lhe  arrebatada  e  presa ; 
mas  a  passagem  da  onda  revolucionaria  socavou  as 
portas  ferradas  da  cadeia  de  Ponte  do  Lima,  e  re- 
meçou-lhe  aos  braços  a  formosa  encarcerada.  Certo 
general  de  Napoleão  mandou  a  um  vigário  que  os 
casasse  em  sua  presença,  e  galardoou  assim  a  de- 
voção, talvez  forçada,  do  capitão  portuguez  ao  leão 
de  Austerlitz. 

Simão  de  Noronha  foi  ferido  mortalmente  no  re- 
contro de  Amarante.  A  esposa,  que  o  acompanha- 
va, quando  o  viu  acutilado  e  muribundo  entre  as 
garras  dos  patriotas,  que  cevavam  suas  iras  mais 
encarniçadamente  nos  jacobinos,  morreu  de  puro 
terror,  suíFocada  por  um  golpho  de  sangue.  Era 
uma  fidalga  alma  a  d'aquella  filha  do  povo ! 

A  piedade  d'alguns  populares  salvou  o  capitão 
de  ser  arrastado  nas  ruas  de  Amarante. 

Apoz  seis  mezes  de  curativo,  recolheu-se  ao  seu 
paço  de  Gondar,  e  levou  comsigo  o  esqueleto  mal 
escarnado  de  sua  mulher.  Dias  depois,  entrou  n'um 
mosteiro,  e  amortalhou-se  no  habito  de  noviço  be- 
nedictino. 

Antes,  porém,  de  findo  o  noviciado,  Simão  viu 
casualmente  sua  prima  D.  Maria  d' Antas.  Era  uma 
senhora  de  formosura  rara.  Não  direi  que  o  rasgar 
o  noviço  o  habito  fosse  um  preito  digno  d'esta  no- 
tável dama ;  nem  me  espantaria  que  toda  a  congre- 
gação benedictina  despisse  as  túnicas,  e  os  frades 
se  esmurraçassem  por  amor  d'ella.  Mulheres  assim 
aluiriam  conventos,  se  lhes  fosse  consentido  visitar 
os  ;  primos.   Por  um  de  seus  cabellos  arrastariam 


56  Os  brilhantes  do  brasileiro 

communidades,  e,  d'um  volver  d'olhos,  consumma- 
riam  a  empresa  que  não  bastaram  séculos  a  vingar. 

D.  Maria  d' Antas,  filha  d'um  desembargador  da 
supplicação,  trouxera  de  Lisboa,  aos  vinte  e  cinco 
annos,  o  coração  já  derrancado.  Os  seus  costumes 
e  manhas  não  edificavam  ninguém ;  mas  indoude- 
ciam  os  mais  guapos  e  galhardos  fidalgos  do  Alto 
Minho.  Além  de  bella  e  palavrosa,  a  fidalga  d'Antas 
era  guapa  cavalleira,  monteava  lobos,  matava  pa- 
tos bravos,  e  tinha  de  mulher,  apenas,  a  cara  que 
ficaria  bem  n'um  anjo,  e  as  fraquesas  que  vence- 
riam a  rebeldia  dos  demónios. 

Simão  de  Noronha,  em  1812,  já  morava  no  seu 
solar  das  margens  do  Lima.  O  esqueleto  da  esposa 
e  o  habito  de  noviço  eram  apenas  umas  lembran- 
ças de  infortúnios  remotos.  A  casa  ameiada  de  Gon- 
dar  recebia  a  luz  e  os  aromas  das  primaveras  no- 
vas pelas  rasgadas  janellas  onde,  ás  vezes,  appare- 
cia  uma  mulher  alta  vestida  de  branco.  Era  D.  Ma- 
ria d' Antas,  não  já  esposa,  mas  prima,  titulo  res- 
peitável com  que  ambos  se  abroquellavam  da  infa- 
mação.  E',  porém,  de  notar  que  nenhum  se  preoc- 
cupava  dos  rumores  públicos  acerca  daquelle  vive- 
rem sós  e  desligados  d'outros  parentes  sob  o  mes- 
mo tecto. 

Devolvidos  oito  annos,  a  calumnia  já  tinha  mais 
onde  morder.  Maria  d'Antas,  sem  pejo  nem  res- 
guardo, apparecia  com  uma  creança  d'um  anno  nos 
braços. 

Mas  esta  creança,  antes  de  prefazer  dois  annos, 
ficou  sem  mãe.  As  janellas  do  paço  de  Gondar 
techaram-se  outra  vez.   Simão  de  Noronha  desap> 


Os  brilhantes  do  brasileiro  5j 

pareceu,  emquanto  na  egreja  parochial  se  entoa- 
vam os  responsos  á  volta  da  eça  de  D.  Maria.  A 
creança  foi  levada  a  Vianna,  onde  vivia  casada  uma 
irmã  do  fidalgo.  E  o  espanto  geral  dos  visinhos  não 
desistiu  de  cavar  na  sepultura  da  formosa  desvai- 
rada até  descobrir  que  ella,  n  uma  vertigem  de  ciú- 
me, fora  estrangulada.  Isto  de  cavar  na  campa  da 
morta  vem  aqui  figuradamente.  Ninguém  profanou 
a  sepultura  de  D.  Maria.  O  caso  execrando  sou- 
be-se  quando  um  morgado  dos  Arcos  de  Vai  de  Vez 
contou  aos  seus  amigos,  não  sem  fatuidade,  que 
Simão  de  Noronha  matara  sua  prima,  instantes  de- 
pois que  encontrara  entre  moitas  de  roseiras  um  pu- 
nhal com  a  firma  d'elle  revelador,  que  também  era 
primo.  Ora  este  punhal  lhe  saltara  da  algibeira  da 
vestia  castelhana,  quando  o  fugitivo  pulava  da  ja- 
nella  ao  jardim.  * 

Doze  annos  depois,  Simão  de  Noronha  desem- 
barcava no  Mindêllo  com  a  patente  de  coronel. 
Quarenta  e  seis  annos  teria  :  mas  apresentava  adian- 
tada velhice. 

Finda  a  guerra  e  reformado  em  general,  o  senhor 
de  Gondar  foi  viver  no  seu  arruinado  palacete  de 
Ponte  do  Lima,  e  não  voltou  á  casa  solarenga. 

De  longe  a  longe,  parava  á  porta  do  general  uma 


^  As  miudesas  referidas  vão  quasi  textualmente  trasladadas 
d'uma  ementa  marginal  escripta  n'um  livro  de  genealogias, 
que  principia  nos  reis  de  Córdova  e  termina  em  Simão  de 
Noronha  Barbosa,  18."  senhor  do  Paço  de  Gondar.  Os  que  des- 
presam  os  manuscriptos  genealógicos  atiram  fora  o  melhor 
oiro  da  historia  civil,  politica  e  religiosa  da  nossa  terra. 


58  Os  brilhantes  do  brasileiro 

liteira,  d'onde  apeava,  juntamente  com  sua  criada 
já  edosa,  uma  menina  que  contaria  entre  quatorze 
e  dezeseis  annos.  As  pessoas,  que  tinham  conhe- 
cido D.  Maria  d' Antas,  decidiram  logo  que  a  bella 
hospeda  do  general  era  filha  d'aquella  mallograda 
dama  e  de  Simão  de  Noronha.  De  feito,  era  a  crean- 
ça  que  treze  annos  antes  havia,  talvez,  sido  arreba- 
tada dos  braços  de  sua  mãe,  pela  mão  que  lhe  afo- 
gara o  nome  no  sangue  da  garganta. 

Era  Angela. 

Demorava-se  a  hospeda  um  dia  em  Ponte  do  Li- 
ma, e  voltava  com  sua  criada,  para  Vianna,  onde 
residia  querida  extremosamente  da  irmã  de  seu 
pae. 

O  general  não  dava  nem  recebia  caricias.  A  pre- 
sença da  filha  não  descondensava  de  sobra  a  alma 
d'elle  as  trevas  da  consciência  que  lhe  escurenta- 
vam  tudo.  A's  vezes  quedava-se  a  contemplar  An- 
gela largo  espaço.  Marejavam-se-lhe  os  olhos,  e 
afundavam-se-lhe  as  rugas  da  fronte.  E'  que  via  Ma- 
ria d' Antas  na  filha,  e  em  si  o  algoz.  Depois,  aíías- 
tava-se  d'ella  carrancudo  e  desabrido ;  por  maneira 
que  Angela  não  visitava  seu  pae  sem  ser  compel- 
lida.  Cobraralhe  medo  antes  de  sentir  no  coração 
a  ternura  de  filha. 

E  a  do  general  por  ella  raros  instantes  entreluzia 
nas  sombras  do  rosto  carregado.  De  natural  um  tan- 
to selvagem,  peorado  por  infortúnios  que  endure- 
cem a  condição,  o  sr.  de  Gondar  parecia-se  com 
todos  os  pacs  que  não  viram  crescer  hora  a  hora 
os  filhos,  tanto  mais  entranhados  n'alma  quanto  lá 
pungiu  o  susto  de  os  perder.  Deixar  uma  filha  com 


Os  brilhantes  do  brasileiro  5g 

dois  mezes,  e  volver  a  tel-a  de  quatorze  annos,  é 
como  adoptar  uma  creatura  d'outrem,  é  ter  perdi- 
do o  direito  á  consolação  de  amar  ardentemente  o 
ser  que  se  formou  ao  calor  dos  nossos  beijos.  N'esta 
compensação  entra  beneficio  de  Deus :  a  não  ser 
assim,  bastaria  o  sangue  para  encher  de  súbito  amor 
o  coração.  O  sangue  !  Retrocede  cem  annos  quem 
faz  conta  do  sangue  —  o  extracto  utii  do  bolo  ali- 
mentar —  no  vinculo  espiritual  de  pae  e  filho,  al- 
liança  sacratíssima,  que  se  faz  de  lagrimas  e  não 
de  sangue. 

Angela,  já  suposta  herdeira  do  general  Noronha, 
era  amada  em  dobro :  formosa  e  rica.  Amavam-na, 
pediam-na  uns  morgados  que  ella  nunca  tinha  visto 
nem  conhecido  de  nome.  As  solicitações  por  escri- 
pta  ao  mysantropò  velho  não  recebiam  resposta. 
Ninguém  ousava  dirigir-se  em  pessoa  a  um  homem 
que  dizia  aos  criados:  «não  conheço  ninguém». 

D.  Beatriz,  a  irmã  do  general,  tinha  sido  a  me- 
dianeira dos  primeiros  pretendentes.  O  pae  de  An- 
gela, no  propósito  de  cortar  futuras  negociações, 
ordenou  seccamente  a  sua  irmã  que  mudasse  An- 
gela para  a  companhia  d^outra  tia  professa  nas  be- 
nedictinas  de  Vianna,  se  a  não  queria  solteira  em 
sua  casa. 

E  Angela  abençoava  a  resistência  do  pae.  Não 
conhecia  uns,  e  não  amava  nenhum  dos  fidalgos  que 
trcs  séculos  antes  porfiariam  em  merecel-a  acutilan- 
do-se  reciprocamente.  Os  mais  destros  e  insofíri- 
dos  o  que  faziam  era  chover  cartas  de  empenho  a 
D.  Beatriz  de  Noronha,  e  presentes  ao  egresso  con- 
fessor d'aquella  distincta  beata. 


6o  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Temos,  portanto,  donzella  invulnerável  ?  Angela 
desmentirá  a  exhuberante  sensibilidade  de  sua  mãe  ? 
Ou,  namorada  das  visões  beatificas  do  christianis- 
mo,  suspira  pela  soledade  do  senobio  ? 

Muito  longe  d'isto,  e  muito  a  dentro  das  raias  da 
naturesa  humana  estava  a  peregrina  Angela. 


IX 


Amores  falaes 


Amava  um  que  se  habituara  a  contemplal-a  como 
o  espirito  devoto  contempla  uma  escuiptura  da  Vir- 
gem Maria,  e  com  respeitoso  temor  imagina  que  os 
olhos  da  imagem  fixos  nos  seus  tem  raios  de  luz 
viva  e  transluzem  amor  e  misericórdia  do  coração 
divino. 

Era  um  estudante  que  se  habilitava  para  cursar 
a  escola  medico-cirurgica  do  Porto.  Era  cunhado 
do  mercieiro  que  provia  a  casa  de  D.  Beatriz.  Era 
irmão  da  mulher  que  costurava  os  vestidos  das  fi- 
dalgas, e  ensinara  a  bordar  D.  Angela.  Ghamava- 
se,  curta  e  plebeamente.  Francisco  José  da  Costa,  e 
sabia  que  seu  avô  paterno  tinha  sido  carpinteiro,  e 
seu  avô  materno  cosinheiro  de  um  hiate. 

Ora  um  homem  assim  «mal-nascido»  alguma  jóia 
devia  trazer  preciosa  dos  inexauriveis  thesouros  de 
Deus.  Se  nos  elle  sahir  bom  e  honrado  coração, 
desculparemos  a  baixeza  de  instinctos  com  que  nos 
alvorece  Angela  no  seu  primeiro  amor. 


fe  Os  brilhantes  do  brasileiro 

A  innocente  não  se  escondia  de  D.  Beatriz.  En- 
sina a  experiência  que  a  candura  e  a  indiscrição  an- 
dam muito  intimas.  A  innocencia  hombrea  com  a 
inépcia.  Não  pôde  uma  menina  amar  innocentemen- 
te  senão  as  suas  bonecas.  Amores  d'outra  espécie, 
desajudados  de  espertesa  e  finura,  desfecham  em 
escândalo  ou  sandice. 

D.  Beatriz,  devotíssima  de  S.  José  que  carpinte- 
jaya,  de  S.  Pedro  que  pescava,  e  de  S.  Marcos  que 
mesinhava  enfermos,  e  de  S.  Lucas  que  pintava,  e 
de  S.  Matheus,  cobrador  de  impostos,  e  de  S.  Cas- 
siano, mestre  escola,  e  de  S.  Theodoto,  taverneiro 
—  christã  a  extremos  de  lavar  os  pés  aos  pobres  em 
quinta  feira  santa,  — transiu-se  de  horror  frio  quan- 
do teve  a  denuncia  de  que  sua  sobrinha  amava  o 
irmão  da  Joanna  Costa.  A  denuncia  vinha  justifica- 
da com  uma  carta  d'elle,  significativa  de  não  ser  a 
primeira,  nem  talvez  a  decima :  porque  o  tratamen- 
to dado  a  uma  filha  de  Simão  de  Noronha  e  de  D. 
Maria  d'Antas  era . . .  um  tu  ! 

D.  Beatriz  poz  as  mãos  convulsas  nos  olhos  quan- 
do leu  iu  na  primeira  linha,  tu  a  primeira  syllaba  da 
carta,  uma  entrada  assim  suja  e  escandalosa  n'uma 
missiva  de  caderno  numerado  d'uma  a  dez  pagi- 
nas !  E  não  leu  mais  do  que  aquelle  tu,  porque  em 
seguida  apanhou-lhe  o  flato  as  potencias  da  alma,  e 
ella  ficou  a  escabujar  tão  somente  com  a  potencia 
de  braços  e  pernas. 

Angela  accudiu;  Victorina,  aquella  criada  que  o 
leitor  já  conhece,  lá  estava,  e  nas  mãos  d'esta,  a 
carta. 

—  Veja  isto,  menina,  veja  isto !  —  murmurou  Vic- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  63 

torina  —  tanto  lhe  pedi  que  não  lhe  escrevesse... 

Angela  sumiu  a  carta  no  seio,  e  tomou  nos  bra- 
cos  a  tia.  Chamou  a,  beijoua,  pediu  lhe  perdão,  de- 
bulhou-se  em  lagrimas,  e  deu  graças  a  Deus  quando 
a  velha  mandou  fazer  uma  infusão  de  herva  cidrei- 
ra para  applacar  a  tempestade  dos  nervos. 

Depois  do  quê,  D.  Beatriz  obrigou  a  sobrinha  a 
contar-lhe  pelo  miúdo  a  origem  da  sua  correspon- 
dência com  o  irmão  da  costureira.  Via-se  a  menina 
inleiada  para  referir  o  mais  singelo  da  historia  que 
era  a  origem;  mas  a  velha  insistia  em  perguntar: 

—  Gomo  foi  o  principio  d'isso? 

—  O  principio ...  foi . . .  foi . . .  eu  vêl-o . . .  — - 
respondeu  Angela  muito  apertada. 

Este  começar  a  historia  d'um  primeiro  e  talvez 
eterno  amor  tem  a  sublimidade  simples  da  origem 
do  universo,  referida  por  Moysés:  «No  principio 
era  o  Verbo» ;  com  a  differença  que  o  principiar  de 
Angela  entendese  melhor. 

—  Então  tu... — objectou  a  tia  entre  irónica  e 
severa  —  viste-o,  olhaste  para  elle,  e  mais  nada. . . 
ficaste  apaixonada ! . . .  Com  effeito  ! . . .  Eu  ainda 
não  me  infirmei  bem  na  cara  d'esse  sarrafaçal ;  mas, 
pela  idéa  que  tenho,  elle  tem  uma  figura  muito  re- 
les! Tu  não  sabias  —  continuou  D.  Beatriz  espiri- 
tando-se  com  uma  pitada  de  vinagrinho  —  não  sa- 
bias que  elle  é  irmão  da  Joanna,  e  cunhado  do  Zé 
tendeiro  ?  e  que  o  pae  d*elle  era  sacristão  da  Se- 
nhora da  Agonia,  e  que  a  mãe  trabalhava  com  os 
bilros  ?  Sabias  isto  ? 

—  Sabia. . . 

—  Sabias  ? !  quem  t'o  disse  ? 


64  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Foi  elle. 

—  Foi  elle  mesmo  ?!  o  tal  Francisco ? 

—  Sim,  minha  senhora. 

—  Então  tu  fallavas-lhe  ? 

—  Não,  minha  senhora  . .  Escrevia-me  elle. 

—  E  contou-te  de  quem  era  filho ! . . .  É  extraor- 
dinária a  sinceridade  1 . . .  E  para  que  fim  te  contava 
elle  essas  coisas  que  deviam  fazer-te  cahir  na  rasao 
da  tua  indigna  escolha  ? 

—  Gontava-me  estas  coisas  para  que  ninguém 
m'as  contasse  antes  d'elle. 

—  Então  o  rapazola  tinha  orgulho  em  ser  filho 
do  sacristão  ? . . .  Bem  sei . . .  são  as  idéas  que  cá 
trouxe  a  liberdade. . .  Deus  perdoe  a  teu  pae,  que 
também  ajudou  a  fazer  gente  os  netos  dos  carpin- 
teiros e  dos  cosinheiros  dos  hiates...  Oxalá  que 
elle  não  pague. . .  Vamos  ao  caso. . .  E  tu,  apesar 
do  Francisco  da  Joanna  te  dizer  quem  era,  não  mu- 
daste de  idéa  ? 

—  Não,  minha  senhora. . . 

—  Continuavas  a  querer-lhe. . . 

—  Sim,  minha  tia. 

—  E  com  que  fim  ?  querias  casar  com  elle  ? 

—  Se  me  deixassem,  casaria. 

—  Ora  não  sejas  infame!  —  bradou  a  tia,  cer- 
rando os  punhos,  e  resfolegando  tão  irada  que  o 
tabaco  lhe  espirrava  em  granizo  das  ventas  arque- 
jantes—  não  sejas  infame,  Angela!  —  repetiu  ella, 
resistindo  ao  flato  que  já  lhe  emperrava  a  lingua  — 
Não  és  minha  sobrinha,  não  és  filha  de  Simão  de 
Noronha...  De  Maria  d' Antas  creio  eu  bem  que 
sejas  filha. . . 


Os  brilhantes  do  brasileiro  65 

A  ultima  espécie  do  insulto  foi  vociferada  com 
rancoroso  sarcasmo:  Angela  não  o  percebeu. 

—  Com  que  então,  se  te  deixassem,  casarias  com 
o  cunhado  do  Zé  tendeiro ! . . .  repetiu  a  velha  acen- 
tuando com  crispações  de  riso  aspérrimo  aquelle 
Zé^  elidindo  a  primeira  syllaba  para  engrandecer  a 
ignominia  do  nome. 

Angela  ouvia  em  silencio  e  lagrimosa  as  invecti- 
vas da  velha,  cortadas  de  frouxos  nervosos.  De  sú- 
bito, D.  Beatriz,  circumvagando  pelo  sobrado  o 
olho  direito  armado  da  luneta,  exclamou: 

—  Que  é  da  carta,  que  eu  tinha  aqui  ?  Que  é  da 
carta  ? 

—  Aqui  está  —  disse  mansamente  Angela,  apre- 
sentando-lh'a. 

—  Querias  lêl-a,  não  é  assim  ? !  —  gritou  a  velha, 
tirando-lh'a  da  mão  com  arremeço  —  Vae  perguntar 
á  criada  que  m'a  trouxe  se  ella  quereria  casar  com 
o  Francisco  da  Joanna. . . 

E,  abrindo  a  em  tremuras  de  raiva,  pôz  a  luneta, 
e  bradou : 

—  Tu!..,  Olha  isto,  filha  de  Simão  de  Noronha! 
Tu. . .  O  neto  do  cosinheiro  dá  tu  á  filha  do  decimo 
oitavo  senhor  do  paço  de  Gondar ! . . .  Não  te  en- 
vergonhas, Angela!..»  Consentiste  em  semelhante 
insulto  a  tua  mãe,  que  era  das  mais  distinctas  fa- 
milias  de  Portugal?* 


4  O  auctor  já  deu  noticia  d'um  manuscripto  genealógico 
da  família  d'Antas/escripto  por  um  garfo  infeliz  d'este  illus- 
tre  tronco.  Eram  quinze  ou  dezeseis  os  monarchas  apparen- 
tados  com  esta  familia.  Veja-se  o  livro  intitulado  Coisas  le- 
ves e  pesadas. 

5 


66  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Como  a  filha  de  Maria  d' Antas  não  respondesse, 
D.  Beatriz  gesticulou  d'hombros  e  cabeça  em  ar  de 
assombrada,  repoz  a  luneta  no  olho  fundo  e  mirra- 
do, e  leu  mentalmente,  fazendo  esgares  com  os 
queixos,  ao  passo  que  um  novo  tu  lhe  descompu- 
nha o  apparelho  nervoso.  Muito  é,  porém,  de  no- 
tar-se  que  da  leitura  da  segunda  pagina  em  diante 
o  rosto  da  velha  denotava  espanto  sem  ira,  sem 
carrancas,  sem  intermittencias  de  suspiros  e  ais.  Um 
período  especialmente  a  impressionou  de  feição  que 
voltou  terceira  vez  a  lêl-o,  compassando  o  intendi- 
mento  de  cada  phrase  com  um  gesto  aííirmativo  de 
cabeça.  A  passagem  dizia  assim: 

«Não  nos  illudamos,  minha  boa  amiga.  Pôde  ser 
«que  Deus  aproximasse  as  nossas  almas;  pôde  ser 
«mas,  se  ellas  houverem  de  se  encontrar  e  unir,  hade 
«ser  na  presença  de  quem  as  creou, — no  céo.  N'este 
«mundo,  é  impossivel;  e,  se  fosse  possível,  a  so- 
«ciedade  te  obrigaria  a  chorar  rios  de  lagrimas,  e 
«eu  mesmo  chegaria  a  sentir  o  tormento  do  remorso 
«por  ter  assassinado  as  alegrias  do  teu  destino,  e 
«destruído  as  modestas  aspirações  do  meu.  Desde 
aque  comecei  a  adorar  o  que  em  ti  ha  divino,  nem 
«uma  hora  sô  entrou  em  minha  alma  o  pensamento 
«de  te  ver  minha  esposa.  Era  escusado  que  minha 
«boa  irmã  estivesse  sempre  a  medir  a  distancia  que 
«nos  separa.  Bem  viste  que  eu  t'a  mostrei  na  se- 
«gunda  carta  que  te  escrevi;  e  Deus  sabe  que  eu 
«chorava  quando  parecia  rir  da  humildade  de  meu 
«pae,  que  era  um  respeitável  velho  muito  pobre, 
«muito  resignado,  e  muito  feliz.  A  grande  herança 
«que  elle  me  deixou  foi  a  certesa  de  que  ha  pobres 


Os  brilhantes  do  brasileiro  67 

«felizes.  Conheço  que  a  minha  mocidade  já  não  vae 
«encaminhada  pela  trilha  da  de  meu  pae.  Elle  igno- 
«rava  tudo,  excepto  os  artigos  da  fé  que  atam  as 
«tristesas  transitórias  d'esta  vida  aos  eternos  con- 
«tentamentos  d'outra:  eu  estudo  ha  seis  annos, 
«penso  e  afflijo-me  em  terriveis  duvidas;  e,  se  creio 
«n' alguma  coisa  santa,  é  porque  comparo  a  felici- 
«dade  de  meu  ignorante  pae  com  as  dolorosas  in- 
« quietações  do  meu  espirito.  Mas  a  ti  que  importa 
«isto,  minha  adorada  amiga?  Que  impertinentes 
«cartas  te  escrevo  n'estas  njites  tão  compridas  e 
«veladas!  E  que  pesar  me  fica  se  ellas  te  enfadam, 
«cuidando  eu  que  tens  lá  também  noites  sem  dor- 
«mir,  e  amisade  bastante  para  acceitar  as  confiden- 
«cias  do  pobre  solitário!...» 

D.  Beatriz  deixou  cahir  o  braço  que  sustinha  o 
papel,  desarmou  o  olho  cansado,  e  perguntou : 

—  Elle  é  quem  ditou  isto? 

—  Isto  quê,  minha  tia  ? 

—  Esta  carta?. .  .  Não  creio  que  elle  saiba  dizer 
estas  coisas. . .  Não  pôde  ser. . .  Alguém  lhe  faz  as 
cartas...  Nada...  O  Francisco  da  Joanna,  com 
aquella  cara  de  bruto  que  tem,  não  ideava  assim 
umas  idéas  tão  discretas.  Aqui  anda  sancadilha  ar- 
mada á  tua  innocencia,  Angela.  Ha  velhaco  escon- 
dido n'este  negocio!  Sabes  o  que  é,  tola?. . .  O  ra- 
paz pensa  que  te  prende  com  a  confissão  da  sua 
humildade.  Pouco  mais  ou  menos  aconteceu  isso 
comigo,  quando  eu  era  da  tua  edade;  e  mais  o  meu 
pretendente  era  um  doutor,  filho  do  juiz  de  fora  de 
Ponte.  Também  me  veiu  com  estas  cantigas  da 
desegualdade  dos  nossos  nascimentos;  e  eu,  a  fal- 


68  Os  brilhantes  do  brasileiro 

lar-te  verdade,  ia-me  deixando  levar,  e  não  sei  onde 
chegaria  a  minha  loucura,  se  teu  avô  do  pé  p'ra  mão 
não  me  escolhe  marido  conveniente.  Casei,  e  d  ahi 
a  quinze  dias  já  nem  me  lembrava  o  outro ;  s6 
quando  o  vi  passados  annos,  muito  gordo  e  nédio, 
é  que  me  lembrei  do  palavriado  d'elle.  (D.  Beatriz 
contava  o  caso  espedindo  uns  espirros  de  riso  gos- 
mento).  Dizia  o  velhacorio  que  o  seu  ultimo  dia 
seria  aquelle  em  que  me  visse  ligada  a  outro  cora 
ção;  e,  ainda  na  véspera  de  me  casar,  me  fez  ver- 
ter grossas  bagadas  sobre  o  papel  em  que  me  es- 
crevia que  o  sangue  lhe  sahia  em  borbotões  pela 
bocca.  Depois  quando  o  vi  muito  barrigudo,  casado 
com  outra  barriguda  de  feitio  e  da  casta  d'elle,  pe- 
gou-me  uma  vontade  de  rir,  que  ainda  agora  não 
posso  ter  mão,  que  me  não  doam  as  ilhargas ! . . . 

E  casquinava  de  modo  a  humorística  velhinha 
que  Angela  ria  também  do  irresistivel  grutesco  de 
sua  tia,  recordando  tão  comicamente  os  seus  virgi- 
naes  amores. 

—  Pois  convence-te,  menina  —  volveu  a  fidalga, 
revertendo  a  custo  a  seriedade  do  acto— que  estás 
passando  pelo  que  eu  passei;  mas  este  cá  me  quer 
parecer  mais  manhoso  do  que  o  outro.  Tem  mais 
lábia.  Vem  cá  com  estas  coisas  dos  artigos  da  fé, 
que  resava  o  pae...  Podéra  não!  Ou  elle  não  fosse 
sacristão !. . .  Aposto  eu  que  o  filho  não  sabe  o  Pa- 
dre nosso!  Se  o  pae  era  feliz  na  sua  baixa  posição, 
por  que  não  vae  elle  para  o  logar  do  pae  ?  Eu  já 
disse  ao  Zé  tendeiro  que  se  deixasse  de  o  mandar 
estudar  no  Porto;  que  o  mettesse  n'um  officio.  E 
elle  quem  lhe  deu  dinheiro  para  seguir  os  estudos 


Os  brilhantes  do  brasileiro  6g 

de  cirurgião,  ou  medico,  ou  lá  do  que  é?  O  cunha- 
do quanto  tem  quanto  me  deve.  Emprestei-lhe  um 
conto  de  réis  a  juro  ha  três  annos,  e  paga  me  em 
arroz  e  bacalháo.  Nem  d'aqui  a  vinte  annos  me  tem 
pago.  Ora  não  ha! — continuou  a  credora  do  mer- 
cieiro  aguçando  a  voz  em  iracundo  falsete — se  eu 
via  minha  sobrinha  casada  com  um  lapuz,  que  ain- 
da ha  annos  andava  por  ahi  a  jogar  a  pedrada  no 
cães !  Onde  foi  elie  apprender  este  palavriado  ! . . . 
Nada. . .  isto  é  d'algum  finório  que  esperava  ganhar 
alguma  coisa  se  cahisse  o  raio  na  minha  familia. 
Não  hade  cahir ! — bradou  ella  batendo  com  os  ossos 
do  pulso  no  capacho  de  palha  em  que  encruzara  as 
pernas — Não  hade  cahir,  em  quanto  eu  for  viva ! 
Teu  pae  não  te  quer  casar  ?  Eu  te  casarei !  Esco- 
lhe. Tens  cinco  pretendentes.  Um  da  casa  de  Paço- 
vedro ;  outro  da  Passagem ;  outro  de  Aborim ;  ou- 
tro de  Aguião ;  outro  de  Azevedo ;  outro  de . . . 
quem  é  o  outro? 

—  Não  sei,  minha  tia :  nem  quero  saber,  por  que 
não  caso  com  nenhum. 

—  Não  casas  com  nenhum  ? ! — assobiou  a  velha 
erguendo-se  duas  pollegadas  de  salto  acima  do  ca- 
pacho. 

—  Não,  minha  senhora, 

—  Não  ?  I . . .  Vou  escrever  a  teu  pae  !  Elle  te 
obrigará ! 

—  Meu  pae  não  quer  que  eu  case  com  algum 
d'esses  que  a  tia  nomeou. 

—  Não?  mas  eu  vou  dizer- lhe  que  ha  um  preten- 
dente mais  moderno  :  o  Francisco  do  sacristão.  Pôde 
ser  que  elle  queira  este.  O  negocio  vae  arranjar-se. 


70  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Queres  que  lhe  dê  parte  do  novo  arranjo  ?  Respon- 
de :  isto  é  pedir  de  bocca.  Teu  pae  deve  querer  que 
o  decimo  novo  senhor  do  Paço  de  Gondar  seja  neto 
do  sacristão  da  Senhora  da  Agonia.  Tem  vergo- 
nha !  tem  vergonha !  —  rebramiu  a  velha,  erguen- 
do-se  de  Ímpeto,  e  bradando  a  Victorina  que  lhe 
trouxesse  mais  chá  de  cidreira. 


X 


D.  Beatriz  injuriara  cruelmente  Francisco  José  da 
Costa ;  mas  não  conseguira  envenenar  com  a  du- 
vida o  coração  de  Angela. 

A  corajosa  menina,  livre  da  velha  que  adorme- 
cera quebrantada  de  insultos  nervosos,  fechou-se  a 
lêr  as  cartas  do  moço,  e  a  escrever-lhe  a  noticia 
das  tribulações  d^aquelle  dia.  Atraiçoada  pela  me- 
dianeira  da  correspondência,  supplicou  a  Victorina 
que  fizesse  entregar  aquella  carta,  promettendo-lhe 
ser  a  ultima.  Condoeu-se  a  criada,  movida  também 
pela  esperança  de  ver  terminado  o  funesto  namo- 
ro, prenuncio  de  maiores  desgraças.  Foi  ella  pro- 
priamente entregar  a  carta,  e  pedir  a  Francisco  da 
Costa  que  sahisse  de  Vianna,  se  não  queria  que  a 
menina  perdesse  o  amor  de  sua  tia,  e,  peor  ainda, 
a  protecção  do  pae.  Ainda  assim,  os  dizeres  da 
carta  desdiziam  dos  rogos  da  criada.  Angela  pe- 
dia-lhe   amor  e   animo,  paciência  e  esperança,  ju- 


']2  Os  brilhantes  do  brasileiro 

rando  morrer  antes  de  succumbir  a  um  casamento 
violentado. 

O  estudante  esperou  alguns  minutos  que  as  la- 
grimas o  desafogassem,  e,  escrevendo,  pedia  per- 
dão a  Angela  de  sua  covardia.  «Sou  covarde  —  es- 
tcrevia  elle  —  por  que  fujo;  covarde  por  que  me 
«não  atrevo  a  vêr  o  rosto  da  infelicidade  que  te 
«ameaça.  Vou  sahir  de  Vianna.  Quando  souber  que 
«o  meu  nome  passou  do  despreso  ao  esquecimento 
«de  tua  tia,  voltarei.  Se  te  encontrar  tranquilla,  não 
«perturbarei  o  teu  socego.  Para  eu  te  adorar,  como 
«até  aqui,  em  todas  as  situações  estarás  bem,  mi- 
«nha  amiga.  Ainda  ligada  a  outro  homem,  eu  sabe- 
«rei  separar  o  anjo  da  mulher.  O  que  eu  não  que^ 
«ro,  nem  posso,  é  tirar-te  o  nome,  o  prestigio,  o 
«amparo  e  a  honra  que  só  é  visivel  em  quanto  a 
«consideração  publica  a  proclama  ou  finge  reconhe- 
«cer. . .» 

—  Elle  não  me  ama!  —  disse,  entre  soluços,  D. 
Angela  a  Victorina  —  Não  me  ama,  e  eu  hei  de  ser 
muito  desgraçada  por  amor  delle!. . . 

A  criada  louvava-se  a  si  do  conselho,  e  agradecia 
a  Deus  a  honrada  determinação  do  estudante,  dan- 
do como  terminado  o  lance  em  que  o  bello  e  rico 
futuro  da  sua  menina  corria  perigo.  Angela,  toda- 
via, asseverava  que  tudo  estava  perdido  para  ella, 
e  que  só  lhe  restava  reduzir-se  á  extrema  pobresa 
e  desvalimento  do  pae,  a  ver  se  assim  o  homem 
pobre  e  plebeu  a  queria  para  esposa. 

Este  plano,  se  viesse  a  realisar-se,  era  original,  a 
meu  vêr^  mas  não  sei  que  fados  esquerdos  se  atra- 
vessam aos  projectos  épicos  em  matéria  de  casa- 


Os  brilhantes  do  brasil etr^o  jS 

mento,  se  a  poesia  depende  de  uma  casinha  colma- 
da, á  ourela  de  um  regato,  com  seis  pés  de  couve 
na  horta,  e  por  cima  lua,  sol,  estrellas  e  ar  á  des- 
crição. A  culpa  de  se  malograrem  estes  sublimes 
intentos  quem  na  tem  é  a  sociedade,  esta  prosa 
derreada  do  gentio  commum  que  assim  que  vêem 
pomba  a  librar-se  três  metros  acima  da  lama,  ape- 
drejam-n'a,  desazam-n'a,  dão  com  ella  em  terra.  E 
desgraça !  Mulheres  distinctas  com  amores  distin- 
ctos  é  mister  invental-as.  E  maior  desgraça  ainda : 
as  heroinas,  que  se  admiram  e  applaudem  no  ro- 
mance e  no  drama,  seriam  assobiadas,  se  tal  gé- 
nero de  pensar  e  viver  se  encarnasse  em  sinceras 
heroinas  na  vida  real. 

Angela  seria  capaz  de  descer  até  livelar-se  com 
o  irmão  da  Joanna  costureira ;  mas  não  a  deixaram. 
Privaram-na  de  estremar-se  do  vulgar.  Compelli- 
ram-na  por  maneira  as  circumstancias  que  não  ha 
ahi  maior  rebaixamento  onde  podesse  ir  sopesada 
uma  alma  primorosa  em  finesas  d*amor. 

Vamos  ver  o  que  este  mundo  faz  das  mulheres 
que  transcendem  a  craveira  commum. 

D.  Beatriz,  aconselhada  pelo  seu  confessor,  es- 
creveu ao  irmão  precavendo-o  contra  a  inclinação 
amorosa  de  sua  filha,  sem  esconder  o  nome  e  a  ge- 
ração vilissima  do  inquietador  de  Angela.  Por  sua 
parte  a  fidalga  declinava  de  si  a  responsabilidade 
d'alguma  consequente  ignominia  de  familia,  admoes- 
tando o  general  a  que  levasse  Angela  para  sua  casa, 
e  lhe  insinuasse  com  o  preceito  sentimentos  de  di- 
gnidade e  faro  mais  senhoril  na  escolha  dos  mari- 
dos. Esta   linguagem   methaphorica   devia  ser   do 


7^  Os  brilhantes  do  brasileiro 

frade  confessor.  Só  um  egresso,  descassado  das 
boas  praticas  de  sala,  daria  a  uma  senhora  faro  na 
escolha  de  maridos,  assim  á  guisa  de  perdigueira 
de  dois  narizes  que  fareja  a  volateria. 

Simão  Barbosa  não  se  assanhou.  Respondeu  pla- 
cidamente  que  transferisse  Angela  para  o  conven- 
to, e  lhe  fizesse  saber  que  a  rebeldia  lhe  redunda- 
va em  passar  de  condição  de  senhora  á  de  criada. 
9.  Eu  não  sei  bem  de  quem  ella  é  filha.  Apenas  lhe  co- 
nheci a  mãe,y>  Este  homem,  escripto  isto,  devia 
accrescentar :  «Eu  deveras  não  sou  pae  d'essa  mu- 
«Iher,  por  que  pude  escrever  esta  resposta  sem  sen- 
«tir  o  minimo  abalo  de  ódio  ou  de  piedade.  Se  me 
«dissessem  que  ella  tinha  casado  com  o  filho  do  sa- 
«cristão,  daria  ordem  a  um  lacaio  que  os  enchotas- 
«se  da  minha  porta  com  um  tagante.»  Era  o  ermo, 
o  tédio,  a  doença,  a  irreligião,  a  covardia  em  anni- 
quilar-se,  que  empedravam  o  coração  do  general. 

Uma  hora,  em  certa  noite,  dezesete  annos  an- 
tes.. .  hora  negra  foi  essa  que  lhe  innoitou  a  vida 
inteira.  Ullulava-lhe  desde  essa  hora  nos  ouvidos  um 
grito  de  garganta  abafada.  Nenhum  rir  de  festa,  ne- 
nhum gemer  de  infelizes,  nenhuma  aurora  de  paz 
vingou  mais  distrahil-o  d'aquella  noite,  e  do  som  final 
d'uma  corda  de  vida  que  lhe  estalou  entre  os  dedos. 

Quando  Angela  recebeu  as  ordens  de  seu  pae,  já 
Francisco  da  Gosta  ia  caminho  do  Porto. 

Mas  que  homem  é  este  ?  que  edade  tem  ?  que  fi- 
gura ?  que  despropósito  de  coração  é  esse  que  se 
escusa  com  feminil  pavor  a  fazer  rosto  á  desgraça, 
raras  vezes  vencedora,  se  a  paixão  braveja  e  se  es- 
braseja  n'um  formidável  «quero»  ? 


Os  brilhantes  do  brasileiro  ji 

Francisco  José  da  Costa  vae  em  vinte  e  dois  an- 
nos.  Não  se  recommenda  por  gentilesa,  posto  que 
lhe  sobejem  graças  estimáveis.  Basta  lhe  os  olhos 
negros  e  a  tristeza,  a  pallidez  e  o  nunca  sorrir-se. 
E*  poeta ;  mas  as  suas  estrophes  não  se  imprimem  ; 
são  lagrimas ;  e  desconhecidas,  porque  ninguém  o 
vio  chorar.  Estuda  desde  os  treze  annos  com  intel- 
ligencia  precoce.  A  mente  de  seu  pae  era  fazel-o 
frade  em  ordem  pobre ;  mas  o  mocinho  esperava 
que  o  seu  estudo  lhe  valesse  formatura  gratuita  em 
Coimbra. 

Mudadas  as  instituições  politicas,  e  fallecido  seu 
pae,  Francisco  acceitou  as  sopas  offerecidas  por  seu 
cunhado,  mercieiro  escasso  de  posses,  e  sempre  in- 
feliz nas  empresas  commerciaes.  José  Maria  dos 
Santos,  como  não  tivesse  filhos,  promettia  cortar 
pelas  precisões  domesticas  para  formar  o  cunhado 
na  escola  medico-cirurgica  do  Porto.  Esta  depen- 
dência mortificava  o  estudante,  não  por  Índole  re- 
belde á  gratidão,  senão  que  via  sua  irmã  afadigada 
no  lavor  da  costura  para  auxiliar  as  despesas  no 
Porto. 

Joanna  era  a  mais  doce  e  resignada  creatura  que 
ainda  a  Providencia  deparou  no  seio  de  uma  fami- 
lia  mal-sorteada  de  bens  d'este  mundo.  Seu  marido 
tinha  quarenta  e  seis  annos,  e  ella  vinte  e  três.  Não 
distinguireis  entre  a  filha  extremosa  e  consorte  des- 
velada. Acariciava-o  e  respeitava-o  como  a  pae.  Não 
sabemos  que  grau  marcava  a  temperatura  do  seu 
amor  de  esposa :  o  certo  é  que  José  Maria,  golpea- 
do de  revezes  no  seu  negocio,  dizia  que  Deus  o  com- 
pensava  sem  medida,  premiando  o  com  o  oiro  do 


']6  Os  brilhantes  do  brasileiro 

coração  de  sua  mulher,  em  exemplo  de  paciência, 
suprema  riquesa  do  pobre,  moeda  sagrada  com  que 
se  negoceia  o  céo. 

Francisco  adorava  sua  irmã ;  todavia,  para  estar 
triste,  escondia-se  d'ella.  Joanna  queria  que  todos  agra  - 
decessem  a  Deus,  quando  se  levantavam  com  saúde, 
e  se  juntavam  á  volta  da  mesa  do  almoço.  Se  via 
triste  o  marido  ou  irmão,  dizia:  «Sois  ingratos  ao 
Senhor.  Se  um  de  nós  adoecesse,  e  a  doença  fosse 
mortal,  com  que  saudade  nos  lembrariamos  doestes 
dias  tão  quietos,  tão  felizes  !  Pensae  na  tristesa  da 
familia  onde  morreu  um  irmão  ;  pensae  na  casa  on- 
de ha  fome  e  frio,  e  dizei-me  se  não  é  ingratidão  e 
peccado  uma  tristeza  causada  não  sei  porquê  1» 

Quem  primeiro  revelou  a  Francisco  o  amor  de 
Angela  foi  Joanna.  Acabou  de  lhe  contar  a  confi- 
dencia da  fidalga,  e  disse : 

—  Agora,  Francisco,  é  necessário  que  vás  para  o 
Porto,  embora  a  aula  se  abra  em  outubro.  Deixa 
que  o  tempo  desfaça  esta  creancice  de  D.  Angela. 
Eu  disse-lhe  o  que  devia :  mas  ella  respondeu-me 
que  havia  de  ser  tua  esposa,  se  a  tu  amasses.  Já 
viste  innocencia  assim  ?  Eu  fiquei  espantada  a  olhar 
para  a  menina,  e  de  repente  passou-me  pelo  espi- 
rito uma  nuvem  negra.  Deus  me  livre  que  tu,  meu 
querido  irmão,  não  podesses  vencer-te,  se  chegas- 
ses a  imaginar  possível  casar  com  a  filha  do  gene- 
ral Noronha,  com  a  sobrinha  de  D.  Beatriz,  tão  so- 
berba da  sua  fidalguia ! 

Francisco  escutou  sem  assombro  e  sem  interrom- 
pel-a  a  extensa  revelação  de  Joanna.  Passados  mo- 
mentos de  serena  reflexão,  disse : 


Os  brilhantes  do  brasileiro  yj 

—  Eu  sabia  isso...;  ainda  assim,  dás-me  uma 
triste  novidade. 

—  Sabial-o  ?  por  quem  ?  ! 

—  Por  mim.  Tinha-m'o  dito  a  minha  alma.  Eu 
pensava  n'ella. . .  —  vê  que  doidice  I  —  pensava  em 
Angela  imaginando  a  felicidade  do  homem  que  ella 
amasse.  Era  uma  inveja  que  me  envergonhava,  por 
isso  t'a  não  confessei.  Até  de  mim  a  quizera  eu  es- 
conder; mas  o  absurdo  luctava  com  o  absurdo,  e 
não  sei  quem  venceu...  Um  dia  sonhei  que  a  viacho- 
rando,  e  acordei  a  chorar.  Desde  este  momento,  senti 
que  adorava  Angela.  Isto  foi  ha  três  annos,  lem- 
bras-te?  Fui  para  o  Porto,  e  lá  fiquei  todo  o  anno. 
Quando  voltei  e  a  vi,  desejei  morrer.  Um  dia  en- 
trou-me  no  coração  a  certesa  de  que  era  amado. . . 
Por  quem?  perguntas  tu,  Joanna;  e  bem  vejo  que 
estás  sorrindo  da  vaidade  do  teu  pobre  irmão!... 
Eu  te  digo  como  foi...  estávamos  na  egreja  matriz, 
nas  trevas  de  sabbado  santo.  Eu  sabia  em  que  tea 
de  altar  ella  tinha  ajoelhado;  mas  entrevia-lhe  es- 
cassamente o  vulto.  Ao  tanger  da  campainha,  fez- se 
a  claridade  súbita  no  templo,  e  vi  os  olhos  d'ella  cra- 
vados nos  meus,  que  se  abaixaram  respeitosos.  Sa- 
bes tu  que  delírio  de  piedade  me  assalteou?  Ajoe- 
lhei, quando  todos  se  levantavam  e  davam  boas- 
festas.  Ajoelhei  no  maior  sombrio  da  nave...  e 
chorei.  Aqui  tens  a  revelação  que  os  olhos  de  An- 
gela ensinavam  á  minha  alma...  Que  pensas  tu 
agora  de  mim  ?  —  Proseguiu  o  moço,  apoz  longa 
pausa  de  reconcentração. — Receias  que  eu  appa- 
reça  diante  de  Angela  com  o  collo  erguido  pela 
vaidade  de  ser  amado?  Cuidarás  que  eu  principiei 


7<y  Os  brilhantes  do  brasileiro 

a  acastellar  illus5es  por  esse  céo  além,  e  a  descer 
d'ellas  para  o  paradoxo  d'um  casamento?  Mal  me 
conheces  então,  Joannal  Vê  se  me  comprehendes 
isto. . .  Acho  sempre  o  teu  espirito  aberto  a  certas 
coisas  confusas  que  eu  digo,  e  não  sei  dizer  mais 
intelligivelmente.  Olha,  minha  irmã^  eu  não  sei  se 
o  estudo  invelhece  o  coração:  figura-seme  que  sim. 
A  alma  não;  que  essa  é  immortal,  inalterável  e  in- 
violável á  destruição  do  tempo.  Em  mim  conheço 
o  coração  atrophiado,  e  a  alma  viventissima.  Como 
homem  d'alma  adoro  Angela,  illumino  a  á  luz  que 
radia  das  minhas  crenças  em  Deus.  Como  homem 
de  coração  não  a  sacrificaria,  nem  me  sacrificaria. 
Impulso  que  me  arroje  a  querel-a  ouvir  dizer  que 
me  ama  não  o  sinto;  desejo  de  encontrar  aquella 
bella  imagem,  no  silencio  do  espaço  em  que  a  te- 
nho visto  nas  minhas  noites  de  vigília,  intender  os 
murmúrios  que  ressoam  o  seu  nome,  vestil  a  das 
aerias  roupagens  que  sonhou  a  exaltada  poesia  do 
oriente,  é  isso,  é  isso  o  meu  amar,  o  meu  delirar, 
a  minha  inoffensiva  vertigem,  que  não  tem  nada 
que  ver  com  o  nascimento,  nem  com  os  haveres  de 
Angela.  Não  sei  quem  é,  não  conheço,  não  quero 
conhecer  a  filha  do  general  Noronha,  a  rica  herdei- 
ra, a  fidalga  que  tem  no  seu  paço  de  Gondar  re- 
tratos de  avós  que  fundaram  a  monarchia  portu- 
gueza.  Quem  eu  conheço  e  adoro  é  uma  mulher 
que  se  chama  Angela,  que  tem  no  rosto  uma  luz 
celestial,  e  essa  luz  m'a  representa  de  geração  divi- 
na. AUi  ha  signal  de  origem  mais  alta.  Eu  vou  bus- 
car-lh'a  no  céo;  não  a  procuro  na  fundação  da  mo- 
narchia. Porque  receias  tu,  então,  que  eu  perturbe 


Os  brilhantes  do  brasileiro  yg 

o  socego  da  fidalga  opulenta,  se  eu  não  lhe  quero 
nem  os  brasões  nem  o  oiro?  Pôde  ella  dar-me  a 
alma  sem  lesar  os  seus  pergaminhos  nem  declinar 
o  direito  de  succeder  nos  castellos  dos  senhores 
feudaes  seus  avós?  Pôde.  Então,  minha  irmã,  deixa 
ao  pobre  sonhador  a  sua  innocente  felicidade,  e  faz 
de  conta  que  o  defensor  de  Angela  não  é  o  anjo 
da  guarda,  sou  eu. 


XI 


Sonhos  e  esperanças 


Gomo  foi  que  a  vigilância  dos  dois  anjos-custodios 
de  Angela  deixaram  passar  a  primeira  carta? 

Denunciaremos  á  moral  publica  certa  fragilidade 
do  estudante. 

O  escrever-lhe  não  constava  do  programma ;  nem 
isso  era  mister  para  homem  que  se  abastava  com 
o  ideal  encontro  no  silencio  das  noites  estrelladas. 
E,  de  feito,  elle  não  escrevia  cartas  á  imitação 
d'umas  que  o  vulgo  mais  selecto  escreve,  e  suja  e 
profana  nas  mãos  incodeadas  d'um  aguadeiro. 

Francisco,  no  calado  da  noite,  voltava  contempla- 
tivo e  vagaroso  da  costa  maritima,  ou  descia  dos 
pinhaes  cerrados  d' Agra.  Aquellas  noites  estivas  da 
gentilissima  Vianna,  que  se  reclina  á  beira-mar,  sob 
um  pavilhão  de  verdura,  e  se  remira  no  espelho  do 
seu  Lima,  são  noites  para  poetas,  e  poetas  se  fa- 
zem alli  súbito  inflammados  por  tantas  maravilhas 
da  naturesa,  raro  cumuladas  n'um  só  paraiso.  De- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  8j 

baixo  de  céo  tão  inspirativo,  e  terra  tão  espontânea 
de  murmúrios,  de  musicas,  de  perfumes,  de  silên- 
cios que  se  intendem  e  ouvem  no  coração,  alli, 
onde  não  se  faz  mister  a  forma  para  adorar  a  idéa, 
é  que  o  poeta  de  Angela  adorava  idéa  e  forma  tam- 
bém, apesar  dos  seus  incorpóreos  devaneamentos. 

Na  volta  da  montanha  ou  das  ribas  do  mar,  con- 
tinuava os  sonhos,  á  lâmpada  do  seu  quarto,  e  es- 
crevia-os,  justamente  n'um  caderno  com  frontespi- 
cio  que  dizia  sonhos. 

O  mercieiro  viu,  uma  vez,  a  costaneira  com  o 
estranho  titulo;  abriua,  leu  duas  linhas,  fechou-a 
como  os  philologos  modernos  em  consciência  de- 
viam fechar  os  códices  cophtas,  e  disse  á  esposa: 

—  Teu  irmão  está  alli,  está  doido.  Escreve  de 
dia  os  sonhos  que  tem  de  noite.  Pobre  moço ! 

Joanna  foi  ver  também.  Leu  e  intendeu  muito 
pela  rama. 

Aconteceu  perguntar  D.  Angela  á  sua  mestra  de 
bordar  o  que  fazia  o  irmão,  quando  não  lia. 

—  Escreve  n'um  grande  livro  em  branco  uma 
coisa  chamada  Sow/ios— respondeu  Joanna. 

A  fidalga  pediu,  rogou  e  supplicou  á  costureira 
que  Ih^os  deixasse  ver. 

Joanna  hesitou  muitos  dias  em  denunciar  a  sua 
curiosidade  a  Francisco;  todavia,  importunada  por 
Angela,  referiu  ao  irmão  a  sua  imprudência. 

Fraquesa  congenial  do  homem !  Teve  o  rapaz  uns 
assomos  de  jubilo  com  os  rogos  de  Angela  !  Releu  os 
seus  SonhoSy  deu  o  manuscripto  á  irmã,  e  disse-lhe : 

—  Pede-lhe  que  rasgue  esses  papeis  depois  de 

os  ler. 

6 


82  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Angela  pairava  em  regiões  sob-postas  á  do  seu  es- 
piritual adorador.  Adivinhou  mais  do  que  percebeu. 
Decorou  até  o  que  não  intendia. 

Vem  de  molde  o  encher-se  um  vácuo  importante 
d'esta  historia.  A  educação  litteraria  da  filha  de  D. 
Maria  d' Antas  era  egual  á  do  capellão  que  lh'a  trans- 
mittira.  Escrevia  com  a  orthographia  do  padre,  quasi 
nunca  racional.  Lia  os  livros  de  sua  tia,  que  se  pre- 
sava  de  perceber  a  Recreação  philosophica  do  pa- 
dre Theodoro  d'Almeida,  e  relia  todos  os  annos  o 
Feli\  independente  do  mesmo  congregado,  o  Relicá- 
rio de  Marmontel,  e  outros  livros,  cujas  passagens 
notáveis  andavam  de  memoria  na  familia. 

Que  montava  isto  ?  O  amor  de  Deus  infundiu  a 
máxima  sciencia  nos  apóstolos  ignorantes.  O  amor 
do  homem  arrotea  e  enfrutece,  a  súbitas,  o  mais 
maninho  intendimento  de  mulher.  Fenómenos  do 
amor.  O  divino,  florejando  e  aromatisando  marty- 
res  e  santos,  ala  os  amados  á  gloria.  O  humano  com 
seus  relâmpagos  que  abrasam,  e  perfumes  que  em- 
briagam e  asphixiam,  despenha-se  nos  recôncavos 
do  inferno,  que  n'este  mundo  se  chama  o  deses- 
perar. 

Angela  sentiu  destecer-se  o  escuro  de  sua  igno- 
rância ao  compasso  da  leitura  nocturna  que  fazia  dos 
Sonhos.  Aquelle  livro  não  lhe  ensinava  historia,  nem 
grammatica,  nem  geographia,  e  outras  coisas  que 
não  sabidas,  constituem  a  ignorância  humana.  O 
que  ella  aprendia  era  o  Verbo,  não  o  verbo  que  se 
conjuga;  mas  a  palavra,  o  som  que  vibra,  a  corda 
virgem,  a  translucidação  do  sentir  inexpressavel,  o 
definir  da  idéa  confusa,  a  linguagem  um  tanto  mys- 


Os  brilhantes  do  orasileiro  83 

tica  d'esta  religião  do  amor  que  precisa  revelação 
dos  iniciados.  Emíinn,  o  Verbo. 

Ora,  muito  era  para  vêr-se  a  affoitesa  com  que  a 
menina  começou  desde  logo  a  escrever  em  um  li- 
vrinho em  oitavo,  brochado  por  suas  mãos,  uns 
pensamentos  curtos  e  singelos,  com  o  titulo  de  es- 
peranças !  Mal  emplumada  ainda  para  librar-se  a 
remontados  lirismos,  Angela  apenas  avoejava  de  ar- 
busto em  arbusto,  colhendo  todas  as  suas  imagens 
das  flores,  como  a  abelha  a  dulcidão  dos  seus  favos. 

Quando  já  tinha  escripto  algumas  laudas,  pediu, 
com  adorável  simplicidade,  a  Joanna  que  entregasse 
o  livrinho  ao  irmão,  e  acrescentou : 

—  Quando  elle  rasgar  esse,  eu  rasgarei  o  que  me 
elle  mandou.  E  diga-lhe  que  se  elle  sonha,  eu  espero, 

Joanna  satisfez  o  pedido  com  repugnância,  e  mor- 
mento  quando  viu  Francisco  por  tanta  maneira  ba- 
nhado de  consolação  que  lhe  batiam  as  artérias  das 
fontes,  collando  o  livrinho  aos  beiços. 

Agora  é  que  vae  começar  o  pariodo  epistologra- 
phico  d'estes  amores. 

Joanna,  receiosa  de  ser  solicitada  para  medianei- 
ra em  tão  arriscada  correspondência,  evitava  o  en- 
sejo de  estar  a  sós  com  Angela,  e  raramente,  sem 
necessidade  extrema,  ia  a  casa  de  D.  Beatriz. 

Angela,  doida  d'este  desaflecto,  grangeou  impru- 
dentemente os  serviços  d'uma  criada  a  quem  entre- 
gou carta  fechada  para  Joanna.  O  contheudo  eram 
puerilidades,  senão  antes  umas  espertesas  innocen- 
tes.  Enviava  ella  duas  folhinhas  no  formato  das  suas 
Esper ancas j  e  pedia  que  fossem  reunidas  ás  ou- 
tras.  O   dizer  d'este  supplemento  era  já  triste  e 


84  Os  brilhantes  do  brasileiro 

queixoso :  chamava-lhes  ella  aos  pensamentos  :  Es- 
peranças que  fenecem.  Se  Francisco  não  estivesse 
presente,  a  irmã  esconderia  os  papelinhos,  e  iria 
pedir  misericordiosamente  á  fidalga  que  se  esque- 
cesse de  seu  irmão,  e  empregasse  amor  onde  lhe 
fosse  permittido  esperar  felicidades. 

Francisco  mandou  esperar  a  criada,  e  escreveu  a 
primeira  carta.  Depois,  a  segunda,  a  terceira,  até  á 
duodécima,  que  era  o  caderno,  cujo  paradeiro  foi 
ás  mãos  convulsas  de  D.  Beatriz. 

Ate-se  agora  o  fio  da  historia,  no  lance  de  D. 
Beatriz  mandar  que  a  sobrinha  se  preparasse  para 
entrar  no  convento. 


XII 


A  surpresa  tolheu  a  reflexão. 

Angela,  pela  primeira  vez,  deu  ares  de  familia. 
Contavam-se  arrojos  de  D.  Maria  d* Antas,  em  an- 
nos  verdes,  quando  o  pae  lhe  impunha  observância 
das  leis  do  decoro,  em  desacertos  amorosos.  Sahiu- 
se  a  filha  de  Simão  de  Noronha  com  um  dos  atre- 
vimentos não  communs  em  quanto  a  sociedade  as- 
susta, e  o  coração  mulheril  não  desteme  os  effeitos 
do  escândalo. 

Ouvida  a  ordem,  ao  anoitecer,  entrou  no  seu 
quarto  onde  se  deteve  até  ás  dez.  O  silencio  da  casa 
era  completo,  quando  ella  abriu  a  janella  mais  rente 
da  rua,  sahiu  e  encaminhouse  a  casa  de  Joanna. 

A  irmã  de  Francisco,  que  tanto  o  instigara  a  sahir 
para  o  Porto,  n*aquelle  dia,  estava,  a  essa  hora, 
chorando  saudosa  d'elle.  Quando  ouviu  bater  á  por- 
ta, alvoraçou-se,  cuidando  que  o  irmão  desandara, 
por  não  poder  vencer  se.  Perguntou,  conheceu  a 


86  Os  brilhantes  do  brasileiro 

voz  tremula  da  fidalga,  expediu  um  grito,  e  chamou 
o  marido. 

Angela,  apenas  entrou,  disse  entre  risonha  e  es- 
pavorida : 

—  Fugi! 

—  Fugiu,  santo  Deus  !  —  exclamou  Joanna  —  Vos- 
sa excellencia  fugiu,  senhora  D.  Angela  ? !  Não  me 
diga  isso  por  quem  é  ! .    . 

—  Fugi,  deveras,  pois  não  vê,  minha  amiga? 
Olhe. . .  ninguém  veiu  comigo. . .  Se  eu  não  fugis- 
se, amanhã  havia  de  entrar  no  convento  forçosa- 
mente, que  assim  m'o  disse  minha  tia. . . 

—  E  agora,  minha  senhora?  —  atalhou  affligidis- 
sima  a  irmã  de  Francisco. 

—  Agora  o  quê  ? 

—  Que  tenciona  a  menina  fazer? 

—  Fico  n'esta  casa  —  respondeu  serenamente  D. 
Angela,  apertando  nas  suas  a  mão  de  Joanna. 

—  Mui  pobre  casa;  mas  ella  aqui  está,  e  nós  para 
servirmos  a  vossa  excellencia  —  disse  José  Maria 
respeitosamente. 

—  Mas  que  infelicidade,  minha  senhora,  que  in- 
felicidade!—  exclamava  a  tremula  irmã  do  acadé- 
mico, em  quanto  Angela  relançava  em  volta  de  si 
os  olhos  indagadores. 

—  Não  te  afflijas  assim,  Joanna!  —  disse  tran- 
quillo  o  mercieiro  —  maior  infelicidade  seria  que  a 
fidalga  não  tivesse  pessoas  que  a  respeitam  como 
nós. 

—  Seu  irmão?  —  perguntou  Angela  com  vehe- 
meneia,  como  se  a  salteasse  o  pensamento  d'elie  ter 
sahido  para  longe. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  8y 

—  Está  já  no  Porto,  minha  senhora  —  respondeu 
José  Maria,  visto  que  a  mulher  não  respondia. 

—  Foi  para  o  Porto  ? !  —  murmurou  a  filha  de  D. 
Maria  d'A/itas  empallidecendo  e  esbugalhando  os 
seus  brilhantes  olhos  negros. 

—  Foi,  minha  senhora ;  pedi-lhe  eu  muito  que 
fosse  —  tartamudeava  Joanna  —  cuidando  que,  sa- 
hindo  elle  d'aqui,  se  acabavam  as  inquietações  de 
vossa  excellencia  e  de  sua  tia. 

Angela  pendeu  a  face  para  o  seio,  e  quedou-se 
largo  espaço  confusa,  sem  attender  ás  sensatas  obser- 
vações de  José  Maria. 

—  Que  ingratidão !  —  murmurou  ella ;  e,  levantan- 
do-se  de  salto,  disse  :  —  Bem . . .  não  vim  aqui  fazer 
nada;  irei  para  o  convento;  irei  para  onde  quize- 
rem.  Meus  amigos,  abram-me  a  porta,  que  eu  vou 
outra  vez  para  casa ;  mas  digam  ao  senhor  Gosta 
que  eu  vim  procural-o  n'uma  hora  de  muito  soffri- 
mento,  que  não  o  encontrei,  e  que  sahi  desenga- 
nada. . . 

—  O'  minha  senhora,  vossa  excellencia  é  injusta 
com  o  meu  pobre  irmão... — exclamou  Joanna, 
com  as  mãos  postas,  e  inclinada  quasi  em  joelhos. 

N'este  em  meio,  soaram  na  porta  redobrados 
golpes.  Estremeceram  todos. 

José  Maria  foi  á  janella,  e  as  duas  senhoras  se- 
guiram-no. 

—  Está  cá  a  senhora  D.  Angela?  —  perguntou 
uma  voz  de  mulher  esbofada. 

—  E'  Victorina. . .  —disse  a  fidalga  —  Estou,  Vi- 
ctorina,  estou  aqui. . .  Que  é? 

—  O'  minha  senhora  —  disse  a  criada  anciadissi- 


88  Os  brilhantes  do  brasileiro 

ma  —  Deram  fé  que  vossa  excellencia  fugiu.  Sua 
tia  levantou-se  a  chamar  os  criados.  Não  tardam 
ahi. . .  Olhe  que  a  levam  á  força,  e  sua  tia  disse  ao 
João  Alho  que  se  pilhasse  ás  mãos  o  sr.  Francisco, 
o  fizesse  em  postas.  Volte  depressa,  que,  se  elles  cá 
chegam  a  vir,  ha  desgraça  de  maior. 

—  Eu  vou  —  disse  atribulada  Angela  —  eu  vou ; 
que  não  vão  elles  fazer-lhes  mal,  meus  amigos. 
Adeus,  adeus,  que  nos  não  tornamos  a  ver.  ..  — 
E,  abraçando  Joanna,  balbuciou  coberta  de  lagri- 
mas :  —  Diga  a  seu  irmão  que  lhe  perdoo,  que  fez 
bem  em  fugir,  senão  talvez  o  matassem. .. 

E  desceu  pressurosamente  as  escadas. 

Logo  que  sahiram  á  rua,  ouviram  a  estropeada 
de  criados  que  eram  muitos,  acaudilhados  pelo  ca- 
pellão,  sujeito  de  má  rez. 

—  Vamos  por  outro  lado  —  disse  Victorina  re- 
ceando o  encontro. 

—  Não  —  obstou  Angela  —  Se  elles  me  não  en- 
contram, são  capazes  de  arrombar  a  porta  d*esta 
pobre  gente.  Vamos  direitas  a  elles.  Se  não  queres 
vir  comigo,  vae  por  outra  banda. 

—  Não,  minha  menina,  heide  acompanhal-a,  acon- 
teça o  que  acontecer. . .  —  disse  Victorina. 

A  poucos  passos  encontraram  a  chusma.  Angela 
parou.  O  capellão  aproximou-se  a  reconhecel-a,  e 
disse  severamente: 

—  D*onde  vem  vossa  excellencia? 

—  Vou  para  casa  —  respondeu  imperturbada  a  fi- 
dalga. 

—  Mas  d'onde  vem?  —  insistiu  o  padre. 

—  Que  lhe  importa  ? 


Os  brilhantes  do  brasileiro  8g 

—  Importa,  sim,  senhora  —  replicou  elle,  aper- 
tando entre  os  dedos  o  marmeleiro  argolado  que 
vergava  sob  a  pressão  d'aquellas  mãos  ungidas  de 
sacerdote  de  Jesus;  e  proseguiu:  — Eu  queria  ver 
a  cara  ao  bandalho ;  queria  mandar  as  orelhas  d'elle 
de  presente  ao  senhor  general  Simão  de  Noronha. 

Angela  ladeou  a  turba,  e,  trespassada  de  súbito 
medo,  seguiu  caminho  de  casa.  Os  criados,  imitan- 
do o  padre,  seguiram-na  de  perto. 

Entrou  a  senhora  pela  porta  principal.  D.  Bea- 
triz rodeada  de  criadas  e  visinhas,  estava  na  pri- 
meira sala.  Angela  perdeu  o  animo,  quando  avistou 
do  patim  a  multidão  que^  estava  dentro.  Voltou-se 
então  muito  desalentada  para  Victorina,  e  disse : 

—  Quem  me  dera  morrer  n*este  instante  ! . . . 

O  capellão  adiantou-sc,  mandando  recolher  os 
criados.  Passou  avante  de  Angela,  e  disse  a  D.  Bea- 
triz: 

—  A  sobrinha  de  vossa  excellencia  está  alli.  Que 
ordena  ? 

—  Abram-lhe  uma  porta  de  dentro ;  que  não  passe 
diante  dos  meus  olhos,  e  que  fique  esta  noite  aqui 
por  caridade.  Começou  como  Maria  d' Antas ;  pro- 
vavelmente acabará  como  ella.  Tal  mãe,  tal  filha. 

E,  vociferando  assim,  sacudia  umas  calmandulas 
de  azeviche  que  tinha  penduradas  no  pulso. 

A  gente,  que  a  rodeava,  repetiu  com  tom  de  pie- 
dade : 

—  Tal  mãe,  tal  filha ! . . . 

E  Angela  escutara  aquillo,  amparando-se  nos  bra- 
ços de  Victorina. 
E  esta  mulher  sentia-se  transida  de  horror,  po 


go 


Os  brilhantes  do  brasileiro 


que  só  ella  e  Simão  de  Noronha  sabiam  que  mor- 
rer havia  sido  o  de  D.  Maria  d*Antas.  Ella  tinha 
sido  quem  conduzira  a  Vianna  a  criancinha  de  dois 
annos;  e  nunca  o  terrivel  segredo  lhe  fora  arran- 
cado pelas  suspeitosas  indagações  de  Angela. 

Recolhida  ao  seu  quarto,  a  pávida  menina  rom- 
peu em  soluços  abafados  no  seio  da  criada. 


XIII 


o  capellão  obteve  de  galope  as  licenças  necessá- 
rias para  a  clausura  de  Angela. 

D.  Beatriz  recusou  ver  a  sobrinha,  que  lhe  man- 
dou pedir  licença  para  despedir-se. 

Victorina  acompanhou-a. 

Quando  entraram  no  convento,  já  lá  corria  a  no- 
ticia da  fuga.  Soror  Gassilda  de  Noronha,  irmã  do 
general,  estava  prevenida  por  sua  irmã.  Recebeu 
glacialmente  a  sobrinha  a  quem  aborrecia :  era  ódio 
reflexo  de  D.  Maria  d'Antas,  causa  indirecta  da  sua 
forçada  reclusão.  Fora  o  caso  que  Simão  de  Noro- 
nha, resolvido  a  concubinar-se  com  a  prima,  remo- 
veu o  estorvo  da  irmã,  induzindo-a  ou  constran- 
gendo-a  a  professar,  já  quando  não  podia  consagrar 
ao  divino  esposo  a  virgindade  do  coração.  Sem  im- 
pedimento da  mortalha,  Soror  Gassilda  desforrou-se, 
bem  que  não  sahisse  da  classe,  e  da  sua  ordem, 
honra   lhe   seja;  que  os  seus  amados  tinham  sido 


g2  Os  brilhantes  do  brasileiro 

todos  frades  benedictinos.  Sem  embargo,  o  ódio  in- 
veterado a  Maria  d'An<:as  foi  semente  maldita,  que 
bracejou  arvore,  onde  as  aves  infernaes  fizeram  ni- 
nho. Cumpria  á  desditosa  filha  da  peccadora  tra- 
gar-lhe  os  fructos. 

Para  dobro  de  desgraça,  o  general  foi  avisado  da 
fuga.  A  resposta  do  selvagem  foi  simples:  «não  te- 
nho filha.»  Queria  dizer:  essa  mulher  que  se  sus- 
tente com  o  seu  trabalho,  ou  sustente-a  a  caridade 
publica. 

E,  por  tanto,  Angela  não  tinha  mesada.  Cassilda 
dizia  ás  suas  criadas:  «dêem  lhe  alguma  coisa,  se 
quizerem».  E  Victorina,  que  tinha  cordoes  e  arre- 
cadas, vendeu  o  seu  oiro,  alegrando-se  de  o  ver 
transformado  no  pão  da  sua  ama. 

Foi  terminantemente  prohibido  á  porteira  entre- 
gar carta  á  recolhida,  sem  prévio  exame  da  abba- 
dessa ;  a  mesma  condição  estipulada  para  carta  ida 
do  convento. 

Três  dias  depois,  José  Maria,  o  mercieiro  cujos 
haveres  não  chegavam  a  pagar  o  debito  de  um 
conto  de  réis  a  D.  Beatriz,  foi  intimado  para  pagar 
ou  nomear  bens  á  penhora.  Tinha  a  casa  em  que 
vivia,  e  os  géneros  de  sua  loja  a  pagamento  de  pra- 
so.  Offereceu  a  casa.  Penhoraram-lh'a.  Os  credores 
confluíram.  Fecharam  lhe  a  loja.  E  dez  dias  depois 
o  coveiro  fechou-lhe  a  sepultura.  «Morro  deshonra- 
do,  e  deixo-te  a  pedir  e  mais  teu  irmão»  exclamou 
elle,  desde  que  o  ameaçou  a  congestão  cerebral  até 
que  pendeu  a  cabeça  aos  braços  da  esposa,  e  ex- 
pirou. 

Chegou  a  noticia  do  successo  triste  ao  mosteiro. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  gS 

D.  Angela  verteu  acerbas  lagrimas,  e  tomou  como 
sobre-carga  de  angustias  a  responsabilidade  da  mor- 
te do  mercieiro,  e  a  desgraça  da  viuva  e  do  cu- 
nhado. 

Francisco  José  da  Gosta  recebeu  a  um  tempo  a 
noticia  da  fuga  e  reclusão  de  Angela,  a  da  penhora 
e  fallencia,  a  da  doença  e  provável  morte  do  cu- 
nhado. Partiu  para  Vianna.  Quando  chegou,  Joanna 
assistia  de  joelhos  ao  acto  de  sacramentar-se  o  ma- 
rido. Francisco  não  ajoelhou.  N'aquelle  estacar  im- 
movel  diante  do  espectáculo  lúgubre,  havia  o  que 
quer  que  fosse  peor  que  a  condição  do  moribundo. 
Vêl-o  era  comprehender  as  palavras  plangentes 
d'um  escriptor  celebrado :  «A  vida  morta  ficou  se- 
pultada no  corpo  vivo».  * 

Fechada  a  sepultura  de  José  Maria,  a  viuva  ajoe- 
lhou á  beira  do  leito  do  irmão. 

—  Não  morras,  que  eu  não  tenho  outro  amparo ! 
—  ihe  clamava  ella. 

—  Qual  amparo  ? ! — murmurou  elle. 

—  Trabalharemos,  meu  irmão  í  Vê  que  sou  mu- 
lher, e  não  desespero !  Vê  que  dores  me  trespas- 
sam, Francisco  I  e  vivo,  e  vivo,  meu  querido  irmão ! 
Lembra-te  da  coragem  da  infeliz  menina ! . . .  Não 
sejas  tu  o  mais  fraco  de  tantos  desgraçados,  já 
que. . . 

—  Já  que  foste  a  causa, . .  completou  o  moço  a 
phrase,  e  rompeu  em  choro  desfeito. 


1  Padre  Balthasar  Telles— Chronica  da  Companhia  de  Je- 
sus. 


g4  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Depois,  sentou-se  no  leito,  fincou  os  dedos  recur- 
vos na  fronte,  e  disse : 

—  Pois  sim  :  trabalharemos. 

E,  volvidos  poucos  dias,  Joanna  e  Francisco  sa- 
biam para  o  Porto,  com^quanto  dinheiro  possuiam  :  o 
urgente  para  a  alimentação  de  oito  dias. 

O  estudante  abandonou  as  aulas.  Quem  o  sus- 
tentaria ?  Como  congraçar  o  estudo  com  qualquer 
outro  emprego  ?  E  qual  emprego  lhe  daria  pão,  ex- 
hauridos  os  cobres  salvados  dos  últimos  vestidos 
teitos  por  sua  irmã? 

Joanna  pedio  trabalho  a  uma  modista  franceza. 
Exigiram-lhe  fiança.  EUa  disse  a  chorar  que  não  co- 
nhecia ninguém.  Abonaram-n*a  as  lagrimas.  Per- 
mittiu  a  modista  que  a  desvalida  levasse  as  fazen- 
das para  um  sótão  da  RuaEscura,  onde  seu  irmão 
tinha  vivido  como  estudante  de  escassos  recursos. 
Francisco  vendeu  todos  os  seus  livros,  depois  que 
apartou  de  entre  elles  as  Esperanças  de  Angela. 
Comprou  com  o  producto  d'elles  o  catre  de  sua  ir- 
mã, que  dormia  sobre  taboas.  Dizia  ella  que  para 
quem  passava  as  noites  trabalhando  e  chorando  todo 
o  leito  era  bom. 

Os  condiscipulos  do  académico,  sabedores  do  in- 
fortúnio do  primeiro  annista,  cotisaram-se  para  lhe 
accudir  e  salvar  o  anno :  Francisco  regeitou  a  es- 
mola sem  orgulho,  dizendo :  quem  não  pôde  ser 
medico,  seja  operário  de  mais  humilde  condição.» 

Um  dia  oftereceram-lhe  um  logar  de  amanuense 
de  tabellião.  Acceitou  muito  agradecido.  Escrevia 
á  rasa,  e  ganhava  trezentos  réis  diários.  No  sótão 
da  Rua-Escura,  depois  de  dois  mezes  do  trabalho 


Os  brilhantes  do  brasileiro  g5 

incessante,  com  intermittencias  de  lagrimas,  havia 
horas  regulares  de  comer. 

Eis  aqui  o  poeta  dos  Sonhos,  três  mezes  depois 
que. . .  sonhava. 

Que  despertar  aquelle  I  Se  não  vale  mais  andar 
um  homem  sempre  acordado,  e  a  patinhar  na  lama 
d'este  planeta  para  não  adormecer  !. . . 

Entretanto,  Angela  de  Noronha,  ou  d'Antas,  co- 
mo as  tias  a  apellidavam  para  sacudirem  de  si  o 
opprobrio  de  tal  parenta,  ainda  lia  os  Sonhos  do 
scismador  do  monte  d'Agra  e  das  ribas  do  mar.  O 
manuscripto  e  cartas  de  Francisco  andavam  na  cai- 
xa de  Victorina,  valendo  todavia  menos  ás  amar- 
guras de  Angela  do  que  o  oiro  da  velha,  o  qual  (di- 
gamol-o  com  vénia  da  poesia,  e  da  prosa  apocali- 
ptica)  tornava-se  muitíssimo  mais  prestimosa  a  cai- 
xa da  generosa  criada. 

O  recolhimento  e  conformidade  da  filha  do  ge- 
neral moveram  á  commiseração  algumas  religiosas, 
que  se  não  pejaram  de  frequentar  a  sua  desornada 
cella,  a  occultas  de  soror  Gassilda.  Se  alguma  frei- 
ra, mais  desprendida  de  respeitos  e  preconceitos, 
se  aíFoitava  a  arguir  de  cruel  a  invalida  consolado- 
ra dos  extinctos  frades,  Gassilda  respondia  que  não 
acceitava  como  sobrinha  a  mulher  que  seu  irmão 
não  considerava  filha.  Esta  rasão  passava  com  fo- 
ros de  discreta  e  ajuizada. 

Quem  mais  se  compadecia  de  Angela  era  uma 
criada  da  prelada.  Assim  que  vagava  ás  lides  ca- 
seiras, ia  com  mostras  de  grande  respeito  á  cella  da 
fidalga,  e  alli  se  esquecia  a  contemplai  a,  e  a  dizer 
coisas  muito  encarecidas,  fascinada  de  sua  bellesa. 


g6  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Muitas  vezes  oflfereceu  as  suas  soldadas  de  trinta 
annos  a  Victorina,  ás  escondidas  da  senhora ;  mas 
a  criada  fazia  milagres  de  economia  com  o  producto 
dos  seus  enfeites,  auxiliado  com  os  bordados  da  ama. 

Rita  de  Barrosas  —  que  assim  se  chamava  a  cria- 
da da  abbadessa  —  contou  muito  secretamente  a 
Victorina  que  sua  ama  tinha  apanhado  uma  carta 
muito  grande,  vinda  do  Porto  para  a  fidalga ;  por 
signal,  ajuntava  Rita,  que  a  senhora  abbadessa,  len- 
do-a  a  outras  freiras,  chorava  com  ellas. 

Com  o  bom  propósito  de  não  acerbar  as  dores  de 
sua  ama,  Victorina  occultou  esta  confidencia.  E, 
quando  Angela,  brandamente  accusava  o  esqueci- 
mento de  Francisco,  a  criada,  conciliando  a  discri- 
ção com  a  consciência,  dizia : 

—  Deus  sabe  o  que  elle  padece !  E  vossa  excel- 
lencia  sabe  também  que  á  sua  mão,  carta  que  elle 
escreva,  nunca  chegará. 

—  Mas  nem  Joanna. . .  aquella  infeliz  mulher. . . 

—  Deus  sabe  também  se  ella  terá  papel  em  que 
lhe  escreva...  Minha  querida  menina,  tenha  com- 
paixão d'elles,  que  são  mais  infelizes  do  que  vossa 
excellencia..  Disse  me  a  Rita  de  Barrosas  que  ouvi- 
ra contar  misérias  da  pobre  gente  lá  pelo  Porto. 
Olhe,  minha  senhora,  se  vossa  excellencia  poder 
esquecer  o  sr.  Costa,  ainda  pode  ser  que  volte  ás 
boas  graças  de  sua  famiHa,  e  seu  paesinho,  á  hora 
da  morte,  lhe  perdoe,  e  a  deixe  herdeira  dos  bens 
livres,  como  todos  diziam  que  deixava ;  mas,  se  el- 
les  souberem  que  vossa  excellencia  ainda  teima  n'es- 
tes  praguejados  amores,  então  não  sei  o  que  hade 
ser  da  minha  infeliz  menina. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  gj 

—  O  que  a  divina  Providencia  quizer.  Eu  não 
posso  esquecer-me  de  Joanna  e  de  Francisco  porque 
fui  causa  da  desgraça  d'elles.  Se  Deus  me  desse  al- 
guma coisa,  e  meu  pae  me  deixasse  pouco  que  fos- 
se, eu  daria  tudo  para  os  remediar.  Isto  já  não  é 
amor,  Victorina ;  é  dever.  Quem  matou  o  José  Ma- 
ria foi  a  cruel  vingança  de  minha  tia.  Fui  eu  que  lhes 
não  deixei  gosar  a  santa  felicidade  de  pobres. 


XIV 


Yla  dolorosa 


Passaram  dois  annos,  e  somos  chegados  ao  de  1840. 

Alteração  notável  no  viver  de  Francisco  José  da 
Costa  não  ha  nenhuma.  E'  ainda  amanuense  de 
tabellião.  Joanna  continua  ajrabalhar  para  as  mo- 
distas; mas,  cançada  e  doente,  rende  lhe  pouquís- 
simo o  lavor. 

O  viver  de  Angela  é  mais  angustiado.  Victorina 
já  vendeu  tudo  que  valia  dinheiro.  A  ama  não  tem 
que  vender,  porque  sua  tia  Beatriz  negou-lhe  algu- 
mas jóias  que  o  pae  lhe  havia  dado,  sem  impedi- 
mento de  terem  sido  de  D.  Maria  d' Antas.  Os  es- 
crúpulos de  beata  não  iam  ao  extremo  de  repulsa- 
rem os  braceletes  e  correntes  da  peccadora. 

Victorina  já  acceita  as  esmolas  de  Rita  de  Barro- 
sas, e  as  liberalidades  de  outras  senhoras  que  deli- 
cadamente favorecem  a  sobrinha  de  Gassiida  de  No- 
ronha—  freira  opulenta,  como  depositaria  e  her- 
deira m  mente  d'um  dom  abbade  de  benedictinos. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  gg 

rolado  ao  inferno  por  intermédio  d'uma  hydropesia. 

Angela  ignorou  algum  tempo  a  sua  deplorável  de- 
pendência. Era,  comtudo,  forçoso  adivinhal-a,  e  in- 
ferii-a  das  tristesas  da  criada.  Animou-se  para  en- 
trar ao  fundo  da  sua  miséria,  e  soube  que  estava 
indigente. 

Vencida  pela  desesperação,  escreveu  ao  pae,  invo- 
cando a  memoria  de  sua  mãe.  Péssimo  expediente  I 
Victorina  quiz  dissuadil-a  da  invocação ;  mas  era-lhe 
doloroso,  tendo  de  explicar  a  inconveniência,  contar 
a  uma  filha  a  desastrada  morte  de  Maria  d'Antas. 
A  carta  foi ;  mas  a  resposta  não  veiu. 

Pensava  Angela  em  sahir  do  mosteiro  e  ir  ajoe- 
Ihar-se  diante  do  pae.  Constou  o  intento.  A  prela- 
da, com  boas  palavras,  lhe  desfez  o  plano,  dizen- 
do-lhe  que  só  poderia  sahir  com  ordem  de  sua  tia 
ou  do  sr.  arcebispo  de  Braga. 

—  Mas  minha  tia  ou  o  sr.  arcebispo  não  me  dei- 
xarão morrer  á  necessidade  ?  —  perguntou  Angela 
debulhada  em  lagrimas. 

A  prelada  commovida  respondeu : 

—  A  menina  não  hade  morrer  á  necessidade.  Por 
em  quanto  alguém  a  tem  soccorrido  e  continuará  a 
soccorrer.  A  misericórdia  do  Senhor  é  grande. 

N'este  tempo,  aconteceu  chegar  ao  convento  a  no 
ticia  de  ter  apparecido  em  Barrosas  um  brasileiro 
muito  rico,  procurando  novas  de  uma  irmã  que  dei- 
xara, quando,  em  creança,  fora  para  a  America.  Ora 
a  irmã  do  brasileiro  era  Rita  de  Barrosas,  criada 
da  abbadessa.  Grande  alvoroço,  e  alegrias,  e  inve- 
jas no  mosteiro! 

Rita  correu  ao  quarto  de  Angela  a  mostrar  a  car 


joo  Os  brilhantes  do  brasileiro 

ta  do  vigário  da  sua  freguezia,  avisando-a  de  que  o 
irmão  iria  brevemente  buscai  a  de  liteira. 

Dias  depois,  chegou  a  Vianna  Hermenegildo  Fia- 
lho \  e,  dado  aviso  ao  convento,  foi  procurar  a  irmã. 
Sahiram  a  cumprimental-o  as  religiosas  mais  autho- 
risadas^  e  folgaram  de  o  ver  comer  pasteis  ensopa- 
dos em  vinho  do  Porto  com  familiar  lhaneza  e  pro- 
porções homéricas  de  estômago. 

Ao  outro  dia,  Rita  sahiu  do  mosteiro,  depois  de 
ter  chorado  abraçada  em  Angela,  única  pessoa,  di- 
zia ella,  de  quem  levava  saudades,  e  de  quem  nun- 
ca se  esqueceria. 

Com  este  successo  coincidiu  a  morte  de  D.  Bea- 
triz de  Noronha.  Contaram  as  criadas  que  o  fan- 
tasma de  José  Maria,  auxiliado  por  incommodos  de 
bexiga,  a  matara,  penetrando  a  d'um  remorso  dila- 
cerante. E  posto  que  a  critica  e  a  medicina  presu- 
mam que  D.  Beatriz  haja  succumbido  a  uma  sisti- 
te,  ou  qualquer  outra  moléstia  mais  ou  menos  gre- 
ga, é  certo  que  a  velha  para  lograr  o  espectro  do 
mercieiro,  deixou  em  testamento  g6oitt>ooo  réis  para 
missas  por  sua  alma  de  esmola  de  240.  Quatro  mil 
missas !  O  diabo  que  se  atreva  a  levar  alma  com 
tal  recommendação,  se  é  capaz  l 

Fallecida  Beatriz,  solicitou  Angela  novamente  a 
sua  sahida.  A  prelada  consultou  Soror  Cassilda,  a 
qual  respondeu  que  não  tinha  que  ver  com  a  sa- 
hida, assim  como  não  tivera  com.a  entrada.;Sem- 
pre  discreta!  Os  frades  d'esta  senhora  deviam  de 
ter  sido  sujeitos  atticos  bastantemente  nos  seus  ra- 
ciocinios.  Esta  madre  era  notável  nas  formas  apho- 
rismaticas,  e  quasi  sempre  rebatia  as  replicas  com 


Os  brilhantes  do  brasileiro  loi 

argumento  de  dois  bicos.  Parece  que,  na  convivên- 
cia de  varões  doutos,  a  subtil  religiosa  medrava  em 
espirito  o  que  os  mestres  iam  adelgaçando  na  par- 
te que  Xavier  de  Maistre  denomina  a  outra. 

Rita  de  Barrosas,  escrevendo  a  D.  Angela,  pe- 
dia-Ihe  que  fosse  estar  com  ella  uma  temporada  á 
bella  quinta  que  seu  irmão  acabava  de  comprar  ;  e 
ajuntava  que,  sendo  necessária  licença,  ella  se  en- 
carregaria de  requerer  e  obter  em  Braga. 

Ninguém  impediu  a  sabida  da  reclusa.  As  freiras 
cooperaram  quasi  todas  para  que  não  se  estorvasse 
á  pobre  senhora  o  intento  de  pedir  perdão  ao  ge- 
neral. 

Eífectivamente,  Angela,  apesar  de  despresada  do 
pae,  insistia  em  tentar  a  reconciliação  apresentan- 
do-se-lhe  com  as  supplicas  piedosas  do  costume.  Se 
ella  medisse  o  seu  amor  filial  pelo  que  devia  espe- 
rar de  Simão  de  Noronha,  poupar-se-hia  a  tentati- 
vas vãs.  Em  verdade,  o  desapego,  era  reciproco.  A 
ficção  poderia  espremer  lagrimas  dos  olhos  de  An- 
gela aos  pés  do  pae,  que  Ih  as  despresaria;  se,  to- 
davia, elle  podesse  sobre-posse  acaricial-a,  os  júbi- 
los do  perdão  escassamente  agitariam  o  coração  da 
filha.  Seriam,  bem  ensaiados,  filha  e  pae  de  come- 
dia, quando  os  artistas  se  compenetram  dos  seus 
papeis. 

Um  pensamento,  nem  esquisito,  nem  reprehen- 
sivel,  avassalava  o  animo  de  Angela :  cogitava  em 
ser  rica  para  enriquecer  Francisco  da  Costa  e  ir- 
mã. O  amor  já  entrava  quasi  esvahido  n'este  cal- 
culo. Figurava-se  lhe  que  tocaria  o  acume  da  for- 
tuna  se  conseguisse  pagar  cem  por  um  dos  bens 


102  Os  brilhantes  do  brasileiro 

que  perderam  os  dois  irmãos,  quebrado  o  esteio  do 
logista. 

Ora,  a  riqueza  d'onde  lhe  proviria  a  não  ser  do 
general,  cuja  abastança  engrossara  com  a  herança 
de  D.  Beatriz  ? 

Rijo  era,  pois,  o  estimulo  que  a  fazia  transpor  as 
balisas  da  dignidade.  E  longe  de  nós  acoimar  de 
aviltamento  a  humilhação  da  filha ;  se,  no  entanto, 
o  sentir  filial  a  não  impulsa,  e  a  cobiça,  fingindo  ar- 
rependimento, se  deplora,  o  senhoril  do  acto  é  pou- 
quissimo  exemplar.  Tanto  assim,  que  Angela,  des- 
preoccupada  do  desejo  de  enriquecer-se  para  reme- 
diar alheios  infortúnios,  certo  se  deixaria  vencer  da 
fome  antes  de  ajoelhar  a  um  homem  distincto  dos 
outros  pelo  nome  insignificativo  de  pae. 

Foi,  pois,  caminho  de  Ponte  do  Lima,  apenas 
sahiu  do  convento.  Chegou  de  noite  com  Victorina 
ao  portão  do  palacete.  Bateu,  esperou  largo  tempo 
que  lhe  abrissem.  Annunciou-se.  Mandoua  entrar 
um  antigo  criado;  conduziu-a  a  uma  sala,  com  duas 
alcovas,  dizendo-lhe : 

—  Vossa  excellencia  tem  alli  uma  cama  n'aquella 
alcova,  e  a  criada  outra.  Eu  vou  servir  o  chá. 

—  E  meu  pae  não  me  consente  que  o  veja  hoje  ? 
—  perguntou  Angela. 

—  Seu  pae,  minha  senhora,  foi  para  França  ha 
quinze  dias  consultar  médicos,  por  que  tem  pade- 
cido muito  n'estes  últimos  mezes.  Eu  já  era  criado 
em  Gondar  quando  vossa  excellencia  nasceu.  A  sr.* 
Victorina  hade  lembrar  se  do  João  Pedro.  Sou  eu, 
é  este  velho  que  aqui  está.  Ora  eu  fiquei  com  o 
governo  d'esta  casa,  que  para  isso  fui  chamado  lá 


Os  brilhantes  do  brasileiro  io3 

do  Paço,  e  intendo  que  a  minha  obrigação  é  rece- 
ber a  filha  do  meu  amo,  e  dar  parte  para  Paris  que 
vossa  excellencia  está  aqui.  Se  o  sr.  general  repro- 
var o  meu  procedimento,  e  me  despedir  do  seu  ser- 
viço, já  me  não  prega  grande  peça,  que  eu  pouco 
heide  viver.  Até  já,  minha  senhora.  Se  a  sr.*  Victo- 
rina  quizesse  ajudar- me  a  preparar  o  chá,  bom  se- 
ria, para  não  haver  grande  demora  \  que  eu  despe- 
di a  cosinheira  assim  que  o  patrão  sahiu,  e  cá  me 
arranjo  e  mais  outro  criado  com  duas  brazas  e  um 
púcaro. 

Era  consolador  o  repousar  e  respirar  que  Angela 
experimentava  n'aquella  athmosphera  de  riqueza,  O 
seu  quarto  de  dormir,  quando,  annos  antes,  visi- 
tava o  pae,  era  aquelle  mesmo.  Em  quanto  Victo- 
rina  moirejava  alegremente  na  cosinha,  a  senhora 
pegou  d'um  castiçal  e  andou  percorrendo  a  casa. 
Reconheceu  a  ante-camara  de  seu  pae,  entrou  e  sen- 
tou se  na  cadeira  de  espaldar  ante-posta  á  banca  de 
escrever.  Era  esta  banca  rodeada  de  escaninhos 
onde  se  recadavam  cartas.  Angela  reconheceu  a  le- 
tra da  defunta  Beatriz  n'um  sobrescripto  de  carta 
immassada  com  outras.  Leu  a  primeira  em  que  sua 
tia  relatava  os  pormenores  da  fuga,  calumniando  a 
sobrinha  a  ponto  de  referir  que  os  seus  criados  a 
tinham  arrancado  dos  braços  do  filho  do  sacristão. 
Que  seria  d'aquella  alma,  a  não  se  guindar  do  pur- 
gatório alçapremada  por  quatro  mil  missas  a  240 
réis ! 

Leu  a  segunda,  em  que  D.  Beatriz  participava  es- 
tar disposta  a  obrigar  Angela,  pela  necessidade,  a 
vestir  a  touca  de  criada,  para  que  todos  soubessem 


104  Os  brilhantes  do  brasileiro 

que  os  parentes,  se  o  eram,  (sublinhava  ella)  a  ti- 
nham abandonado  como  infame. 

—  E'  impossível  que  meu  pae  me  receba... — 
disse  entre  si  amargurada. 

Ia  retirar-se,  quando  reparou  n'um  cofre  de  pra- 
ta que  assentava  sobre  um  bofete.  Reconheceu-o, 
por  que  tinha  sido  de  D,  Beatriz.  Abriu-o.  Estavam 
dentro  as  jóias  que  seu  pae  lhe  tinha  dado,  e  so- 
bre ellas  um  cartão  com  o  nome  impresso  do  ge- 
neral, e  por  baixo,  escripto  do  pulso  d'elle,  o  se 
guinte :  Estas  peças  em  numero  de  de:[  pertencem  a 
Angela^  filha  de  D.  Maria  d' Antas ^  já  defunta.  Se 
eu  morrer  em  Paris,  entreguem-Was  os  meus  testa- 
menteiros. Procurem  na  no  mosteiro  de  S.  Bento  em 
Vianna,  ou  onde  ella  parar.  Não  tem  mais  que  her- 
dar da  casa  onde  viveu  sua  mãe. 

Fechou  Angela  o  cofre  e  voltou  profundamente 
descoroçoada  á  sala. 

Entravam  os  dois  criados  com  a  bandeija  do  chá. 
A  filha  de  Maria  d' Antas  tomou  uma  chávena,  e 
disse : 

—  Aceito  a  esmola,  sr.  João  Pedro.  Dirá  ao  sr. 
general  que  a  filha  de  D.  Maria  d* Antas  aceitou  esta 
chávena  de  chá,  e  um  leito  onde  passar  uma  noite. 

—  Uma  noite  !  — ;  volveu  espantado  o  velho  —  vos- 
sa excellencia  está  em  sua  casa,  penso  eu.  E,  se 
me  não  engana  o  coração,  a  fidalga  não  sahirá  mais 
da  casa  de  seu  pae. 

—  A'manhã. 

—  A'manhã  I  pois  vossa  excellencia  ainda  ha  pou- 
co parecia  resolvida  a  ficar  esperando  que  o  sr.  ge- 
neral.. . 


Os  brilhantes  do  brasileiro  io5 

—  E'  verdade ;  mas  resolvi  outro  passo  menos 
deshonroso.  A'manhã  iremos  para  Barrosas,  Victo- 
rina.  Aceitaremos  o  bem-fazer  da  mulher  humilde. 
EUa  foi  pobre  •,  será  por  isso  mais  compadecida. 

—  Estou  ás  aranhas,  minha  senhora  !  —  exclamou 
João  Pedro  —  Faça-me  o  favor  de  mudar  de  idéas, 
e  queira  desculpar  o  meu  atrevimento.  A  senhora 
tenha  prudência.  Já  que  veiu,  fique;  que  seu  pae, 
quer  queira  quer  não,  para  fora  de  casa  não  a 
manda. . . 

—  Manda  —  affirmou  Angela  com  vehemencia  — 
Diga-me  uma  coisa,  sr.  João :  nunca  ouviu  fallar  de 
mim  ao  sr.  general  ?     • 

—  Nunca :  eu  não  sei  mentir. 

—  Quem  suppõe  vossemecê  que  seja  herdeiro  do 
senhor  general  ? 

—  Os  irmãos  da  mulher  com  quem  elle  casou 
quando  tinha  dezeseis  annos,  uns  homens  de  pé  des- 
calço, que  nunca  vieram  a  esta  casa.  Eu  desconfio, 
minha  senhora,  que  seu  pae  está  doente  de  cabeça, 
ha  coisa  de  quatro  annos.  Os  médicos  não  atinam 
com  a  cura  por  que  lhe  procuram  a  doença  no  pei- 
to, e  elle  tem-na  nos  miolos ;  salvo  tal  logar  E'  por 
isso  que  eu  desejava  que  elle  visse  aqui  vossa  ex- 
cellencia,  por  que,  se  a  visse,  parece-me  que  atre- 
maria  outra  vez. 

—  E,  se  elle  morresse  em  Paris,  eu  seria  expulsa 
d'esta  casa  pelos  homens  de  pé  descalço,  não  é  ver- 
dade ?  —  perguntou  Angela. 

—  Seria  o  que  fosse.  Eu,  e  mais  os  criados  to- 
dos, iriamos  jurar  que  seu  pae  não  regulava  do  jui- 
zo  quando  fez  o  testamento ;  e  p'ra  prova  basta  dizer 


io6  Os  brilhantes  do  brasileiro 

que  elle  mandou  trazer  da  capella  do  Paço  de  Gon- 
dar  o  esqueleto  da  tal  Josepha  Salgueira  com  quem 
foi  casado,  e  tem-no  debaixo  da  cama  n'um  caixão 
de  páo  de  alcanfora.  Quel-o  mais  doido  ao  pobresi- 
nho  do  velho  ? 

—  Respeite-se  a  sua  dor,  embora  seja  um  desa- 
tino —  disse  Angela.  —  Então  elle  amou  muito  essa 
mulher  ? 

—  Lá  isso  muito.  Ella  morreu  de  afflicção,  quan- 
do o  viu  ferido  em  Amarante. 

—  Já  sabia  isso.  Era  uma  sublime  alma !  Conhe- 
ceu-a  ? 

—  Se  conheci !  Andava  ella  com  o  rebanho  das 
ovelhas,  quando  eu  era  rapazola  de  quinze  annos. 
Era  muito  linda,  isso  era  I 

—  E  de  minha  mãe  lembra-se  ? 

—  Da  senhora  D.  Maria  d^Antas?...  pois  não 
embro  1  Isso  foi  hontem  ?  Fui  criado  d'ella  dez  an- 
nos. . .  como  heide  eu  não  me  lembrar? 

—  A  Victorina  diz  que  era  muito  formosa . . . 

—  Era  vossa  excellencia  sem  tirar  nem  pôr.  Es- 
tou a  vêl-a.  Só  era  um  poucachinho  mais  alta  ecó 
rada. 

—  Lembra-se  se  ella  era  muito  minha  amiga  ? 

—  Parece-me  que  sim. . . 

—  Por  que  ? 

—  Foi  ella  quem  a  creou :  não  quiz  ama,  como 
todas  as  mães  que  tem  de  seu. 

—  Lembra-se  da  morte  d'ella  ? 

João  Pedro  respondeu  tardamente  e  tartamudo : 

—  Não  me  recordo  bem. . .  Eu  estava  então  na 
quinta  de  Santo  Amaro...  Lá  é  que  me  chegou  a  no- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  íoj 

ticia  de  ter  morrido  a  fidalga . . .  E,  quando  voltei, 
o  sr.  Simão  de  Noronha  já  estava  fora  de  Por- 
tugal  . . 

—  Mas  o  sr.  general  não  mandou  buscar  os  os- 
sos de  minha  mãe  ?  —  perguntou  Angela  chorando 
no  sorriso. 

O  velho  não  respondeu. 

—  Vamos  deitar,  Victorina.  Até  amanhã,  sr.  João 
Pedro. 

—  Muito  bem  passe  a  noite,  fidalga. 

Ao  alvorejar  da  manhã,  Angela,  que  vellara  a 
noite  ao  pé  do  leito  de  Victorina,  foi  sentar-se  á 
banca  de  seu  pae,  e  escreveu  uma  breve  carta,  que 
sobrescriptou  ao  general  Simão  de  Noronha,  pedin- 
do-lhe  que  perdoasse  ao  seu  criado  a  caridade  de  a 
ter  recebido,  e  de  lhe  ter  dado  uma  cama  por  uma 
noite,  e  lhe  haver  ainda  esmolado  dinheiro  com 
que  ella  e  sua  criada  podessem  chegar  a  outra  porta 
caritativa.  Em  seguida,  chamou  João  Pedro  ao  es- 
criptorio  de  seu  pae,  abriu  o  cofre  das  jóias,  leu-lhe 
a  declaração  do  general,  e  ajuntou  : 

—  E'  quasi  certo  que,  por  morte  do  sr.  Simão  de 
Noronha,  me  sejam  entregues  as  jóias  de  minha 
mãe.  Sobre  este  penhor,  peço  eu  a  vossemecê  que 
me  empreste  uma  moeda  para  eu  poder  ir  d'aqui  a 
uma  terra  chamada  Barrosas.  Não  tenho  outro  pe- 
nhor que  lhe  ofFerecer. 

—  Pois  eu  tenho  mais  que  uma  moeda  para  dar 
a  vossa  excellencia.  Tenho  cincoenta. 

—  Uma  me  basta. 

—  Torno  a  pedir-lhe  que  não  vá,  fidalga. 

—  Heide  ir  forçosamente. 


io8  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Faça-se  a  sua   vontade.  Irei  então  alugar  ca- 
valgaduras ;   e  entretanto   Victorina  fará  o  almoço. 

—  Aqui  tem  esta  carta:  mande  a  a  meu  pae  — 
concluiu  Angela  sahindo  com  a  face  altiva  e  enchuta. 


XV 

Meio  mllhío ! 


Ao  cabo  de  onze  léguas  de  jornada,  encontraram 
a  quinta  dos  Choupos,  residência  de  Rita  de  Bar- 
rosas, que  os  do  sitio  chamavam  a  sr.*  D.  Rita  bra- 
sileira. 

Quando  apearam,  Hermenegildo  estava  no  espa- 
çoso pateo  vigiando  os  pedreiros  que  derruiam  uma 
antiga  torre  de  architectura  manuelina  para  construir 
nos  alicerces  d'elia  uma  capoeira. 

Fialho,  habituado  a  ouvir  repetidas  descripções 
da  formosa  fidalga,  reconheceu  Angela,  apertou  o 
cóz  das  ceroulas,  abotoou  o  colete  amare  lio,  deu 
um  geito  ao  collarinho  desengravatado,  e  foi  ao 
portão  receber  a  hospeda,  mandando  chamar  a 
irmã. 

—  Faça  favor  de  desculpar  este  desarranjo,  mi- 
nha senhora...  —  disse  elle  referindo-se  ás  mouras 
verdes  acalcanhadas,  onde  os  pés  jubilavam  em  ple- 
no desafogo  dos  joanetes.  —  Vossa, . .  vossa  excel- 
lencia  é  a  sr.*  D.  Angela  amiga  cá  da  Rita  ? 


no  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Sim,  senhor. . .  Como  está  ella  ? 

—  Rija  como  um  pêro.  Ella  ahi  vem  a  quatro 
pés!...  A  mulher  é  sua  amiga  como  eu  nunca 
vi!... 

—  Também  eu  d'ella. 

Rita  abraçou  Angela  pelos  joelhos,  e  levantou-a, 
exclamando  : 

—  Pilheia  I  pilhei-a !  não  torna  a  sahir  d'aqui  a 
sr.^  D.  Angela,  senão  para  a  companhia  dos  anjos, 
que  não  são  tão  lindos ! 

E  com  estes  outros  sinceros  encarecimentos  en- 
traram nas  vastas  salas,  onde  o  brasileiro  tinha  re- 
colhido as  espigas  do  milhão  a  monte,  de  mistura 
com  as  cebolas,  e  as  nozes  e  as  castanhas. 

Passado  este  lanço  da  casa,  que  havia  sido  con- 
vento de  ordem  rica,  no  angulo  formado  pela  vasta 
quadra,  as  salas  e  quartos  estavam  decorados  com 
luxuoso  e  atrapalhado  máo  gosto. 

—  Aqui  é  a  parte  da  casa  que  pertence  á  fidalga 
e  á  nossa  Victorina  —  disse  Rita,  com  approvação 
de  Hermenegildo  manifestada  por  um  sorriso. 

—  Como  tudo  isto  é  bonito  1  —  exclamou  sincera- 
mente Angela. — Uma  princesa  ficaria  contente. . . 

—  A  nossa  princesa  é  vossa  excelleacia  —  tornou 
Rita. 

—  Princesas  que  as  leve  a  breca!  — interveio  Fia- 
lho n'um  lerdo  assomo  de  republicanismo  —  O  que 
eu  quero  em  minha  casa  são  pessoas  amigas,  que 
não  obrigam  a  tintiquetas»  nem  outras  aquellas. 

—  Se  me  recebessem  com  cerimonias — accudiu 
a  filha  do  general  —  poucas  horas  estaria  contente 
n*este  paraiso. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  iii 

—  Toca  a  saber  o  essencial — disse  o  brasileiro— 
A  senhora  jantou  ?  São  cinco  horas, 

—  Não  jantamos,  nem  temos  vontade. 

—  Hão-de  comer  do  que  houver.  Rita,  carne  as- 
sada, fiambre,  salame,  e  peixe  frito  p'ra  mesa.  O 
café  heide  ir  fazel-o  eu.  Aqui,  quem  quizer  estar  em 
minha  casa,  hade  comer  e  beber,  passear  e  dormir. 
Divertimentos  não  nos  ha,  a  não  ser  alguma  chu- 
lata  cá  dos  labrostes  da  terra.  A  gente  aqui  passa 
três  mezes  na  chácara,  e  depois  vae  em  a  cidade 
passar  oinverno,  que  eu  tenciono  lá  abrir  escriptorio 
de  consignações,  e  fazer  dois  ou  três  navios  p'ra  me 
entreter,  que  graças  a  Deus  não  preciso,  sou  sol- 
teiro, e  os  meus  parentes,  não  fallando  cá  na  Rita, 
são  os  dentes,  diz  lá  o  ditado. 

Hermenegildo  era  loquacissimo  d'este  feitio,  e  de 
certo  modo  pittoresco  na  linguagem. 

Angela  engraçava  com  aquella  rudesa  indicativa 
de  bom  peito  de  bruto.  O  sorriso  d'ella  não  era 
mordente,  nem  o  lance  d'olhos  observador.  A  no- 
vidade do  typo,  o  plebeismo  do  dizer,  a  redondesa 
da  pessoa,  a  cara  espirando  alegria  e  uma  saúde 
oleosa,  tudo  isto  que  aceraria  a  satyra  da  mulher 
d'um  alfayate  de  Lisboa,  produzia  na  fidalga  bem 
condicionada  uma  inoftensiva  hilaridade,  com  a  qual 
o  brasileiro  se  comprazia. 

Dobaram-se  dias  bonançosos  para  Angela.  Esses 
seriam,  por  ventura,  os  mais  quietos  de  sua  vida, 
se,  a  revezes,  lhe  não  innublasse  o  espirito  o  in- 
certo destino  de  Joanna  e  seu  irmão. 

Rita,  sem  ser  rogada,  mandara  lançar  inculcas 
no  Porto  sobre  descobrir  se  alli  viviam  os  dois  irmãos. 


IJ2  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Não  colhera  indicio  algum.  Apenas  soubera  que 
Francisco  José  da  Gosta  começara  a  frequentar  em 
1839  o  primeiro  anno  da  escola  medico  cirúrgica,  e 
abandonara  os  estudos  em  meio  do  anno.  Quanto 
aJoanna,  vcstigio  nenhum  levou  os  indagadores  ao 
sótão  da  Rua- Escura.  Victorina  estava  sempre  en- 
contrando com  judiciosas  reflexões  o  cuidado  que 
dava  a  sua  ama  o  destino  da  familia  do  mercieiro, 
afim  de  a  ir  desatando  de  recordações  prejudiciaes 
a  reconciliar- se  com  o  general.  N'este  louvável  de- 
signio  pedia  a  Rita,  que,  se  descobrisse  a  paragem 
de  Joanna,  se  calasse  com  o  segredo  para  affastar 
novos  dissabores,  e  a  peor  das  calamidades,  que 
seria  a  fidalga  casar  com  Francisco. 

—  Credo  !  —  exclamou  a  irmã  de  Hermenegildo, 
dois  mezes  antes  cosinheira  da  abbadessa.  —  Credo  ! 
Anjo  da  guarda !  pois  uma  fidalga  assim,  filha  d'um 
general,  e  linda  como  os  amores,  havia  de  casar 
com  um  pobretão  ? !  Não  me  diga  isso,  sr.*  Victo- 
rina !  Esta  senhora,  se  quizer  casar,  encontra  ma- 
rido que  mede  o  dinheiro  ás  rasas,  e  tem  quintas 
e  palácios,  e  quanto  cobre  a  rosa  do  sol,  e  que  se 
pôde  comprar  com  dinheiro.  Vocemecê  não  me  in- 
tende ? 

Victorina  parecia  não  intender. 

—  Pois  vossemecê  não  me  intende?!  —  tornou 
Rita  aconchegando-se  d'ella  —  Então  eu  lhe  conto 
o  que  se  passa,  e  vossemecê  vae  ficar  espantada. 
Faz  hoje  três  semanas  que  chegou  a  fidalga,  não 
faz? 

—  E'  verdade. 

—  Pois  n'este  pouco  tempo  meu   irmão  ganhou 


Os  brilhantes  do  brasileiro  jj3 

uma  tal  sympathia  á  menina  que  não  faz  outra  coi- 
sa senão  dizer-me  que  ella  é  muito  bonita,  que  é 
muito  discreta,  que  é  muito  bem  feita  de  corpo, 
que  c  isto,  que  é  aquillo,  que  é  aquel'outro.  Não  taz 
idéa,  sr.*  Victorina !  E  olhe  lá  que  eu  caia  em  lhe 
dizer  os  amores  que  ella  teve  com  o  tal  Francisco ! 
N'essa  não  cae  a  Rita. . .  Hontem  era  uma  hora  da 
noite,  e  elle  ainda  estava  no  meu  quarto  a  batalhar 
p'ra  que  eu  lhe  dissesse  se  a  fidalga  ainda  viria  a  gostar 
d'elle.  «O'  mano,  eu  sei  lá  o  que  hade  acontecer  I» 
dizia-lhe  eu,  e  elle  fez-me  uma  pena,  que  vossemecê 
não  faz  idéa,  quando  disse  muito  triste  :  «Oxalá  que 
eu  nunca  visse  esta  creatura !  Nunca  me  senti  apaixo- 
nado cá  do  interior  senão  agora  !  Estou  d'esta  eda- 
de,  e  é  a  primeira  vez  que  pegou  em  mim  o  amor 
verdadeiro !  Sinto  me  outro  homem  cá  por  dentro. 
E,  se  isto  não  muda  de  rumo,  eu  não  hei  de  ir 
longe...  Tu  verás  que  esta  paixão  dá  comigo  na 
cova».  Sabe  vossemecê?  peguei  a  esbaguar  lagri- 
mas como  punhos. . . 

Rita  alimpou  ao  avental  os  olhos  aguados,  e  pro- 
seguiu  sensibilisada : 

— «O'  meu  querido  Hermenegildo,  disse-lhe  eu, 
tem  juizo !  Tu  não  te  deixes  apaixonar  por  uma  pes- 
soa tão  nobre!  Verdade  é  que  ella  é  pobre;  mas 
tem  pae  muito  rico,  sem  outra  filha.  E  a  de  mais: 
ella  terá  vinte  annos,  se  tiver;  e  tu  já  vaes  nos  qua- 
renta e  seis,  por  que  eu  sou  mais  velha  que  tu  qua- 
tro, e  faço  os  cincoenta  pelas  cerejas.»  E  vae  elle 
levantou-se  da  cadeira,  e  sahiu  pelo  quarto  fora 
sem  dizer  palavra.  Eu  fiquei  muito  afíiicta,  e  fui-me 
ter  onde  a  elle,  e  comecei  a  dizer-lhe  que  não  per- 


114  ^5  brilhantes  do  brasileiro 

desse  a  esperança,  por  que  se  tinham  visto  casos 
mais  milagrosos.  Não  lhe  digo  nada,  sr  *  Victorina; 
estive  até  á  madrugada,  e  não  puz  olho,  por  que 
a  final  meu  irmão,  de  se  affligir,  começou  a  doer- 
Ihe  o  fígado,  e  eu  fui  arranjar-lhe  a  cataplasma  de 
linhaça.  Assim  que  o  vi  descançadinho,  fui  resar  á 
minha  Senhora  dos  Remédios,  e  fiz-lhe  uma  pro- 
messa que  não  digo,  se  ella,  das  duas  uma,  ou  var- 
resse da  cabeça  de  meu  irmão  esta  idéa,  ou  movesse 
a  fidalga  a  casar  com  elle. 

Victorina  ouviu  sem  tosquenejar  a  commovida 
mulher.  A  impressão  da  confidencia  não  lhe  era 
irrisória  nem  mesmo  de  grandes  estranhessas.  A 
criada,  tanto  ou  quanto  participante  da  luz  do  sé- 
culo XIX,  já  estava  á  altura  da  idéa  democrática  e 
nivelladora  quanto  a  nascimentos,  resalvada  a  pro- 
funda desegualdade  quanto  a  tfortunas».  Pelo  que, 
a  união  do  plebeu  ricasso  com  a  fidalga  pobre  não 
se  lhe  afigurou  absurda,  e  muito  menos  milagrosa y 
como  dizia  a  consternada  Rita,  na  sua  exposição. 
Possuida,  por  tanto,  d'estes  sentimentos  indiciati- 
vos  de  illustração  innata,  Victorina  respondeu  d'este 
modo  consolativo : 

—  Sr.*  Dona  Rita... 

—  Não  me  chame  Dona,  Eu  sou  Rita  de  Barro- 
sas, já  lh'o  disse  um  cento  de  vezes,  e  mais  á  sua 
ama.  Meu  pae  era  lamanqueiro,  torno  a  dizer-lhe. 
Se  um  vestido  de  seda  e  um  relógio  d'oiro  dá  dom 
a  quem  o  não  tem,  em  pouco  está  o  dom,  e  não  no 
quero. 

—  Pois  sim,  seja  como  quizer.  O  que  eu  lhe  digo 
é  que  seu  irmão  não  deve  descorçoar.  Minha  ama 


Os  brilhantes  do  brasileiro  Ii5 

tem-me  fallado  d'elle  com  ar  de  amisade,  e  gosta 
muito  de  ouvilo.  Quem  é  amiga  pôde  ser  o  resto. 
Deixe  estar,  sr.*  Dona  Rita. .  . 

—  E  ella  a  dar-lhe...  —  atalhou  a  outra  —  Rita, 
Rita. .. 

—  Esquecia  me. . .  Deixe  estar  que  eu  heide  son- 
dar a  minha  ama.. . 

—  Por  que  olhe  vocemecê  —  acudiu  alegremente 
a  irmã  do  brasileiro  —  eu  tenho  muito  medo  que 
meu  irmão  se  apaixone  por  alguma  d'estas  senho- 
ritas cá  de  Barrosas  que  andam  a  armar-lhe  a  re- 
diosca  com  presentinhos  de  queques  e  ramos  de 
flores.  O  doutor  das  Lamellas  já  cá  trouxe  três 
filhas  de  visita,  umas  espinifradas  com  uns  grandes 
pentes,  a  darem-me  senhoria  a  mim,  e  por  de  traz 
a  escarnecerem  de  meu  irmão.  Pois  quer  vocemecê 
saber?  O  doutor  teve  o  descôco  de  dizer  ao  meu 
Hermenegildo  que  as  suas  filhas  eram  todas  muito 
amigas  d'elle,  e  que  qualquer  d'ellas  se  daria  por 
feliz  ficando  n'esta  casa!  salvo  seja!  Eu  as  arre- 
nego! Longe  vá  o  agouro!  Meu  irmão,  que  é  finório 
alli  onde  o  vê,  respondeu  que  estava  já  velhote  para 
casar,  e  que  era  muito  doente  do  interior.  O  ho- 
mem não  tornou  cá,  nem  as  pelintronas  das  filhas, 
que  hão  de  pôr  a  cara  onde  a  sr.^  D.  Angela  põe  os 
pés  para  serem  fidalgas.  E,  como  lhe  eu  ia  contan- 
do, meu  irmão  é  muito  doente  do  fígado,  e  diz  elle 
que  não  hade  viver  muito.  Oxalá  que  se  engane; 
mas  a  mim  bacoreja  me  que  aquella  moléstia  de 
dentro  não  se  cura.  Se  elle  morrer,  eu  já  sei  que 
a  mim  me  deixará  alguma  coisa  para  a  minha  de- 
cência: mas  a  riquesa  quasi  toda  vae  para  o  Atha- 


Ii6  Os  brilhantes  do  brasileiro 

nasio  do  Porto,  que  foi  sócio  d'elle,  e  são  muito 
amigos.  Ora  diga-me  vocemecê:  Não  era  melhor 
que  esta  riquesa  ficasse  á  sr.*  D.  Angelasinha?  Fa- 
zia-lhe  mal  ficar  com  este  palácio,  com  esta  quinta, 
e  com  o  dinheirão  que  o  meu  Hermenegildo  tem 
nos  bancos,  que  pelos  modos  me  disse  o  tal  Atha- 
nasio  que  era  metade  d'um  milhão!  Metade  d'um 
milhão,  ó  sr.^  Victorina!  Vocemecê  já  viu  riqueza 
assim  ? 

—  Com  effeito!  —  disse  a  interlocutora  com  sin- 
cero assombro  —  Metade  d'um  milhão!  A  fidalga, 
ainda  que  ficasse  herdeira  do  pae,  não  tinha  tanto, 
acho  eu! 

—  Nem  sombras  d'isso!  meio  milhão  acho  que 
n'este  mundo  só  o  tem  as  pessoas  reaes.  Quer  vo- 
cemecê saber  outra  ?  Já  desde  que  meu  mano  che- 
gou, duas  vezes  os  governos  do  Porto  lhe  escreve- 
ram para  elle  ser  barão.  Vocemecê  bem  sabe  que 
barão  é  isto  de  ser  grande  e  maioral  do  reino,  e 
fica-se  logo  fidalgo.  Pois  saberá  que  o  meu  irmão 
não  quiz  até  agora,  por  que  lhe  pediam  cinco  con- 
tos pela  fidalgaria,  e  elle  ofFereceu  metade.  Esta- 
mos a  vêr  se  arranjará  o  negocio;  mas,  ponto  é 
querer  a  fidalga  que  elle  seja  barão,  que  isso  manda 
elle  logo  aos  governos  do  Porto  pagar  os  cinco 
contos.  Conte-lhe  vocemecê  tudo  isto  lá  como  coisa 
sua.  E  olhe  que,  se  o  casamento  se  chega  a  fazer, 
vocemecê  também  hade  apanhar  uma  boa  pechin- 
cha. Eu  cá  de  mim  dou-lhe  um  cordão  de  vinte 
moedas,  e  meu  irmão  é  capaz  de  lhe  comprar  uma 
casa  pVá  sua  velhice. 

—  Velha  estou  eu,  sr.*  Ritinha — atalhou  Victori- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  iiy 

na — e,  se  Deus  quizer,  heide  morrer  na  casa  onde 
viver  a  minha  ama. 

—  Pois  isto  é  um  modo  de  fallar;  que  vocemecê 
hade  ficar  sempre  comnosco  em  quanto  for  viva. 

Pouco  depois,  Angela  escutava  a  exposição  de 
Rita  fielmente  reproduzida  pela  criada,  tirante  as 
ridiculezas  que  a  sagaz  Victorina  omittiu  como  des- 
convenientes  á  gravidade  do  assumpto. 

Não  obstante  a  compostura  da  velha,  Angela  sor- 
ria-se  e  duas  vezes  abafou  os  froixos  da  gargalha- 
da. Finda  a  relação,  a  filha  de  D.  Maria  d' Antas 
reconcentrou-se,  apanhou  as  fontes  nas  mimosas 
mãos  e  murmurou: 

—  Qual  virá  a  ser  o  meu  destino  ? 

Esta  pergunta  era  o  epilogo  de  mil  confusas  idéas 
que  se  lhe  embaralhavam  na  alma,  umas  sublimes, 
outras  baixas  até  ao  vilissimo  lodo  que  originaria- 
mente foi  costella  do  homem.  Com  a  qual  costella 
bem  podem  dar-nos  na  cara  as  malfadadas  a  quem 
frechamos  de  satyras,  quando  uns  fumos  iriados  do 
prestigio,  que  lhes  doira  a  nossa  poesia,  se  rarefa- 
zem. 

—  Qual  virá  a  ser  o  meu  destino  ? 
Que  interrogação ! 

E'  a  mulher  sem  parentes  que  a  faz. 
E'  a  mulher  que  conheceu  a  pobresa. 
E  o  desamparo. 
E  o  despreso  dos  seus. 

E  as  injurias  calumniosas,  sem  que  Deus  ou  a  so- 
ciedade a  vingassem  e  a  illibassem. 

E'  a  mulher  que  não  vê  aurora  de  melhor  dia  \ 


Ii8  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Que  um  mez  antes  quasi  esmolara  o  custo  da 
passagem  d'um  albergue  de  caridade  para  outro  ; 

Que  se  despenhara  das  canduras  d*um  primeiro 
amor  á  mais  rasa,  á  mais  estranha  e  imprevista  mi- 
séria. 

—  Qual  virá  a  ser  o  meu  destino  ? 

Ha  n'este  interrogar-se  uma  abdicação,  um  alie- 
nar direitos  de  dispor  do  que  quer  que  seja  aspira- 
ções a  felicidade. 

Por  que  é  tudo  escuridade  e  amargara  em  sua 
alma.  Amargura,  se  se  recorda  \  escuridade,  se  olha 
adiante. 

A  riquesa,  que  se  lhe  ofiferece,  não  é  a  que  ella 
desejava.  O  meio  milhão  d'este  homem  não  servirá 
a  resgatar  da  pobresa  a  familia  do  homem  assassi- 
nado por  sua  tia.  Más  Victorina. . . 

(O'  costella  do  homem !  ó  oiro  que  a  baba  da  ser- 
pente converteu  em  lamal. . .) 

Mas  Victorina  repisará  n^aquellas  palavras  de  Ri- 
ta :  Ora  diga-me  vocemecê :  Não  era  melhor  que  esta 
riquesa  ficasse  d  sr."  D.  Angelasinha  ? 

E  Angela  de  Noronha,  interrogando  o  silencio  da 
sua  alma,  poz  os  olhos  lagrimosos  em  Victorina  e 
disse : 

—  Se  tu  pedisses  a  Deus  que  me  levasse  doeste 
mundo!. . . 

—  Porque,  minha  senhora  ?  porque  quer  morrer  ? 

—  Porque  me  julgam  tão  sem  amparo  que  já  me 
aconselham  o  casar-me  com  este  homem ...  E,  na 
verdade,  eu  sei  que  sou  muito,  muito  infeliz !  Não 
tenho  nada,  não  sei  trabalhar,  não  tenho  outras  ami- 
gas, senão   tu,   e  esta  mulher  a  quem  devo  benefi- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  iig 

cios  que  me  collocaram  inferior  a  ella. . .  Quem  sou 
eu,  afinal  ?  Uma  grande  senhora  que  não  pôde  guar- 
dar a  independência  de  sua  alma,  á  custa  dos  mais 
rudes  trabalhos. . .  Até  hoje,  a  minha  puresa  foi  tão 
somente  manchada  pela  calumnia  de  minhas  tias; 
mas  amanhã  em  que  posição  me  collocará  a  Provi- 
dencia ?  Toda  a  gente  terá  direito  de  me  considerar 
ou  perdida,  ou  no  trance  de  me  perder. ..  E,  de- 
pois, Victorina  ?  Quando  sahirmos  d'aqui,  onde  ire- 
mos ?  Se,  ao  menos,  meu  pae  me  mandasse  entre- 
gar já  as  jóias  de  minha  mãe...  ainda  teríamos 
com  que  viver,  e  eu  iria  trabalhando  nos  borda- 
dos . . . 

—  Os  bordados. . .  — murmurou  Victorina. 

—  Sim. . . 

—  Os  bordados,  minha  senhora... — tornou  a 
criada  sorrindo  amargamente  —  Vossa  excellencia 
sabe  quanto  eu  recebia  de  cada  bordado  em  que  a 
menina  gastava  as  horas  todas  do  dia  e  algumas  da 
noite  ?  Era  conforme  Uns  regulavam  a  tostão  por 
dia  e  noite.  Outros  a  seis  vinténs.  E  mais  diziam 
que  era  por  favor,  por  que  tinham  melhor  e  mais 
barato. . . 

Saltaram-lhe  as  lagrimas  dos  olhos. 

—  O'  minha  mãe,  se  tu  me  visses  chorar!. . .  — 
exclamou  a  filha  do  general  inclinando  a  face  para 
o  seio  arquejante. 


XVI 


Por  causa  do  flgado 


Escreveu  Angela  a  João  Pedro  perguntando-lhe 
se  o  pae  respondera.  Teve  resposta  negativa.  Que 
o  fidalgo  tivesse  peorado  suppunha  o  escudeiro  por 
ter  lido  n'uma  gazeta  de  Lisboa  que  o  bravo  gene- 
ral Noronha  estava  em  Paris  sofírendo,  além  de 
antigos  achaques,  os  graves  incommodos  de  uma 
ophtalmia,  que  o  ameaçava  de  cegueira. 

Não  era  já  a  herança  que  a  alvoroçava.  Gonten 
tal-a-hia  a  entrega  das  jóias,  como  um  soccorro  im- 
mediato,  para  poder,  agradecida  a  hospitalidade  do 
brasileiro,   procurar   sua  vida  n'outras  condições. 
Mas  até  esta  esperança  se  fechara  á  pobre  senhora  ! 

Na  correntesa  d'estes  successos,  aconteceu  adoe- 
cer de  hepatite  Hermenegildo  Fialho.  Bem  pôde  ser 
que  o  amor  contribuísse  a  sobreexcitar  a  inflamma- 
ção  chronica  do  fígado,  entranha  que  se  ressente 
das  perturbações  moraes  por  esquisita  sympathia. 
Alguma  rasão,  pois,  tinha  a  mortificada  sr.*  Rita 


Os  brilhantes  do  brasileiro  121 

para  attribuir  a  doença  do  irmão  a  pura  paixão 
d'alma. 

A  enfermidade  aggravou  se.  Vieram  as  intermit- 
tentes,  a  intumecencia  da  viscera,  o  fastio  e  a  rápi- 
da magresa,  os  suores  nocturnos  e  o  delirio,  emfim 
o  estado  em  que  a  medicina  capitula  assustadora- 
m*ente  a  doença. 

Nos  delirios,  o  brasileiro  rosnava  o  nome  de  An- 
gela, caso  que  fazia  sempre  repuchar  chafarizes  de 
lagrimas  dos  olhos  da  irmã,  ao  passo  que  o  rosto 
de  Angela  se  entristecia  compassivamente. 

Uma  vez  que  o  doente  desagradou  notavelmente 
ao  medico,  Rita  lançou-se  de  joelhos  aos  pés  da  hos- 
peda, e  clamou: 

—  Meu  anjinho,  faça  um  voto  a  Nossa  Senhora 
dos  Remédios  que  hade  casar  com  meu  irmão,  se 
elle  melhorar !  Faça,  pelas  chagas  de  Ghristo,  e  por 
alma  de  sua  mãesinhal 

—  Levante-se,  sr.*  Rita  t — disse  Angela,  incli- 
nando-se  para  erguel-a  nos  braços. 

—  Não  me  levanto,  sem  vossa  excellencia  pro- 
metter  a  Nossa  Senhora  que  hade  casar  com  o  meu 
pobre  Hermenegildo  que  morre  de  paixão  pela  se- 
nhora. 

—  Jesus !  —  balbuciou  a  attribulada  menina. 

—  Então  ?  —  instou  a  supplicante  velha  —  Então, 
minha  senhora  ! . . . 

—  Pois  a  sr.*  Rita  cuida  que  a  minha  promessa 
salva  seu  irmão?!  —  argumentou  Angela. 

—  Cuido,  cuido,  por  que  Nossa  Senhora  hade  ou- 
vir a  promessa  d'um  anjo  1 

—  Pois...   sim  —  gaguejou  a  violentada  senhora. 


122  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Casa  com  elle?  —  acudiu  Rita,  radiosa  de  es- 
perança. 

—  Sim. . .  caso. . . 

Levantou-se  Rita  com  exultaçao  de  mentecapta, 
entrou  no  quarto  do  enfermo,  e  chamou-o  tão  es- 
trondosa e  vertiginosamente  que  o  homem  abriu  os 
olhos,  as  ventas,  e  a  bocca,  tudo  a  um  tempo  e  me- 
donhamente. 

—  Olha  que  a  sr.*  D.  Angela  fez  a  Nossa  Senho- 
ra dos  Remédios  a  promessa  de  casar  comtigo,  se 
tu  melhorasses. 

—  Hum,,.  —  fez  Hermenegildo,  e  quedou-se  es- 
tático a  olhar  para  a  jubilosa  cara  de  Rita,  e  ella  a 
repetir-lhe  até  quarta  vez  a  noticia. 

E,  ao  mesmo  tempo,  Angela  soluçava  e  estale- 
java  com  os  dentes  vibrados  por  um  frio  nervoso. 
E  Victorina  a  fim  de  consolal-a  e  tirar-lhe  a  carga 
da  promessa,  dizia-lhe : 

—  Não  se  afflija,  menina,  que  o  homem  não  es- 
capa !  Quando  vossa  excellcncia  casar  com  elle,  dou 
licença  que  me  enforquem. 

Voltou  o  medico  segunda  vez  n'aquelle  dia,  e 
achou  o  homem  menos  febril,  e  a  lingua  mais  hú- 
mida. No  seguinte,  a  febre  foi  menor;  e  o  suor  da 
noite  quasi  insensível.  Ao  outro  dia,  como  o  doente 
já  desemperrasse  a  lingua  para  dizer  que  a  dor  o 
deixava  respirar  livremente,  o  medico,  voltado  para 
Rita  e  Angela,  declarou,  com  vaidade  de  ter  res- 
taurado um  moribundo,  que  o  doente  estava  livre 
de  perigo,  e  ia  entrar  em  convalescença. 

E,  dentro  em  pouco,  entrou  a  bolear-se,  a  arre- 
dondar-se,  a  pelle  a  encher,  as  orelhas  a  enconchar- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  ia3 

se  com  um  escarlate  de  coralinas,  o  nariz  a  vestir- 
se  de  tegumentos,  o  todo  emíim  do  carão  a  luzir  e 
a  estilar  sorosidades  de  sangue  novo  que  parecia 
uma  espumadeira  de  tomates. 

E  Angela  via  tudo  aquillo  com  o  falso  contenta- 
mento das  viuvas  do  Malabar  que  assistem  á  dispo- 
sição das  achas  para  a  fogueira  que  hade  assal-as. 

Hermenegildo  esperava  que  a  sua  hospeda  lhe 
desse  azo  a  fallar-se  em  casamento ;  ella,  porém, 
esquivava  os  lanços  preparados  pouco  engenhosa- 
mente pela  irmã  do  noivo. 

Era  fatal  e  indeclinável  o  cálix  í 

Uma  vez,  o  brasileiro,  esporeado  pela  mana,  af- 
foitou-se  a  perguntar  a  D.  Angela  se  queria  ser  sua 
esposa. 

—  Sim,  senhor  —  balbuciou  ella,  rápida  e  laconi- 
camente,  como  o  suicida  que  fecha  os  olhos,  e  se 
despenha,  antes  que  a  reflexão  lhe  pinte  os  horro- 
res da  queda. 

Hermenegildo  emparveceu  mais  que  o  commum 
nos  sujeitos  da  sua  natureza.  O  sorriso  que  lhe  en- 
treabriu as  queixadas  parecia  escancarar  os  alça- 
pões d*aquelle  peito  carecido  de  ar,  como  se  o  ju- 
bilo o  afogasse. 

A  careta  era  feia ;  mas  amorosíssima.  Havia  alli 
mescla  de  satyro  cupidinoso  e  de  amante  soez.  An- 
gela não  viu  a  fachada  do  coração  que  senhoreava. 
Se  n'aquelle  instante  o  encarasse,  bem  pôde  ser  que 
a  Senhora  dos  Remédios  fosse  lograda. 

Dado  o  dilacerante  sim,  a  ideal  amante  de  Fran- 
cisco Costa,  a  maviosa  scismadora  das  Esperanças^ 
entrou  no  seu  quarto,  e  não  pôde  chorar.  Sentia  um 


124  ^s  brilhantes  do  brasileiro 

peso  de  estupidez,  uma  sensação  na  cabeça,  como 
um  capacete  de  lama,  permitta-se  a  figura. 

Victorina  foi  eminentíssima  em  insartar  argumen 
tos  sobre  argumentos  convincentes  de  que  Angela 
havia  de  ser  feliz,  embora  não  amasse  o  marido,  e 
simplesmente  o  estimasse  como  homem  que  a  le- 
vantava com  sua  riquesa  á  independência,  á  consi- 
deração publica,  e  ao  futuro  goso  de  se  ver  viuva; 
«por  que  elle,  dizia  a  criada,  d'outro  ataque  vae-se 
embora». 

Numa  tragedia  d'esta  ordem,  como  se  vê,  o  có- 
mico está  sempre  negaceando  á  gente  por  detraz 
d'aquelle  Fialho,  o  qual,  apesar  dos  chacoteadores, 
tinha  ares  de  bom  homem,  e  talvez  desse  de  si  um 
marido  regular,  se  se  ajoujasse  a  uma  fêmea  da  sua 
espécie. 

Por  cortar  demoras,  não  nos  deteremos  a  des- 
crever a  bulha  que  a  felicidade  de  Rita  e  do  irmão 
fazia  na  casa.  Fialho  sahiu  logo  para  o  Porto  a  pro- 
ver-se  dos  aprestos  para  o  noivado,  e  então  com- 
prou os  6:5ooíCí)Ooo  réis  de  brilhantes,  como  consta 
do  primeiro  capitulo  d'esta  chronica  social,  e  cortes 
de  seda,  e  peças  de  veludo,  e  quanto  lhe  depara- 
ram as  casas  francezas,  e  modistas  escripturadas 
que  levou  comsigo  para  a  quinta. 

No  meio  doesta  azáfama,  Angela  estava  como  in- 
sensível, e  na  cama,  onde  uma  febre  lenta  a  pros- 
trara. 

Victorina,  exagerando  o  susto,  já  era  de  parecer 
►que  se  desligasse  a  ama  da  sua  palavra,  e  não  ca- 
sasse. 

—  Que  me  importa  a  mim?!  —  dizia  Angela  — 


Os  brilhantes  do  brasileiro  J25 

D'um  ou  d'outro  modo  heide  acabar  breve.  O  co- 
ração já  não  o  sinto.  Não  tenho  saudades  de  nada. 
Morro,  sem  faltar  á  minha  palavra.  Se  Deus  me  não 
der  melhor  vida  depois,  é  que  não  ha  céo. 

Angela  enganou-se.  Ao  fim  de  quinze  dias  estava 
cansada  de  pensar  na  sua  desgraça,  e  indiíFerente, 
senão  identificada.  Estas  refundições  são  vulgaris- 
simas.  E'  minha  opinião  que  as  lagrimas  deslaçam 
e  rompem  os  liames  de  certas  crenças  e  esperan- 
ças ;  porém,  como  á  vida  se  fazem  mister  outros, 
opera-se  uma  renovação  de  vinculos  que  nos  atam 
a  outras  preoccupações.  Nas  Índoles  feminis  são 
por  via  de  regra  taes  renovações  mais  têmporas, 
em  rasão  de  operarem  n'ellas  as  lagrimas  em  maior 
copia.  E,  se  me  não  engano,  ha  ahi  coração  de  se- 
nhora que  pôde  frutificar  colheitas  variadas  cada 
anno,  duas,  três  e  mais,  consoante  a  rega  de  lagri- 
mas. E  uma  aleivosia  que  o  mundo  ignaro  lhes  as- 
saca de  versatilidade  não  é  mais  que  illusões  que 
se  afogam  e  renovos  que  desabrocham  assim  que 
as  lagrimas  se  estancam. 

Postas  estas  coisas  como  explicação  de  outras 
relativas  á  filha  do  general  Noronha,  cumpre  saber 
que  no  dia  4  de  novembro  de  1841,  pelas  9  horas 
da  manhã,  contrahiram  o  sacramento  do  matrimo- 
nio D.  Angela  de  Noronha  Barbosa  com  Hermene- 
gildo Fialho. 

Entre  as  testemunhas  d'este  consorcio,  invejado 
das  damas  e  cavalheiros  do  concelho,  estava  aquelle 
João  Pedro,  mordomo  do  general. 

E*  que  elle  tinha  chegado  na  véspera  a  entregar 
a  D.  Angela  o  cofre  das  jóias  de  D.  Maria  d' Antas, 


120  Os  brilhantes  do  brasileiro 

e  a  mostrar  uma  carta,  escripta  desde  Paris,  em 
que  o  general  dizia:  uSe  souberes  onde  pára  a  se- 
(ífthora  que  pernoitou  n^essa  casa,  entrega-lhe  um  ca- 
€  cifro  de  objectos  de  oiro  e  pedras  que  está  no  meu 
t  quarto,  e  cobra  recibo, ^ 

João  Pedro,  informado  da  riquesa  do  noivo,  an- 
tes de  o  vêr,  felicitou  a  filha  de  seu  patrão;  mas, 
depois  que  o  viu,  coçou  as  farripas  da  calva,  e  dis- 
se á  puridade,  a  Victorina: 

—  Oh  !  com  dez  milheiros  de  diabos ! . . . 

—  Então  que  é?  —  perguntou  a  criada. 

—  E'  que,  se  a  fidalga  não  fôr  santa,  aquelle  ho- 
mem hade  ser. . . 

E  callou-se,  porque  adivinhou  que  eu  tinha  de 
contar  fidelissimamente  estas  passagens. 


XVII 


Historia  dos  brilhantes 


Em  janeiro  de  1842,  Hermenegildo  Fialho  passou 
a  residir  no  Porto  em  casa  sua,  mobilada  pompo- 
samente, na  rua  do  Bispo. 

Diga-se  desde  já,  para  anteparar  estranhesas  fu~ 
turas,  que  o  brasileiro  andava  scismatico  e  a  modo 
de  melancólico. 

Não  se  descosia  com  ninguém,  porque  a  irmã, 
sua  confidente,  ficara  a  governar  a  quinta  dos  Chou- 
pos. E*,  todavia,  fácil  entrar  nas  cavernas  d'aquelle 
peito,  sem  embargo  do  enxundioso  arnez. 

Fialho  conjectura  que  Angela  o  aborrece.  Nem 
um  sorriso,  nem  uma  caricia,  nem  uma  palavra  que 
não  seja  resposta  concisa  e  sêcca.  Elle  não  ousa  ar- 
guil-a;  mas,  se  mansamente  se  queixa,  Angela  res- 
ponde com  um  franzir  de  testa  e  um  silencio  té- 
trico. 

Principia  o  arrependimento  a  desbastar-lhe  as 
opulências  musculares,  e  o  figado  a  dar  rebates  de 


128  Os  brilhantes  do  brasileiro 

desordem  intestinal.  Recorre  aos  emolientes;  mas 
a  esposa,  como  elle  revelou  ao  compadre  Athana- 
sio,  manda-lhe  cingir  as  papas  por  um  gallego. 

Angela  faz  isto  innocentemente.  E,  talvez,  que^ 
matrimoniada  com  um  archanjo,  não  pozesse  mãos 
em  linhaça,  se  os  archanjos  podessem  soffrer  do  fí- 
gado. 

Debaixo  das  telhas  do  próximo  passam  agonias 
ridículas  que  não  viu  o  dom  Cleófas  de  Le  Sage. 

Victorina  está  sempre  a  procurar  na  cara  do  amo 
signaes  de  morte.  Se  o  vê  mais  amarello,  ou  mais 
vermelho,  com  o  nariz  menos  succoso,  e  os  olhos 
mais  incovados,  diz  logo  a  Angela :  « O  homem  não 
tarda!»  A  phrase  era  illipticamente  económica;  o 
não  tardar  era  ir  depressa  para  a  sepultura. 

Resolvido  a  viver  e  distrahir-se,  Fialho  abriu  es- 
criptorio  na  Reboleira  e  comprou  navios.  E  distra- 
hia-se.  A  bailes  e  theatros  não  ia,  nem  Angela  os 
desejava.  Gomo  é  já  notório,  em  substituição  á  mis- 
sa, comprou  oratório  para  uso  da  esposa.  Herme- 
negildo, em  matéria  de  religião,  era  bestial. 

Decorreram  seis  mezes.  Angela  foi  mudando  sa- 
lutarmente  para  ambos.  Estava  afTeita.  Conversava 
com  melhor  sombra ;  mas  acariciava  um  gato  para 
sentir  o  praser  nativo  de  suas  aveludadas  mãos.  Her- 
menegildo olhava  para  o  lombo  lusidio  do  bicho,  e 
espumava  umas  cóleras  que  engolia  azedas  como 
vomito  de  digestão  derrancada. 

Na  primavera  d'este  anno,  o  brasileiro  foi  á  terra, 
e  só,  para  queixar-se  á  irmã  n'estes  termos: 

—  Ella  não  me  tem  casta  de  amor  nenhum.  Pas- 
sam-se  dias  que  não  dá  palavra,  e  noites  que  ador- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i2g 

mece  a  resar  e  lá  fica.  Este  casamento  foi  o  diabo  í 
Cabeçada  assim  nunca  a  deu  homem  de  juizo !  E' 
bonita,  mas  de  que  serve?  E'  como  quem  tem  um 
painel  em  casa.  Se  é  fidalga,  isso  cá  a  mim  que  me 
faz?  Fidalga  é  a  burra.  Emfim,  desde  que  me  des- 
enganei que  não  ha  volta  a  dar-lhe,  lancei  cá  os 
meus  cálculos,  e  já  sei  o  que  heide  fazer.. .  Nada 
de  me  apaixonar.  Mulheres  que  me  queiram  não 
faltam.  Eu  me  arranjarei  como  fazem  todos. 

A  irmã  deu-lhe  bons  conselhos,  e  recommendou- 
Ihe  paciência  e  juizo. 

—  Lembra-te,  dizia  ella,  que  a  pobre  menina  fez 
uma  promessa  para  te  salvar  da  morte,  e  casou 
comtigo  sem  amor. 

—  Então  não  casasse. 

—  Eu  disse-t'o,  e  tu  disseste  que  o  amor  vinha 
depois.  Então  espera  que  elle  venha,  meu  filho. 

—  A'gora  vem !  olha  que  ella  está-se  a  fazer  velha ; 
e  de  aborrecida  já  nem  parece  a  mesma.  Está  mais 
amagraJa,  e  branca  como  a  cal  da  parede. 

—  Coitadinha ! — atalhou  Rita  condoída. 

—  Coitadinho  de  mim ! 

—  Mas  tu  estás  bem  gordo,  Hermenegildo  I 

— Bem  haja  eu!  podéra  não !  Vou  fazendo  pela  vida. 

—  Mas  não  a  mortifiques,  que  ella  é  um  anjo. 

—  Não  me  cantes  lerias,  Rita!  Aquella  mulher 
tem  lá  no  interior  outra  paixão  antiga.  E  queira 
Deus  ou  o  diabo  que  ella  me  não  pregue  alguma, 
que  eu  não  sou  para  graças.  A'  primeira  que  me 
fizer,  ponho-me  ao  largo. 

—  Jesus!  tu  estás  ahi  a  asnear,  homem  de  Deus! 
pois  uma  senhora  tão  boa,  tão  resadeira... 

9 


i3o  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Ora  contos,  minha  amiga;  as  que  resam  muito 
lá  sabem  por  que  o  fazem.  Se  ellas  não  teem  pec- 
cados,  p'ra  que  resam  ?  Responde  lá,  se  és  capaz ! 

—  Tu  és  hereje,  Hermenegildo! 

—  Qual  hereje!  sou  phelosephoy  é  o  que  eu  sou. 
E  era. 

Em  quanto  elle  philosophava  em  linguagem  cor- 
rentia — mérito  de  que  não  se  gabam  muitos  de  seus 
confrades — lances  extraordinários  passavam  na  vida 
de  Angela. 

Estava  ella  á  janella,  em  um  domingo  de  manhã, 
quando  viu  subir  da  Praça  Nova  uma  mulher  de 
mantilha,  que  a  fez  estremecer  vista  de  longe.  Des- 
ceu de  corrida  ao  primeiro  andar  e  abriu  a  janella 
a  tempo  que  a  mulher  passava  defronte.  Duvidou, 
acreditou,  hesitou,  e  emfim  disse  em  voz  alta  á 
criada  que  a  seguira  assustada: 

—  Será  Joanna?! 

A  mulher,  que  passava,  voltou  o  rosto  rapida- 
mente, deu  d'olhos  em  Angela  e  estacou. 

—  E'  ella,  é  ella!' — confirmou  Victorina. 

—  Suba,  sr.*  Joanna! — disse  a  senhora  agitada- 
mente, correndo  a  recebel-a  no  paieo. 

—  O'  minha  senhora!  —  exclamou  Joanna  —  O* 
meu  Deus!  pois  eu  encontro  aqui  a  sr.*  D.  Angela  í 
ainda  torno  a  ver  esta  senhora ! 

Abraçaram-se  enternecidas  e  subiram  sem  se  de- 
senlaçarem. 

—  Gomo  ella  está  acabada  I—disse  Victorina  ben- 
zendo-se. 

—  Estou  muito  velha  e  muito  doente. . .  e  vossa 
excellencia  ainda  tão  formosa,  mas  mais  descoradi- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  jSi 

nha ! . » .  Eu  vim  de  Vianna  ha  três  mezes,  pergun- 
tei por  vossa  excellencia,  e  ninguém  me  soube  di- 
zer onde  parava.  E  estava  aqui!  e  eu  sem  o  sa- 
ber ! . . . 

—  Então  tem  tido  muitas  amarguras  na  sua  vida  ? 
— perguntou  Angela  com  os  olhos  afogados  em  la- 
grimas muito  fitos  n'ella. 

—  Oh !  se  tenho,  minha  senhora  I  Ha  perto  de 
quatro  annos  a  vivermos  d'um  trabalho  pouco  ren- 
doso. . . 

—  A  viverem. . . — atalhou  Angela — então  seu  ir- 
mão. . . 

—  Meu  irmão  está  comigo,  minha  senhora.  Nun- 
ca nos  desamparamos  um  ao  outro,  e  Deus  tem 
sido  misericordioso  comnosco  deixando-nos  viver 
juntos... 

—  Aquella  morte  de  seu  marido...  —  balbuciou 
a  sobrinha  de  D.  Beatriz. 

—  Não  me  falle  n'isso,  minha  senhora,  que  ainda 
se  me  parte  o  coração,  quando  me  lembro  de  o  ver 
cheio  de  vida  e  luctando  com  a  desgraça  para  po- 
der pagar  á  sr.*  D.  Beatriz,  sem  vender  a  casa ;  e, 
em  poucos  dias,-  matou-o  a  paixão  de  se  ver  des- 
honrado  e . . . 

—  Sei  tudo,  sei  tudo... — murmurou  Angela  aper- 
tando-lhe  as  mãos  —  Perdoe  me,  sim? — continuou 
ella  com  a  voz  tremente  —  Perdoe  a  quem  foi  a 
causa  de  morrer  seu  marido. . . 

—  A  causa,  minha  senhora,  não  foi  vossa  excel- 
lencia; foi  a  má  estrella  que  nos  perseguia.  Nin- 
guém podia  prever  o  que  aconteceu.  Tão  culpada 
foi  a  senhora,  como  eu,  como  o  meu  pobre  Fran- 


j32  Os  brilhantes  do  brasileiro 

cisco.  Por  causa  d'elle  também  vossa  excellcncia 
padeceu  muito,  segundo  lá  ouvi  dizer  em  Vianna  a 
uma  criada  que  foi  do  convento.  Affirmaram-me 
que  vossa  excellencia  chegara  a  sentir  a  precisão 
de  trabalhar. . .  Quem  diria!. . . 

—  E  que  tem  isso?  Peor  seria  se  o  meu  trabalho 
me  não  chegasse  para  o  pão  de  cada  dia. . . — refle- 
ctiu Angela. 

—  Quando  contei  isto  a  meu  irmão,  parecia  que 
a  luz  dos  olhos  se  lhe  apagava  nas  lagrimas. . . 

As  duas  senhoras  referiram  mutuamente  a  sua 
historia,   desde  o  momento  em  que  se  apartaram. 

A  leitora  sensivel  antes  quer  ignorar  misérias  que 
alli  se  revelaram  as  duas  amigas ;  que  farte  triste- 
sas  são  já  sabidão  pela  piedade  e  sympathia. 

Tinham  decorrido  três  horas  de  pratica  entre  sor- 
risos e  lagrimas,  quando  Joanna  se  levantou  e  disse  : 

—  Oeixe-me  vossa  excellencia  ir  fazer  o  jantar  de 
meu  irmão. 

—  Espere . . .  — atalhou  Angela,  e  foi  ao  seu  quarto. 
Parou  á  entrada,  e  exclamou,  como  se  houvesse 

medo  de  entrar : 

—  Ah! 

E,  chamando  Victorina,  perguntou  com  afflicção : 

—  As  jóias  de  minha  mãe  ficaram  na  quinta,  não 
ficaram  ? 

—  Sim,  minha  senhora.  Vossa  excellencia  disse- 
me  que  as  fechasse  na  commoda,  por  que  eram  coi- 
sas antigas  que  já  se  não  usavam ;  até  seu  marido, 
n*essa  occasião,  lembrou  que  o  melhor  era  trocal-as 
por  enfeites  modernos. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i33 

—  E'  verdade  f . . .  —  recordou  Angela  com  muita 
amargura  —  Gomo  hade  ser  isto  ?  Eu  queria  dal-as 
a  Joanna. 

—  Dal-as?...  e  se  seu  marido  perguntasse  por 
ellas  ? 

—  Respondia  que  as  dei. 

O  tom  severo  d'esta  resposta  forçou  a  criada  a 
silencio. 

Angela  voltou  á  sala,  apertou  entre  as  suas  as 
mãos  da  viuva,  e  disse-lhe  com  vehemente  solem- 
nidade : 

—  A  minha  amiga  vae  jurar  pela  memoria  de  seu 
marido  que  não  dirá  a  seu  irmão  que  me  viu. 

—  Juro,  minha  senhora. 

—  E  não  lh'o  dirá  por  que  o  vermo-nos  compli- 
caria o  infortúnio  de  ambos. 

—  Não  era  preciso  lembrar-m'o  vosso  excellencia. 

—  E  promette-me  aqui  vir  amanhã  á  mesma  hora  ? 

—  Sim,  minha  senhora. 

—  Então  vá,  e  creia  que  tem  aqui  ao  pé  da  mi- 
nha alma  de  irmã  a  alma  de  seu  marido.  Eu  heide 
melhorar  a  sua  sorte,  se  a  senhora  nunca  esquecer 
o  seu  juramento. 

—  Não  esquecerei,  sr.*  D.  Angela. 

Sahiu  Joanna ;  e  a  esposa  do  brasileiro  abriu  um 
estojo  de  velludo,  que  continha  o  adresse  que  o 
marido  lhe  dera.  Examinou  as  peças,  procurando 
uma,  cujas  pedras  se  desencravassem  com  menos 
custo.  Escolheu  a  pulseira,  e  d'ella  com  os  bicos  de 
thesoura  extrahiu  um  brilhante.  Chamou  Victorina, 
e  disse-lhe : 

—  Vae  vender  esta  pedra  a  um  ourives. 


i34  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Vender?!...  — objectou  com  espanto  a  criada. 

—  Sim,  vender. 

—  Teremos  novas  desgraças,  minha  senhora? 

—  Não.  Temos  desgraças  antigas  a  remediar.  Faz 
ó  que  te  mando,  Victorina,  senão,  vou  eu. 

A  criada  sentiu-se  impellida  por  irresistível  força. 
Angela,  quando  mandava  com  império,  fazia  lem 
brar  á  velha  a  soberba  e  inflexivel  Maria  d' Antas. 

Sahiu  Victorina,  examinando,  na  rua  das  Flores, 
as  ourivesarias  mais  abastecidas.  Entrou  na  loja  dos 
srs.  Mourões,  e  vendeu  o  brilhante  por  25oc5f)ooo 
réis. 

Voltou  a  tremer,  medindo  a  gravidade  do  delicto 
pela  abundância  de  oiro  e  prata  que  lhe  pesava  de 
certo  modo  na  consciência.  Entregou  o  dinheiro  a 
sua  ama,  e  abalançou-se  a  fazer  considerações  timo- 
ratas sobre  o  alcance  de  tal  passo. 

D.  Angela  rebateu  os  sustos  de  Victorina  com  o 
seu  ar  de  infinita  alegria  —  raio  de  luz  que  muitos 
annos  havia  não  tinha  tocado  os  luctos  d*aquella 
alma. 

—  As  minhas  jóias  já  elle  me  disse  que  valeriam 
quatro  ou  cinco  contos  —  ajuntou  Angela  para  aliviar 
dos  escrúpulos  a  menticulosa  criada  —  Quando  elle 
(elle  era  o  marido)  desse  fé  que  eu  dispozera  d'estes 
brilhantes,  lá  tem  os  de  minha  mãe  para  se  resarcir. 

—  Mas  o  peior  é  se  elle  pergunta  a  quem  vossa 
excellencia  deu  o  dinheiro...  — contraviou  a  sisuda 
velha. 

—  Se  pergunta,  responderei  «dei-o».  Verás  que 
sou  pontual  no  que  prometto,  se  chegar  essa  occa- 
sião. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i35 

—  Deus  nos  accuda  por  sua  sagrada  paixão  e 
morte  ! . . .  —  esconjurou  Victorina,  e  accomodou-se 
para  não  agorentar  a  exultação  da  ama. 

No  dia  seguinte,  á  hora  aprasada,  chegou  a  irmã 
de  Francisco  Costa.  Foi  recíebida  com  grande  con- 
tentamento. 

—  A  minha  amiga  —  disse  a  filha  do  general  com 
a  mesma  gravidade  do  dia  anterior  —  continua  a 
jurar  pela  memoria  de  seu  marido  que  fará  quanto 
eu  lhe  disser,  e  não  revelará  a  seu  irmão  palavra 
do  que  se  aqui  passar.  Jura  ? 

—  Farei  o  que  vossa  excellencia  disser,  sendo 
coisa  que  não  possa  acarretar-lhe  desgostos. 

—  Não  me  ponha  condições ;  se  m'as  põem,  tor- 
na-me  mais  desgraçada  do  que  eu  era  —  disse  An- 
gela com  transporte,  perdendo  por  instantes  a  ale- 
gria que  lhe  illuminava  o  rosto. 

—  Farei  o  que  vossa  excellencia  mandar. 

—  Bem.  Escute-me.  Quero  que  a  senhora  mude 
de  situação,  de  casa,  e  de  tudo.  Quero  que  seu  ir- 
mão continue  os  seus  estudos.  Quero  restituir-lhe 
o  que  perdeu  com  a  morte  de  seu  marido . . . 

—  O'  minha  senhora,  vossa  excellencia. . . 

—  Deixe-me  fallar.  Quero  que  seu  irmão  nem  em 
sonhos  possa  conjecturar  donde  a  minha  amiga  re- 
cebe os  recursos.  Ajudeme  a  pensar;  como  hade 
ser  isto  ?  Como  poderemos  nós  enganal-o  ? 

—  Não  sei,  minha  senhora . . .  Meu  irmão  sabe  que 
eu  nada  tenho,  e  que  os  nossos  parentes  todos  são 
pobres. . . 

—  Eu  pensei  toda  a  noite  n'isto.  Inventei  uma 
mentira  innocente.  Veja  se  tem  geito...  Parece-me 


i36  Os  brilhantes  do  brasileiro 

que  sim...  A  minha  querida  amiga  finja  que  uma 
pessoa  de  Vianna,  que  não  se  declara,  ficou  deven- 
do em  consciência  a  seu  marido  certa  quantia  de 
dinheiro,  e  quer  restituil-a  por  que  tem  remorsos 
de  ter  contribuido  para  a  quebra  e  morte  do  sr. 
José  Maria.  Comprehende  ? 

—  Sim,  minha  senhora  ;  mas . . . 

—  Espere.  Ouça  o  resto.  Essa  pessoa  diz  na  carta 
que  irá  remettendo,  de  tempo  a  tempo,  a  quantia 
que  deve,  e  declara  que  não  é  pequena  a  restitui- 
ção, para  que  seu  irmão  possa  sem  receio  de  ser 
interrompido  por  falta  de  meios,  continuar  o  seu 
curso.  Que  lhe  parece  ? 

—  Não  me  parece  mal*,  mas  se  meu  irmão  quer 
entrar  em  averiguações. . . 

—  Na  carta  hade  dizer  a  pessoa  que  das  averi- 
guações, se  se  fizerem,  resulta  a  suspensão  dos  paga- 
mentos porque  o  restituidor  não  se  esconde  de  Deus, 
mas  quer  esconder-se  do  mundo.  Pensei  em  tudo. 

—  Mas  quem  hade  escrever  a  carta  ?  —  argumen- 
tou Joanna. 

—  Olhem  a  grande   diííiculdade  !   Escrevo-a  eu. 

—  Mas  elle  conhece  a  letra  de  vossa  excellen- 
lencia. . . 

—  Que  novidade!  Deixe-me  acabar...  escrevo-a 
eu,  e  Victorina  chama  um  rapaz  da  escola,  e  paga- 
Ihe  para  que  a  copie ;  e,  depois,  a  carta  finge-se  tra- 
zida por  um  sujeito  desconhecido  que  a  procura  em 
sua  casa  em  quanto  seu  irmão  está  no  escriptorio, 
e  lh*a  entrega  com  este  dinheiro. 

E,  dizendo,  entregava  a  Joanna  os  25oj5(ooo  réis 
cm  uma  saquinha. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  iSy 

A  irmã  de  Francisco  hesitava  em  receber.  An- 
gela lançou-lhe  a  sacca  ao  regaço,  e  disse : 

—  Com  esses  modos  não  me  deixa  gosar  todo  o 
contentamento  com  que  Deus  me  está  compensan- 
do o  martyrio  de  quatro  annos !  Minha  amiga,  dei- 
xe-me  inteiro  este  goso,  por  quem  é,  por  alma  de 
seu  marido  lhe  rogo  ! 

Lavada  em  lagrimas,  Joanna  inclinou-se  a  que- 
rer beijar  os  pés  da  fidalga,  que  a  estreitou  com 
transporte  ao  coração. 

—  Vá  que  são  horas  —  disse  Angela  —  guarde  o 
dinheiro  onde  seu  mano  o  não  veja.  A'manhã  torne 
á  mesma  hora,  que  já  heide  cá  ter  a  carta.  Fico 
muito  alegre.  Vou  agradecer  a  Deus  este  raio  de 
sol.  Não  me  acha  hoje  mais  bonita  ?  mais  nova  ? 
Olhe  o  que  faz  a  felicidade ! . . .  Ha  quatro  annos  á 
espera  d'esta  hora  I . . .  E'  hoje  a  primeira  vez  que 
vejo  seu  marido  a  sorrir  para  mim  do  outro  mun- 
do!.. .  Não  chore,  que  elle  não  quer.  Vá,  vá  mi- 
nha amiga. . . 

Joanna  sahiuenchugando  as  lagrimas,  e  entrou  no 
primeiro  templo  que  encontrou  aberto  a  pedir  ao  Se- 
nhor que  abençoasse  a  caridade  da  virtuosa  Angela. 

Sahiu-lhe  bem  logrado  o  plano  á  consolada  se- 
nhora. 

Francisco  José  da  Costa  leu  a  carta  como  assom- 
brado d'um  caso  de  restituição  em  tempos  de  tanta 
philosophia  alumiadora  dos  espiritos  —  quando  para 
castigo  de  ladrões  já  não  havia  inferno,  nem  para 
gloria  de  arrependidos  céo.  Contou  o  dinheiro,  e 
disse  á  irmã  : 


j38  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Agora,  minha  pobre  Joanna,  cessa  de  trabalhar. 
Vae  vivendo  do  que  receberes,  que  eu  para  mim 
cá  me  arranjarei  com  os  três  tostões  da  escriva- 
ninha. 

—  Isso  acabou,  Francisco.  Deixas-te  de  ser  ama- 
nuense de  tabellião. 

—  Estás  doida  com  a  tua  felicidade  dos  25oâ^ooo 
réis  ! . . . 

—  Olha,  Francisco,  —  tornou  ella  —  se  este  di- 
nheiro e  o  que  vier  te  não  servir,  para  mim  é  inútil. 

Ou  tu  continuas  os  teus  estudos,  ou  eu  continuo 
a  minha  costura,  esperando  que  um  dia  te  resolvas 
a  empregar  o  dinheiro.  Escolhe.  Jurote  que  não  le- 
vantarei cinco  réis  d'este,  e  do  que  vier,  sem  que 
tu  estejas  formado.  O  que  peço  é  que  nie  alu- 
gues melhor  casa  e  que  a  mobiles  com  mais  Hm- 
pesa.  Peço-t'o  muito  por  ti,  e  pouquíssimo  por  mim. 
Estamos  em  março ;  vê  se  consegues  ainda  este  an- 
no  continuar  a  aula  que  interrompeste  em  fevereiro 
ha  quatro  annos.  Formate,  meu  querido  irmão,  e 
serás  depois  o  meu  amparo.  Então  descançarei  con- 
fiada somente  aos  teus  cuidados. 

A  lei  não  permittia  abrir  matricula  extemporanea- 
mente. Todavia,  Francisco  passou  o  restante  do  anno 
recordando  matérias  esquecidas  desde  as  mais  ru- 
dimentares das  aulas  preparatórias.  Melhorou  de 
casa,  comprou  livros,  sentiu-se  renascer,  abendi- 
çoou  muitas  vezes  a  Providencia  que  suggerira  no 
coração  de  quem  quer  que  fosse  a  virtude  de  re- 
por um  roubo  —  virtude  difflcilima,  digo  eu,  que  en- 
cheria o  céo  de  santos,  se  os  ladrões,  uma  bella  ma- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i3g 

nhá,  se  combinassem  para  expulsar  de  lá  os  bem- 
aventurados  por  virtudes  fáceis.  Roubar  e  restituir 
depois,  dizia  elle,  inculca  uma  transformação  mo- 
ral de  tal  magnitude  que  não  se  faz  mister  provar 
com  outro  phenomeno  a  divindade  da  religião  que 
operou  tal  maravilha. 

No  primeiro  capitulo  d'este  livro  vem  contado  o 
proseguimento  da  venda  dos  brilhantes  até  com- 
pletar-se  a  formatura  de  Francisco  Gosta,  concluí- 
da em  1846.  A  illusão  do  estudante  nunca  soffreu 
quebra.  A  restituição  orçava  por  i:65o?5iooo  réis, 
quando  o  cirurgião-medico,  desgostoso  de  se  vêr 
sem  clinica,  bem  que  se  distinguisse  em  prémios  e 
habilidade  operatória,  deliberou  aceitar  a  proposta 
d'um  armador  para  ir  ao  Rio  de  Janeiro  como  ci- 
rurgião de  d'uma  galera.  O  proponente  era  Herme- 
negildo Fialho,  sujeito  que  Francisco  nem  de  nome 
conhecia.  Aceitou  sob  partido  que  ficaria,  no  Rio,  se 
lhe  approuvesse. 

Joanna,  na  véspera  de  embarcar-se  o  irmão,  pe- 
diu de  joelhos  a  D.  Angela  que  lhe  deixasse  decla- 
rar a  quem  deviam  a  sua  felicidade.  A  esposa  do 
brasileiro,  redarguio  que  lhe  daria  máo  pago,  se  a 
denunciasse  sem  precisão  nem  utilidade,  indo  humi- 
lhar um  homem  que  não  podia  agradecer,  sem  des- 
consolação, o  beneficio  da  mulher  que  o  amou. 

Pelo  que  respeita  ao  viver  intimo  do  brasileiro  e 
esposa,  no  correr  doestes  cinco  annos,  é  de  notar 
que  melhorou  sobre  maneira.  Angela  conformara-se, 
ou  as  alegrias  da  beneficência  vislumbravam-lhe  no 
rosto,  mais  aíFavel  para  o  marido.  Elle,  por  sua 
parte,  cumprindo  o  programma  exposto  equivoca- 


1^0  Os  brilhantes  do  brasileiro 

mente  á  irmã  n'aquella  phrase  eu  me  arranjarei^ 
realisou-o  exuberantemente  mobilando  em  S.  Roque 
da  Lameira  e  na  Cruz  da  Regateira  duas  vivendas 
alegres,  gaiolas  d' amor,  em  que  tinha  as  duas  aves 
colhidas  a  visgo  de  oiro  nas  florestas  da  sua  Bar- 
rosas,  segundo  elle  confessara,  justificando  os  mo- 
tivos a  seu  hospedeiro  compadre  Athanasio  José  da 
Silva. 

E  visto  que  chegamos  ao  ponto  em  que  deixamos 
o  brasileiro  roncando,  ligue-se  a  historia,  depois  de 
havermos  afFastado  da  immaculada  esposa  as  pre- 
sumpções  aleivosas. 


XVIII 


A  infamada 


Estava  Angela  escrevendo  a  um  dos  três  amigos 
de  seu  marido,  rogando  que  a  não  considerassem 
esposa  infiel,  nem  diffamassem  seu  nome,  querendo 
forçal-a  a  entrar  n'um  convento,  á  imitação  das  mu- 
lheres delinquentes.  Promettia  ella  defender-se,  se 
seu  marido  a  quizesse  escutar,  a  sós,  bastando-lhe 
de  sua  innocencia  o  testemunho  de  Deus,  cuja  pro- 
videncia, em  tão  apertado  lance,  lhe  dava  coragem 
para  encarar  de  rosto  qualquer  desgraça,  menos  a 
de  entrar  no  convento  com  a  nódoa  de  adultera. 

A  carta  ia  ser  fechada,  quando  se  annunciou 
Athanasio,  com  os  seus  amigos  Pantaleão  e  Joa- 
quim António. 

O  marido  da  Ruiva  declarou  que  o  amigo  Her- 
menegildo teimava  em  que  sua  mulher  entrasse  no 
convento  que  lhe  fosse  escolhido  por  elles  represen- 
tantes de  suas  ordens ;  e  que,  no  caso  de  a  senhora 
se  negar  a  obedecer  a  tão  justo  mandado,  fizesse 


142  Os  brilhantes  do  brasileiro 

de  conta  que  não  tinha  marido,  nem  casa,  nem  for- 
tuna, porque  todos  os  teres  e  haveres  de  seu  ho- 
mem estavam  hypothecados,  vendidos  e  alienados, 
como  se  provaria  em  juizo  com  documentos  da 
maior  validade 
Escutou-os  Angela,  e  disse  serenamente : 

—  Mandam-me  por  tanto  sahir? 

—  Sim,  se  a  senhora  não  quizer  ir  para  convento. 

—  Não  vou. 

—  Então,  muito  nos  custa  dizer-lhe  que. .. 

—  Despeje  a  casa?  —  concluiu  Angela. 

—  Sim. . .,  se  a  senhora. . .  —  repetiu  Athanasio 
—  Bem  sabe  que  a  honra  d'um  homem. . .  Seu  ma- 
rido tem  de  dar  contas  á  sociedade. . . 

—  E  a  Deus  —  ajuntou  Angela. 

—  Isso  de  Deus...  —  resmuneou  Joaquim  José 
António. 

—  Não  ha  ?  —  perguntou  ella. 

—  Não  sei  se  ha,  nem  se  não  ha.  O  que  sei  é  que 
elle  não  se  mette  cá  n'estas  coisas. 

—  Se  a  senhora  está  innocente  —  interveio  Pan- 
taleão  —  prove-o.  Diga  a  quem  deu  i:65oírooo  réis. 

—  A  um  pobre. 

—  Mas  quem  era  o  pobre  ?  Saibamos  isso. . .  Era 
pobre  honrado^ 

—  Era. 

—  Como  se  chama  ? 

—  Ainda  que  lhes  diga  o  nome  d'elle,  os  senho- 
res não  conhecem  os  pobres  honrados ;  conhecem 
somente  os  infames  ricos. 

—  Tenha  prudência  na  lingua,  minha  senhora — 
rebateu  Athanasio. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  Z4S 

—  Desçam  as  escadas,  que  quero  sahir,  seus  bil- 
tres! —  exclamou  a  filha  de  D.  Maria  d' Antas  —  Se 
os  gallegos  da  casa  me  obedecessem,  haviam  de  fa- 
zel-os  saltar  pelas  janellas ;  mas  a  casa  já  não  é  mi- 
nha, e  infame  eu  seja  quando  pedir  um  ceitil  do 
que  ella  encerra.  Aqui  ficam  as  jóias  de  minha  mãe, 
que  valem  quatro  ou  cinco  contos  de  réis.  O  seu 
amigo  Hermenegildo  que  se  pague  do  que  me  deu, 
e,  se  alguns  vinténs  sobejarem,  que  compre  uma 
corda  e  que  se  enforque. 

—  Irra ! . ,  .  que  mulher  !  —  dizia  Joaquim  a  Pan- 
taleão,  limpando  o  suor  da  testa  em  janeiro. 

—  Tem  diabo  no  corpo!  —  regougou  o  outro. 
Voltaram-lhe  as  costas  com  arremesso,  e  sahiram 

vociferando  palavras  insultantes. 

Depoz  eiles  sahiram  Angela  e  Victorina,  deixando 
as  portas  abertas  e  a  casa  entregue  aos  criados, 
que  choravam  em  altos  clamores. 

—  Vaes  tão  triste  ? !  —  perguntou  Angela  á  criada. 

—  E  vossa  excellencia  não,  minha  infeliz  menina? 

—  Não!  pois  não  vês?!  O  que  eu  não  deixei 
n'aquella  casa  foi  o  ouro  da  consciência. . . 

—  Sahir  sem  nada!...  Que  leva  vossa  excellen- 
cia ahi  n'esse  dispensável?. .  . 

—  E'  o  livro  dos  Sonhos  do  Francisco  —  respon- 
deu ella  sorrindo  —  Não  tenho  mais  nada  que  me 
recorde  a  minha  alegre  mocidade  senão  isto  e  tu ! 
As  coisas  que  mais  amo  vão  comigo. 

Victorina  chorou  de  agradecida,  e  participou  in- 
voluntariamente da  alegria  da  senhora. 

Entraram  na  rua  do  Moinho  de  Vento  e  procu- 
raram um  numero  de  casa.  Subiram,  e  acharam-se 


144  ^^  brilhantes  do  brasileiro 

na  alegre  e  aceiada  saleta  de  Joanna  Costa,  que  se 
levantou  a  receber  a  fidalga  com  transporte  e  es- 
panto. 

—  Venho  pedir-lhe  um  canto  da  sua  casinha  í  — 
disse  Angela  risonhamente  —  Dê-me  o  quarto  de 
seu  irmão  para  mim  e  para  a  minha  Victorina. 

—  Pois  que  é  minha  senhora?  que  é  isto?!  — 
exclamou  Joanna. 

—  E'  que  fui  expulsa:  não  tenho  casa,  nem  tfor- 
tuna».  Veja  como  se  cahe  depressa,  minha  amigai 
apesar  d'isso,  quando  a  queda  não  é  vergonhosa,  a 
gente  parece  que  sente  as  azas  dos  anjos  a  ampa- 
ral-a. 

Referiu  Angela  o  successo  dos  brilhantes,  da  in- 
timação para  responder  á  authoridade,  da  mensa- 
gem dos  amigos  do  marido,  etc.  Se  Joanna  a  inter- 
rompia com  o  choro,  a  serena  hospeda  revelava 
desgosto,  e  queixava-se  do  máo  uso  que  ella  fazia 
das  lagrimas. 

Finda  a  relação,  a  filha  do  general  foi  tomar  posse 
do  quarto  de  Francisco,  quedou  largo  tempo  a  exa- 
minar as  mais  insignificantes  coisas,  boliu  nos  li- 
vros, nas  gavetas,  nos  papeis  escriptos,  sorrindo  a 
tudo. 

—  O  meu  livrinho  das  Esperanças  ?  —  perguntou 
ella. 

—  Levouo.  Costumava  estar  n'este  sitio  —  res- 
pondeu Joanna  indigitando  um  logar  vasio  entre 
dois  livros. 

—  Pois  irá  para  o  logar  d'elle  o  livro  dos  So- 
nhos. 

E  collocou  o  manuscripto,  examinando  os  dois 


Os  brilhantes  do  brasileiro  145 

livros  lateraes.  Eram  também  manuscriptos,  e  am- 
bos com  o  mesmo  titulo:  Angela. 
Joanna  disse,  sorrindo: 

—  Eu  nunca  lhe  contei  que  elle  tinha  esses  li- 
vros... 

—  Não. 

—  De  propósito  para  que  vossa  excellencia  os 
não  quizesse  ver. . .  Escreveu  os  nos  primeiros  qua- 
tro annos  da  nossa  pobresa.  Passava  as  noites  n'is- 
to,  depois  de  gastar  os  dias  no  escriptorio.  Lia-me 
ás  vezes  alguma  pagina,  e  abraçava  me  se  eu  cho- 
rava. Mas  não  se  intristeça,  minha  senhora !  Já  mu- 
dou de  semblante  ! 

—  E*  felicidade !  não  me  lamente,  minha  ami- 
ga!.. .  Como  eu  quero  a  estes  dois  livros ! . . .  E 
era  capaz  de  me  deixar  morrer  sem  que  eu  os 
visse  ? 

—  De  certo !  Deus  me  livrasse  de  eu  ir  inquietar 
vossa  excellencia ! . . .  Já  depois  que  meu  irmão  sa- 
hiu,  estive  aqui  um  dia  muito  doente,  e  pensava  já 
em  os  rasgar,  se  peorasse;  que  não  fosse  alguém 
ler  o  que  elle  dizia  de  vossa  excellencia. . . 

—  Pensemos  n'outra  coisa,  minha  amiga  —  tor- 
nou Angela  com  os  olhos  rasos  de  gososas  lagri- 
mas —  Temos  em  que  trabalhar  ? 

—  Não  precisamos;  que  meu  irmão  deixou -me 
metade  dos  trezentos  mil  réis  que  foi  ganhar.  Ape- 
nas gastei  duas  moedas  doeste  dinheiro.  Abra  vossa 
excellencia  essa  gaveta,  que  lá  está  o  resto. 

—  Mas  é  necessário  trabalhar,   minha  irmã.   A 

ociosidade  é  o  tédio,  é  a  doença,  é  o  desespero. 

Olhe  que  eu,  quando  me  chamavam  a  brasileira  do 

10 


146  Os  brilhantes  do  brasileiro 

meio  milhão,  em  cada  dia,  costurava  cinco  horas. 
E  foi  bom  conservar  os  costumes  adquiridos  na  po- 
bresa  do  convento.  A  pobresa  voltou;  mas  d'esta 
vez  encontra-me  prevenida,  e  de  mais  a  mais  dis- 
posta a  desafial-a  para  que  me  incommode. 

—  E  como  o  prazer  lhe  salta  nos  olhos !  —  dizia 
Joanna  a  contemplal-a,  e  a  saborear  o  seu  quinhão 
d'aquella  communicavel  alegria. 

—  Não,  que  a  minha  irmã  não  imagina  quanto 
me  sinto  bem !  Parece  que  renasci !  O'  Victorina, 
vae  ver  como  está  isso  lá  de  cosinha.  Tenho  von- 
tade de  jantar.  Vamos  jantar  logo,  Joanninha  ?. . . 
E,  se  seu  irmão  nos  apparecesse  agora  ?  Se  elle  me 
encontrasse  de  posse  do  seu  quarto  e  dos  seus  li- 
vros,  e  a  escrever  as  minhas  novas  Esperanças. . . 
Esperanças!  —  sorriu  ella  accentuando  a  palavra  — 
Agora  é  que  as  esperanças  de  amanhã  não  hãode 
inquietar  o  bem  de  hoje  1  Até  agora  o  que  eu  es- 
perava era  isto . . .  esta  paz^  esta  doçura  de  viver, 
sem  parentes,  sem  ninguém,  senão  com  as  pessoas 
que  sacrifiquei,  e  me  querem  bem,  apesar  de  tudo, 
não  é  verdade  ? 

—  Mas  se  seu  marido  a  vem  buscar,  minha  se- 
hora ! 

—  Buscar-me !  eu  morri,  ou  elle  morreu. .  .,  não 
sei  bem  quem  foi;  mas  o  certo  é  que  nos  não  ve- 
remos mais. . . 

A'quella  mesma  hora,  Hermenegildo  jantava  na 
cevadeira  de  Athanasio.  Escarmentado  pela  ceia  da 
véspera,  não  comeu  empadão  d'ôstras;  mas  fez-se 
em  lagosta  e  salmão.  Depois  de  jantar,  reuniu  os 


Os  brilhantes  do  brasileiro  J4j 

amigos,  e  completou  as  instrucções  a  seguir  sobre 
a  segura  arrecadação  da  sua  «fortuna»,  alienação 
fraudulenta  de  quintas,  casas  e  navios,  tudo  incon- 
tinente para  antecipar-se  á  tentativa  de  divorcio  com 
a  separação  do  casal,  a  requerimento  de  sua  mu- 
lher. Ao  anoitecer,  metteu-se  em  carruagem,  e  foi 
para  S.  Roque  da  Lameira,  ou  para  a  Cruz  daRe- 
gateira:  não  liquidamos  com  certesa  em  qual  das 
paragens  pernoitou.  O  sabido  é  que  uma  das  duas 
frescassas  moças  de  Barrosas  o  seguiu  para  o  Por- 
to, no  dia  seguinte  por  noite,  e  tomou  as  rédeas  do 
governo  da  casa  do  brasileiro,  e  achou  bonitas  as 
cortinas  do  leito  nupcial  de  Angela,  quando  pela 
manhã  um  raio  de  sol,  atravez  das  rendas,  aureo- 
lava a  cabeça  de  Hermenegildo,  contornada  no 
braço  trigueiro  d'ella. 

E,  quinze  dias  depois,  o  brasileiro,  chorado  e  la- 
mentado dos  amigos,  embarcava  em  um  dos  seus 
navios,  aproando  ás  praias  de  Santa  Cruz,  onde,  di- 
zia elle,  ia  esconder  a  sua  vergonha,  associando  á 
sua  angustia  a  franduna  rapagôa,  Rosa  Catraia,  que 
se  lhe  encostava  ao  coração,  enjoada  com  o  balanço 
da  galera ! 

A  colónia  de  brasileiros  portuenses  longo  tempo 
chorou  a  sorte  dura  de  Fialho.  Alli,  na  Praça-nova 
e  no  Jardim  de  S.  Lazaro,  se  apinhavam  os  mago- 
tes d'aquelle  gentio  a  escoucear  na  honra  de  An- 
gela. Em  quanto  uns  diziam  que  ella  passara  a 
abarregar-se  com  o  incógnito  amante,  outros  asse- 
veravam ler  exactas  informações  de  que  a  tal  fidalga 
de  Cascos-de- rolhas  cedo  poria  em  almoeda  a  sua 
bellesa.  E  os  homens  honestos  do  Porto  jungima- 


148  Os  brilhantes  do  brasileiro 

se  na  maledicência  com  a  vara  de  javardos  que  re- 
toiçavam  e  forçavam  na  infâmia  uns  dos  outros.  E 
sobre  aquella  gente  chovia,  e  chove  Deus  toda  casta 
dej  prosperidades !  E  a  providencia  ter-lhe-ha  dado 
quanto  tem  e  pôde  no  dia  em  que  enviar  sobre  ella 
uma  nova  chuva. . .   de  albardas. 


XIX 


Amor  próprio 


Recebeu  Joanna  a  segunda  carja  de  seu  irmão.  A 
prosperidade  aíFagavao  no  Rio  de  Janeiro.  Feliz 
n'uma  operação  de  catarata,  e  louvado  nos  periódi- 
cos, fez  soar  o  seu  nome  nas  capitães  das  provín- 
cias, d'onde  concorriam  os  infermos  a  consultal-o. 
As  remunerações  eram  liberalissimas,  por  maneira 
que,  segundo  a  parcimonia  de  sua  ambição,  poderia, 
dizia  elle,  retirar- se  com  sobejos  recursos  para  vi- 
ver em  Portugal  sem  clinica.  Não  transparecia  da 
carta  scintilla  de  contentamento,  senão  antes  muitas 
e  tristes  saudades  da  irmã  e  do  seu  gabinete  de  me- 
ditação.  O   periodo  ultimo  da  carta  resava  assim : 

«Li  ha  dias  no  Jornal  do  Commercio,  que  tinha 
«chegado  ao  Rio  o  portuguez  Hermenegildo  Fialho, 
«que  é  ou  era  o  dono  da  barca  erti  que  vim.  Nunca 
«o  tinha  visto ;  mas  intendi  que  devia  procuralo, 
«por  que  era  d'elle  o  primeiro  dinheiro  que  ganhei 
«pela   sciencia,  e  o  com  que  te  estás  sustentando. 


i5o  Os  brilhantes  do  brasileiro 

«Tinha-se  hospedado  em  casa  do  seu  corresponden- 
«te.  Sem  eu  nada  lhe  perguntar,  me  disse  que  dei- 
«xára  Portugal  para  sempre,  por  causa  de  sérios 
«desgostos  que  lhe  dera  a  mulher.  Ouvi-o  em  silen- 
«cio,  e  tive  pena  do  homem  que  me  pareceu  cons- 
«ternado,  posto  que  nédio  e  pouco  azado  para  mo- 
«ver  á  piedade.  Mas  a  minha  compaixão  trocou-se 
«em  riso  quando  hontem  o  vi  em  Petrópolis  com 
«uma  espaduada  mulher  que  denunciava  pertencer 
«á  raça  forte  das  nossas  mulheres  do  Minho.  Eu 
«ia-me  desviando  d'elle,  pensando  que  o  embaraça- 
«va ;  mas  elle  mesmo  me  chamou  para  me  offerecer 
«de  almoçar  com  tal  instancia  que  não  pude  safar- 
«me.  Não  me  atrevia  a  perguntar  quem  era  a  nossa 
«commensal.  Gomo  leste  o  D.  Quichote  imaginaras 
«que  eu,  comparando  os  personagens  do  romance 
«com  os  do  almoço,  me  figurei  que  Sancho  tinha 
«roubado  Maritornes  ao  cavalleiro  da  triste  figura. 
«Realmente,  Hermenegildo,  como  Sancho,  excedeu 
«a  imaginativa  de  Cervantes. 

«Em  meio  do  almoço,  o  marido  exilado  da  pa- 
«tria  e  da  esposa  que  o  deshonrou,  me  disse  que 
«aquella  mulher  era  o  seu  aconchego,  e  a  consola- 
«ção  das  suas  maguas.  Isto  me  fez  um  certo  ingu- 
«Iho,  e  fiquei  depois  a  pensar  na  desmoralisação 
«d'aquelles  cincoenta  annos.  Talvez  qiie  a  mulher 
«cuide  lá  que  o  seu  esposo  anda  por  cá  muito  ator- 
«mentado  !  Gontei-te  este  caso  por  achar  n'elle,  não 
«direi  sal,  mas  podridão  dos  costumes  contempora- 
«neos,  etc.» 

Leu  Angela  a  carta,  interrompendo-se  com  impul- 
sos de  riso  no  derradeiro  periodo. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i5i 

—  E,  se  elle  soubesse  que  eu  era  a  esposa  de 
Sancho  !. ..  —  exclamou  ella  casquinando  uma  argen- 
tina risada  —  Que  piedosas  lagrimas  não  verteria  o 
nosso  Francisco,  minha  irmã !  E,  se  não  chorasse, 
pôde  ser  que  eu  lhe  fizesse  também  ingulho ! . . . 

A  despeito  do  riso,  Angela  doêra-se,  e  em  secreto 
sentiu  Ímpetos  de  chorar.  Não  lhe  pungia  a  ridí- 
cula libertinagem  do  marido.  Que  lhe  fazia  isso  a 
ella  ?  O  nojo  não  tinha  já  onde  coubesse.  A  magua 
era  toda  de  amor-proprio ;  era  prever  que  Francisco 
Costa,  um  dia,  ao  saber  que  tão  grutesco  homem 
era  o  marido  da  mulher  única  do  seu  amor,  senti- 
ria despintar-se-lhe  da  fantasia  o  colorido  ideal  com 
que  a  etherisava  nos  dois  livros  chamados  Angela. 

E,  como  esta  magua  era  de  espécie  ruim  de  re- 
velar-se,  o  callal-a  foi  um  penetrar-se  mais  dos  es- 
pinhos de  sua  perdoável  vaidade,  e  entristecer-se 
a  extremos  de  dar  que  soffrer  á  amiga  e  a  Victorina. 

Perguntava  ella  uma  vez  a  Joanna : 

—  Seu  irmão,  quando  soube  que  eu  casara  no 
Minho,  como  o  soube  ? 

—  Por  que  um  homem  de  Ponte  lhe  disse  que  a 
filha  do  sr.  general  Noronha  tinha  casado  muito  ri- 
ca, e  o  soubera  do  mordomo  de  seu  pae. . . 

—  Eu  vi  aqui  no  livro  d'elle,  —  interrompeu  An- 
gela— uma  allusão  ao  meu  casamento.  Diz  elle  as- 
sim. . .  (E  abriu  o  livro,  onde  tinha  a  lauda  dobrada, 
e  leu :)  Que  pena  terás  de  ti  própria,  Angela,  quan- 
do não  sentires  o  calor  da  tua  alma  ftas  formas  tão 
bellas,  tão  vestidas  de  celestial  lu:{,  conspurcadas 
no  sevo  da  brutal  cupide:^  do  argentarioL  ..  Sabe, 
minha  amiga,  o  sentido  d'estas  palavras? 


j52  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Sei,  minha  senhora.  E'  por  que  o  mordomo 
de  seu  pae  tinha  visto,  não  sei  onde,  seu  marido,  e 
dissera  ao  outro  que  nunca  vira  coisa  mais  feia. 

—  E  seu  irmão  despresou-me  por  isso  ? 

—  Leia  vossa  excellencia  a  continuação  do  livro 
e  verá  que  elle  não  a  despresou :  amou-a  sempre 
com  a  mesma  elevação  espiritual  do  tempo  em  que 
elle  dizia,  e  eu  mal  o  percebia:  Como  homem  acal- 
ma adoro  Angela^  illumino-a  d  lu^  que  radia  das 
minhas  crenças  em  ^eus.  Quantas  vezes  cu  lhe  di- 
zia : — Porque  não  amas  outra  ? — E  elle  respondia- 
me:  «Não  se  aviltam  certas  almas  quando  mesmo 
queiram  envilecer-se. . . » 

—  Isto  está  aqui  escripto  —  apontou  Angela,  e 
continuou  lendo :  Entre  ti  e  Deus  poderá  existir  ou- 
tro elo,  minha  querida  amiga;  mas  eu  não  o  conhe- 
ço. Se  um  dia  o  conhecer,  então  esquece?^- te  hei,  O 
homem,  que  te  chama  sua,  é  apenas  a  lama  que  se 
apegou  ao  brilhante  cahido  jio  tremedal.  Eu  serei 
sempre,  na  tua  memoria,  o  aro  de  ferro  onde  real^ 
caria  o  teu  brilho.  A  sociedade  enxovalhou  te,  im- 
pelliu'te  a  golpes  da  miséria  d  degradação  dos  cor- 
pos escravos  do  ouro;  mas  eu  sei  que  a  tua  alma  se 
pae  alçando  mais  para  a  sua  origem  purificada  por 
agonias  superiores  ds  minhas,  A  mim  resta-me  a  in- 
dependência para  chorar;  e  tu  não  tejis  sequer  esse 
desafogo,  minha  pobre  Angela!  Eu  sou  mais  feli^y 
e  não  queria  sel-o . . . 

Estas  leituras  e  os  commcntos  de  Joanna  des- 
pontaram as  puas  do  amor-proprio.  A  satisfação 
renasceu. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i53 

N'este  tempo,  noticiaram  as  gazetas  portuenses 
que  o  general  Noronha,  voltara  de  novo  a  Paris,  e 
recolhera  a  Portugal  sem  esperanças  de  cura,  sendo 
um  dos  seus  flagelladores  padecimentos  uma  quasi 
cegueira,  que  lhe  tornava  horrorosa  a  existência  no 
seu  solitário  palacete  de  Ponte. 

Angela  sentiu-se  transida  de  compaixão  de  seu 
pae,  que  ella  tinha  conhecido  onze  annos  antes 
ainda  vigoroso  posto  que  encanecido.  Escreveu-lhe. 
De  sua  vida  nada  lhe  contava.  Offerecia-lhe  p  seu 
braço  para  amparo,  os  seus  olhos  para  ver  por 
elles,  o  seu  coração  de  filha  para  urna  das  lagrimas 
espremidas  pela  saudade  e  memorias  dos  seus  aíFe- 
ctos  de  moço  feliz,  com  todas  as  alegrias  do  mundo 
a  cortejal-o.  O  general  ouviu  ler  a  carta  ao  seu 
mordomo,  e  disse: 

—  Cuidei  que  era  morta...  Morta  está  de  certo... 
E  não  respondeu. 

Aquella  carta  redobrou-lhe  o  tormento  da  memo- 
ria ao  ancião.  Maria  d' Antas  relampagueava-lhe  a 
miúdo  diante  dos  olhos  d'alma;  e  elle  circumvagava 
os  do  rosto  para  affastar  a  imagem  formidável  com 
a  diversão  d'outras;  mas. . .  não  via  !  Apenas  tinha 
olhos  para  chorar. 

—  Por  que  não  chama  vossa  excellencia  para  si 
sua  filha? — dizia-lhe  um  dia  o  mordomo,  com  a  li- 
berdade de  quarenta  annos  de  servo. 

—  E  quem  te  disse  que  ella  é  minha  filha? 
O  mordomo  callava-se. 

—  Quem  te  disse  que  ella  era  minha  filha?— in- 
sistia o  general  esbugalhando  os  olhos  cinzentos  e 
nubelosos. 


i54  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Pensei,  senhor... 

—  Parece-se  comigo? 

—  Não  senhor,  é  o  rosto  de  sua  mãe. 

—  Muito  parecido?  Já  me  não  recordo  de  An- 
gela... 

—  Tal  qual.  Quando  aqui  esteve,  ha  sete  annos, 
era  como  a  fidalga  d' Antas  quando. . .  morreu. 

— Vae-te. . .  deixa-me. .  .—rugia  o  cego,  gesticu- 
lando vertiginosamente. 


XX 


o  doente  e  o  doutor 


Em  fins  de  1848  prefazia  dois  annos  e  meio  que 
Francisco  José  da  Gosta  demorava  no  Rio,  gosando 
os  proventos  de  seus  muito  trabalho  e  créditos.  As 
remessas  de  dinheiro  feitas  á  irmã  denunciavam  o 
propósito  de  voltar  proximamente  á  pátria.  Uma 
instante  recommendação  fazia  elle:  era  a  compra 
da  casinha  de  Vianna  que  Francisco  ainda  via  lu- 
zente e  doirada  das  illusões  de  sua  mocidade.  TaU 
vei  que  ali  vá  acabar  os  meus  dias — escrevia  elle — 
Tenho  posses  para  mais;  no  entanto  as  minhas  es- 
peranças não  vão  mais  longe ;  e  as  tuas^  pobre  Joan- 
na^  são  ver-me  resignado  na  tristeza. 

Era,  pois,  em  novembro  de  1848. 

O  doutor  Costa,  como  no  Rio  o  honorificavam, 
foi  chamado  para  visitar  um  enfermo  já  seu  conhe- 
cido e  de  muita  consideração. 

Era  Hermenegildo  Fialho  de  Barrosas  —  o  roliço 
devasso  que  elle  não  tornara  a  ver  desde  o  almoço 
de  Petrópolis. 


i56  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Encontrou-o  doente  do  fígado ;  desconfiou  da  en- 
fermidade n'aquelle  clima,  e  no  afogo  do  verão. 

O  acerto  do  tratamento,  desfez  os  mais  graves 
symptomas  ;  receava,  não  obstante  o  facultativo  que 
o  doente  recahisse  por  demasias  de  gulodice  em 
que  a  enfermeira  se  mostrava  complacente  amiga, 
e  lambaz  quinhoeira. 

Hermenegildo  não  dispensava  duas  visitas  diá- 
rias, pagando-as  com  generosidade,  porque,  dizia 
elle  : 

—  Sou  muito  rico,  conto  mais  de  duzentos  con- 
tos, e  não  tenho  herdeiros.  Tinha  uma  irmã,  que  já 
morreu  ha  três  mezes,  com  paixão  de  me  ver  sa- 
hir  de  Portugal  para  nunca  mais.  Não  poupe  o  meu 
dinheiro,  sr.  Costa ;  e  de  cada  vez  que  vier  conte 
com  uma  nota  de  cem  mil  réis.  O  que  eu  quero  é 
saúde  para  gastar  o  que  tenho;  que  já  não  sou  ca- 
paz d'isso. 

—  Então  vossa  senhoria  não  teve  filhos  de  sua 
senhora  ?  —  perguntou  o  doutor. 

—  Nada,  não  tive,  nem  tenho  de  ninguém.  Não 
sou  de  casta. 

—  Mas  sua  senhora,  se  não  houve  divorcio  nem 
escriptura  especial,  deve  partilhar  da  sua  herança, 
penso  cu. 

— .Isso  é  cá  uma  historia  que  eu  contarei  ao  meu 
amigo  doutor  Gosta.  Minha  mulher...  minha  ou  lá 
do  diabo  de  quem  é,  não  hade  receber  uma  pataca, 
se  eu  for  adiante  d'ella.  Quando  me  apartei,  desfiz- 
me  de  tudo ;  isto  é,  dispuz  a  minha  fortuna  de  geito 
e  com  taes  artes  que  ella  não  acha  coisa  a  que  dei- 
te as  unhas. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  j5y 

—  E  tem  ella  recursos  de  que  viva,  depois  que 
vossa  senhoria  a  deixou  ? 

—  Não  sei,  nem  quero  saber.  Dizem  que  o  pae 
é  rico  ;  mas  elle  faz  tanto  caso  d'ella  como  eu. 

—  Desculpe-me  fazer-lhe  uma  pergunta : 

—  Pergunte  o  que  quizer  •,  que  eu  já  não  me  im- 
porto fallar  n'isto.  Deitei  o  coração  ao  largo,  e,  co- 
mo o  outro  que  diz,  leve  o  diabo  paixões  e  mais 
quem  com  ellas  medra.  Gosto  do  cavaco.  Que  que- 
ria o  sr.  doutor  saber  ? 

—  Se  teve  rasÕes  para  privar  inteiramente  de  re- 
cursos sua  senhora.  A's  vezes  acontece  um  homem, 
na  sua  posição  de  atraiçoado  pela  esposa,  cavar 
mais  fundos  abysmos  á  sua  honra,  atirando  a  cul- 
pada ao  meio  da  sociedade,  como  quem  diz:  «ahi 
vae  uma  mulher  que  eu  podia  salvar  da  extrema 
miséria. . .  Levem-n'a  á  ultima  paragem  do  vicio !» 

—  Não  que  eu  quiz  salval-a  —  acudiu  o  doente  — 
mas  ella  não  quiz.  Dava-lhe  que  comer  n'um  con- 
vento, e  a  doida  sahiu  pela  porta  fora,  descompon- 
do os  meus  amigos. 

—  E  foi  viver  com  o  amante,  ou  esse  mesmo  a 
abandonou  ? 

— Isso  não  sei.  Eu  o  amante  não  lh'o  conheci,  nem 
sei  quem  fosse. 

—  Não  sabe  ? !  então  com  que  provas  se  julgou 
trahido  ?'. . .  Desculpe. . . 

—  As  provas  foi  ella  gastar  dinheiro  grosso  sem 
dizer  no  que  :  disse  que  o  dera,  e  acabou-se.  Pois 
a  quem  dava  ella  o  dinheiro  ? 

—  Era  velha  sua  mulher  ? 

—  Nada :  era  uma  rapariga  bonita,  bonita  d'uma 


i58  Os  brilhantes  do  brasileiro 

vez.  Não  tinha  de  seu;  apaixonei-me  pelo  palmo  da 
cara,  e  casei.  Vossa  senhoria,  que  é  do  Porto,  nun- 
ca ouviu  nomear  um  general  chamado  Noronha  ? 

—  Noronha  ?  í — exclamou  Francisco  José  da  Cos- 
ta, cravando  os  olhos  pávidos  no  brasileiro. 

—  Sim,  um  general  Noronha  que  vivia  em  Ponte 
do  Lima. . .  Minha  mulher  era  filha  d'elle. . . 

—  Como  se  chama  essa  senhora  ?  —  interrompeu 
o  facultativo  respirando  difficilmente. 

—  Angela. 

Francisco  Costa,  espaço  de  três  minutos,  ficou 
n'um  espasmo  e  torpor  de  pensamento  e  acção.  Aos 
olhos  do  brasileiro  aquelle  ar  espantado  significava 
estar  o  doutor  recordando-se  de  ter  conhecido  o  ge- 
neral ou  a  filha. 

—  Talvez  que  o  sr.  doutor  visse  alguma  vez  mi- 
nha mulher  no  Porto. . .  — proseguio  Hermenegil- 
do—  eu  morava  na  rua  do  Bispo,  n'uma  casa  de 
azulejo  de  quatro  andares...  Vossa  senhoria  está 
incommodado  I  —  disse  o  doente,  notando  extraor- 
dinária mudança  no  rosto  do  medico  —  Parece  que 
está  a  infiar ! . . . 

—  Não,  senhor.  Estou  bom...  estava  a  ouvil-o, 
e  a  lembrar-me. . .  que  não  me  é  estranho  o  nome 
do  general  e  da  filha. . .   D'onde  era  sua  senhca  ? 

—  De  Vianna,  cuido  eu. 

—  Mas  eu  tinha  ouvido  contar  que  uma  filha  do 
general  Noronha  casara  na  provincia  do  Minho... 

—  Foi  comigo ;  eu  estava  então  na  minha  quinta 
dos  Choupos.  Lá  é  que  foi  dar  a  tal  senhora  por- 
que era  amiga  de  minha  irmã,  que  tinha  estado  no 
mesmo  convento   com  ella,  e  eu  fiz  a  grande  bur- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i5g 

ricada  de  casar,  sem  pedir  informações  a  ninguém. 

—  E  depois  mudaram  para  o  Porto  ?  em  que  an- 
no  ? 

—  Em  1840. 

—  E  foi  no  Porto  que  o  sr.  Fialho  teve  rasÕes 
para  suspeitar  da  lealdade  de  sua  senhora  ? 

—  Sim,  senhor. 

—  Mas  já  me  disse  que  não  conhecia  o  amante, 
nem  tinha  a  certesa  de  que  ella  o  tivesse... 

—  Lá  conhecel-o,  não  conheci ;  mas  a  quem  dava 
ella  o  dinheiro?  A  minha  casa  não  ia  homem  de 
suspeita.  Ella  não  se  visitava  com  fôlego  vivo.  Mu- 
lheres d'estas  de  mexericos  não  me  punham  lá  o 
pé  das  escadas  acima,  a  não  ser  a  costureira  de  lon- 
ge a  longe.  Não  sei ;  o  que  sei  é  que  descobri  que 
ella  vendia  os  brilhantes  d'uma  pulseira  que  lhe  dei, 
e  distribuia  o  dinheiro. 

—  Quantia  grande  ? 

—  Que  eu  saiba  i:65o55iooo  réis.  Não  era  pelo  di- 
nheiro, que  isto  cá  a  mim  não  me  fazia  mossa;  a 
minha  questão  era  saber  a  quem  deu  ella  este  ca- 
pital. Isso  é  que  nem  Deus  nem  o  diabo  foram  ca- 
pazes de  lhe  tirar  do  bucho. 

Deteve  se  Francisco  a  pensar  n'aquella  quantia 
de  dinheiro  confrontando-a  com  outra  que  recebera 
durante  o  tempo  da  sua  formatura.  O  homem  tinha 
momentos  de  cuidar-se  allucinado  ou  adormecido. 
A's  vezes,  a  anciã  com  que  perguntava  e  o  alvoroço 
com  que  ouvia  as  respostas,  inclinavam-no  sobre  a 
cara  do  enfermo,  que  tinha  rasão  de  se  espantar  da 
torva  inquietação  do  doutor. 

—  Queira  dizer-me. . . — voltou  Francisco  e  sus- 


i6o  Os  brilhantes  do  brasileiro 

teve-se  embaraçado  com  a  torrente   de  perguntas 
que  lhe  sossobravam  o  espirito. 

—  O  quê?  —  perguntou  Hermenegildo,  que  pare- 
cia folgar  n'estas  confidencias  com  o  seu  medico. 

—  Já  me  disse  que  a  sua  casa  ia  apenas  uma  cos- 
tureira. . . 

—  E'  verdade. . . 

— 'E  essa  costureira . . . 

Susteve-se  outra  vez  o  interrogador,  receando  de- 
masiar-se  em  averiguações  que  deviam  parecer  des- 
necessárias ao  marido  de  Angela. 

—  Da  costureira  não  desconfiava  eu,  nem  me  im- 
portava que  ella  lá  fosse;  mas  olhe  que  não  deixei 
de  indagar  da  vida  d'ella. 

—  E  soube  alguma  coisa  ? 

—  Soube  que  era  uma  viuva  honrada  e  que  vivia 
com  um  irmão.  Chamava-se  ella  Joanna,  e  por  si- 
gnal  que  não  era  má  fatia!  — accrescentou  elle  pis- 
cando o  olho  direito  e  tregeitando  uma  careta  de 
sybarita. 

O  facultativo  callava-se  a  intervallos  grandes.  Dir- 
se-hia  que  o  nojo  crescendo,  subindo,  impolando-se 
do  peito  acima  lhe  impedia  a  falia. 

De  súbito,  perguntou  com  a  fronte  avincada : 

—  E  para  onde  foi  a  sr.*  D.  Angela  ? 

—  Não  sei:  os  meus  amigos  ainda  a  viram  sahir 
com  a  criada  pela  rua  acima,  tomar  para  o  largo  do 
Laranjal,  e  não  souberam  mais  nada.  Eu,  passadas 
duas  semanas,  fiz-me  de  vela  para  aqui. 

—  Mas  não  pôde  o  sr.  Fialho  conjecturar  onde 
ella  iria  ter  ? 

—  Quem  sabe  lá  ?  I 


Os  brilhantes  do  brasileiro  16 1 

—  Ella  sahiu  sem  dinheiro  ? 

—  Acho  que  sim.  Não  me  faltou  nada  de  casa. 
Tinha  lá  umas  jóias,  que  eram  da  mãe,  e  deixou-as. 

—  Então  sahiu  em  circumstancias  de  pedir  es- 
mola ? 

—  Esmola  ? . . .  acho  que  não . . . 

—  Por  que  acha  que  não?...  Uma  senhora  po- 
bre, educada  como  fidalga,  não  exercitada  em  qual- 
quer trabalho,  de  repente  privada  de  meios,  e  indi- 
gente, que  faria  ? 

—  Não  sei. . .  lá  se  avenha. . . 

—  Supponha  o  sr.  Fialho  que  D.  Angela  de  No- 
ronha, em  vez  de  trabalhar,  porque  não  sabia,  e  em 
vez  de  mendigar,  porque  não  podia,  começou  a  ven- 
der-se  porque  era  bonita  ! . . .  Se  assim  aconte- 
cesse. . . 

Demorou-se,  instantes,  suíFocado  Francisco,  e  re- 
petiu : 

—  Se  assim  acontecesse. . .  ^ 

—  O  senhor  parece  que  está  a  lagrimejar  ?  I 

—  Estou,  não  ha  duvida. . .  por  que  me  compa- 
deço d'essa  pobre  senhora. . . 

—  Compadece  ?. . .  Então  acha  que  é  bonito  uma 
mulher  deshonrar  um  homem  de  bem  ? 

—  Quem  é  o  homem  de  bem  ? 

—  Sou  eu . . . 

—  O  sr.  Fialho  ?  I 

—  Então  vossa  senhoria  duvida  ? ! 

—  Não  duvido.  Tenho  •  a  certesa  de  que  o  se- 
nhor é . . . 

A  cadeira  de  Francisco  Costa  tremia  em  vibra- 
ções.  Ao    brasileiro   augmentou-se-lhe   o   espanto, 


102  Os  brilhantes  do  brasileiro 

quando  viu  o  doutor  erguer-se  de  salto  e  lançar 
mão  do  chapéo. 

—  Vae-se  embora,  doutor  ? ! . . .  O  senhor  não  vae 
bom  l . . .  Que  é  lá  isso  ?  venha  cá  ! 

—  Lembrei-me  que  tenho  doentes,  e  a  hora  de 
os  visitar  já  passou,  mas  volto  logo  —  respondeu  o 
medico,  examinando  o  relógio,  sem  ver  a  hora. 

—  Nada...  vossa  senhoria  sabe  alguma  coisa  de 
minha  mulher. . .  Aqui  ha  historia. . . 

—  Sei!  —  disse  Francisco  Costa,  encarandoo  de 
lado  quando  se  retirava  —  Sei  que  D.  Angela,  até 
ao  momento  em  que  o  senhor  a  expulsou  de  casa, 
foi  pura  e  honrada  esposa. 

—  Venha  cá  !  como  sabe  isso  ? !  —  bradou  Fialho 
sentando-se  no  leito. 

O  medico  tinha  sabido. 

—  Aqui  ha  mandinga,  por  mais  que  me  digam  ! 
monologava  o  brasileiro,  apalpando  ao  mesmo  tem- 
po o  fígado  congestionado — Quem  diabo  disse  a  este 
sujeito  que  a  minha  mulher  estava  honrada  ?  E'  o 
primeiro  homem  que  me  diz  isto  1 . . .  Quero  saber 
este  negocio  como  é !  A'  tarde  vou  mandai  o  cha- 
mar. Se  elle  poder  provar  que  Angela  estava  in- 
nocente,  mando-a  procurar,  e  dou  lhe  uma  boa  me- 
sada, e  a  quinta  dos  Choupos.  Mas  onde  estará  ella 
a  esta  hora  ! . . . 

Meditou  uma  curta  pausa,  e  acrescentou : 

—  Ora  bolas!  qual  pura  nem  qual  cabaça  !.. . 
Se  ella  estivesse  innocente,  ia  pela  porta  fora  ?!... 

Hermenegildo  sentia-se  bem  disposto  para  jantar; 
mas  a  gallinha  injoava-o  já.  Pediu  a  Rosa  Catraia 
que  lhe  levasse  do  seu  jantar.  Comeu  uma  farta  ga- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i63 

mellada  de  carne  secca  com  feijão  preto,  bebeu  á 
proporção  vinho  de  Bordéus,  adoçou  os  bócios  com 
uma  tigella  de  maracujá,  e  estendeu-se  no  flácido 
colchão  para  sestear. 

Pouco  depois  rugia,  apanhando  os  refegos  do  es- 
tômago que  latejava,  e  contorcendo  se  sobre  o  fí- 
gado. Era  uma  cólica. 

Sahiram  os  criados  a  procurar  o  doutor  Gosta. 
Encontraram- no,  caminho  já  da  casa  de  Hermene- 
gildo Fialho. 

—  Estou  a  morrer,  se  me  não  accode !  —  excla- 
mou o  doente  escabujando  nos  braços  de  Rosa  Ca- 
traia. 

O  doutor  receitou,  ouvida  a  exposição  da  enfer- 
meira. Um  vomitório  enérgico  arrancou  das  caver- 
nas d'aquella  sentina  a  morte  involta  em  ondas  de 
feijão  preto. 

Estava  desafrontado,  mas  ardentemente  febril. 

O  doutor  examinou  attento  se  as  faculdades  in- 
tellectivas  do  doente  estavam  de  leve  alteradas  pe- 
lo accesso  febril.  Aprasivelmente  reconheceu  a  sa- 
nidade do  espirito  do  homem,  que  lhe  dizia  com 
voz  roufenha : 

—  Sempre  vossa  senhoria  é  um  grande  cirurgião! 
Palavra  de  honra,  que  eu  estava  a  espichar  d'esta ! 

Francisco  Costa  disse  á  concubina  que  sahisse  do 
quarto,  e  sentou-se  á  cabeceira  do  doente. 

—  Parece-lhe  que  estou  peor,  doutor?  —  disse  as- 
sustado o  brasileiro,  traduzindo  funestamente  o  as- 
peito severo  e  pensativo  de  Francisco. 

—  Não,  senhor.  Está  melhor.  Poderá  o  sr.  Her- 
menegildo ler  um  papel  que  eu  aqui  tenho  ? 


164  Os  brilhantes  do  brasileiro 

-—  Lêr  um  papel  ? !  que  papel  é  esse  ?  Posso  lêr 
perfeitamente. 

—  Leia. 

Fialho  recebeu  uma  meia  folha  de  papel  sellado, 
que  continha  o  seguinte  : 

Declaro  ew  abaixo  assignado  Hermenegildo  Fia- 
lho Barrosas,  negociante  que  fui  no  Porto,  e  actual- 
mente morador  no  Rio  de  Janeiro,  que  recebi  do  ci* 
rurgião  Francisco  José  da  Costa,  residente  na  mes- 
ma cidade,  a  quantia  de  um  conto,  seiscentos  e  cin- 
coenta  mil  réis,  fortes,  que  minha  mulher  7).  Angela 
de  Noronha  tinha  emprestado  a  Joanna  Costa,  irmã 
do  dito  cirurgião,  e  costureira  residente  no  Porto^ 
afim  de  com  esta  quantia,  recebida  em  diversas  par- 
celtas,  o  referido  cirurgião  poder  continuar  e  com- 
pletar a  sua  habilitação  para  curar,  E,  como  isto 
é  verdade,  pedi  ao  dito  Francisco  José  da  Costa  que 
este  fizesse  para  eu  assignar  na  presença  de  três 
testemunhas  que  são . . . 

Aqui  terminava  a  leitura. 

Hermenegildo  sentara-se  espantado  no  leito,  ao 
passo  que  Francisco  tirava  d'uma  carteira  um  mas- 
so  de  notas,  e  lhe  dizia  serenamente : 

—  Torne  a  lêr,  se  quizer,  sr.  Fialho  ;  mas  não  me 
faça  perguntas ;  por  que  tudo  que  tenho  a  respon- 
der-lhe  está  ahi.  Eu  sou  o  irmão  da  viuva  honrada 
que  ia  a  sua  casa.  Fui  um  moço  pobre  que  a  sr.* 
D.  Angela  conheceu  bom  e  digno  de  ser  estimado 
na  mocidade  de  ambos.  Recebi  d'essa  virtuosa  se- 
nhora a  esmola  da  minha  formatura,  ignorando  a 
quem  a  devia.  Agora  posso  pagal-a  \  e  a  vossa  se- 
nhoria, que  diz  ter  sido  roubado  por  sua  esposa,  é 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i65 

a  quem  de  direito  me  cumpre  pagar.  Falta  a  indi- 
cação das  testemunhas.  Permitta-me  que  eu  chame 
três  dos  seus  visinhos  aos  quaes  o  sr.  Fialho  lerá 
esta  quitação,  e  perante  os  quaes  me  fará  a  mercê 
de  assignar,  contada  a  quantia  que  deixo  para  ser 
examinada. 

—  Mas  explique-me  isto!  —  bradava  o  enfermo. 

—  Está  explicado,  senhor ! 

—  Então  minha  mulher  estava  innocente  ?  por  que 
o  não  disse  ella  ?  por  que  não  contou  ella  a  histo- 
ria que  o  doutor  me  contou  agora  ? 

—  Não  sei.  Confiaria  pouco  na  sua  generosidade, 
senhor.  Seria  surprehendida  de  modo  que  não  po- 
desse  justificar-se.  Emfim,  não  sei,  nem  posso  de- 
morar-me.  Vou  chamar  as  testemunhas. 

—  Mas  eu  não  quero  este  dinheiro!  —  clamou 
Hermenegildo. 

—  Rasgue  as  notas  depois  de  ter  assignado  o  re- 
cibo. 

E  desceu  precipitadamente  as  escadas,  subindo-as 
logo  com  as  três  testemunhas. 

Fialho  não  pôde  lêr  a  quitação,  de  inquieta  e  af- 
flicta  que  se  lhe  espojava  a  alma,  como  inojada  do 
corpo.  Gosta  pediu  a  uma  das  testemunhas  que  lesse 
e  a  outra  que  contasse  as  notas.  Depois,  chegou  a 
penna  ao  doente  que  assignou  com  a  mão  convulsa. 

As  testemunhas  sahiram. 

—  Se  vê  que  eu  morro  —  tartamudeou  Hermene- 
gildo —  diga-m'o,  que  quero  fazer  testamento,  e  dei- 
xar alguma  coisa  a  minha  mulher,  se  ella  ainda  for 
viva. 


i66  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Não  sei  se  morre,  sr.  Fialho.  Angela  de  Noro- 
nha, se  vive,  não  acceitará  a  sua  herança. . . 

—  Por  quê  ?  então  não  hade  acceitar  ? . . . 

—  Angela  de  Noronha,  se  viver,  terá  metade  do 
meu  pão.  O  que  D.  Angela  acceitaria  de  seu  mari- 
do está  aqui. . .  E'  este  papel  que  a  salvará  da  in- 
fâmia que  o  senhor  lhe  associou  á  pobresa,  para  que 
o  mundo  nem  misericórdia  houvesse  d'ella.  Se  a  in- 
feliz tiver  cahido  á  ultima  deshonra,  sr.  Fialho,  em 
tal  caso  eu  irei  ainda  procural-a  de  abysmo  em  abys- 
mo,  e  dizer-lhe  que  fiz  o  que  pude  em  desafifronta 
do  seu  nome.  Adeus. 

Francisco  Costa  sahiu  enchugando  as  lagrimas. 

A  cara  de  Hermenegildo  apenas  ressumava  o 
suor  mal  enchuto  das  agonias  da  cólica,  sobre  a 
amarellidão  nauseabunda  da  icterícia. 


XXÍ 


Morre  Hermenegildo 


—  Esta  é  de  cabo  de  esquadrai — dizia  elle,  ho- 
ras depois,  aos  amigos  que  o  confortavam — E  quem 
deu  direito  a  minha  mulher  de  emprestar  sem  mi- 
nha ordem  i:65oí5í)0oo  réis  ao  irmão  da  costureira? 
Que  me  importa  a  mim  que  élle  fosse  boa  pessoa 
ou  que  fosse  um  pandilha  sem  beira  nem  leira? 

—  Você  tem  rasão  —  dizialhe  um  primo  carnal 
de  Athanasio  —  Lá  pr'o  caso  de  sua  mulher  andar 
mal,  andou;  e,  se  era  honrada,  não  o  parecia.  Por 
exemplo,  eu  vou  em  casa  da  mulher  ci'uni  sujeito, 
e  peço-lhe  dinheiro.  Ella  m*o  empresta,  e  se  escon- 
de do  marido ;  que  heide  dizer  eu  ?  Sim,  tem  rasão 
você  de  não  dar  a  orelha,  sr.  Fialho. 

Estas  clausulas  pareceram  irrespondiveis  ao  doen- 
te. E,  de  feito,  a  natureza  tinha  esclarecido  esta  fa- 
mília dos  Athanasios  com  grandes  lumes  de  rasão 
natural. 

Por  feição  que  Hermenegildo  ratificou  não  só  os 


j68  Os  brilhantes  do  brasileiro 

seus  anteriores  juízos  sobre  os  irregulares  costu- 
mes de  Angela ;  mas  também  introu-se  da  descon- 
fiança de  ter  apanhado,  quando  menos  o  esperava, 
o  amante  d'ella.  Quer-nos  parecer  que  aquella  per- 
versíssima alma  raciocinasse  actuada  por  influencias 
de  fígado  e  outras  entranhas  que  principiavam  a 
engorgitar-se. 

O  restante  do  dia  passouo  pouco  febril,  e  por 
isso  mesmo  com  certa  energia  de  espirito  que  des- 
tampava em  esfusiadas  de  protervias  contra  a  es- 
posa, sem  resalvar  a  probidade  do  cirurgião. 

De  noite  exasperaram-se-lhe  as  dores  hepáticas, 
as  afflicções  do  estômago,  a  dyspnea,  e  o  queimar 
de  febre.  Ao  romper  do  dia,  pediu  a  brados  que 
lhe  chamassem  o  doutor  Gosta. 

Informou-se  Francisco  com  o  portador  sobre  o 
estado  do  doente,  e  despediu-o. 

D'ahi  a  pouco,  outro  notável  medico  enviado  por 
Francisco  Costa,  desculpando  o  collega,  offerecia 
os  seus  serviços. 

A  doença  progrediu  sem  intermittencias  de  re- 
pouso nos  cinco  dias  seguintes. 

Hermenegildo  pegou  a  dar  gritos  que  o  doutor 
o  mandara  envenenar  na  tisana  da  quina.  Os  médi- 
cos, chamados  um  de  pós  outro,  iam  cedendo  o 
passo  ao  ultimo,  indignados  da  aleivosia  com  que 
o  estúpido  enfermo  calumniava  o  illustre  caracter 
de  Francisco  Costa  e  o  do  seu  substituto. 

A  doença  entrou  no  decimo  quarto  dia,  com  mor- 
taes  symptomas.  Aquella  massa  reagia  com  phre- 
nesi  ao  esphacellar  da  morte.  O  gemer  d'um  doente 
vulgar  era  em  Hermenegildo  um  rugir  ferocíssimo. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i6g 

Rosa  Catraia  ganhou-lhe  medo,  e  fugia  da  beira  do 
leito  receiosa  de  que  o  legado  do  moribundo  fosse 
algum  d'aquelles  murros  que  fendiam  o  espaldar 
do  leito.  Recolhida  em  sua  dor,  a  choruda  alvéola 
das  ribeiras  de  Barrosas  começou  a  cobrir  com  as 
azas  os  brilhantes  e  notas  que  se  lhe  depararam  na 
sua  irrequieta  angustia.  N'estes  trances  foi-lhe  gran- 
de auxiliar  um  criado  da  casa,  parente  em  quarto 
gráo  do  patrão,  rapazola  de  espáduas  anchas,  que 
promettia  rehabilitar  os  créditos  de  Rosa  por  meio 
d'um  decente  matrimonio,  logo  que  seu  patrão  e 
primo  «desse  a  casca»  phrase  lyrica  e  pittoresca  da 
Catraia. 

Assim,  pois,  que  o  ultimo  assistente  declarou 
perdidas  as  esperanças  de  cura,  o  primo  de  Atha- 
nasio  começou  de  arrebandar  os  livros  e  papeis  do 
moribundo — cuidado  que  lhe  tinha  sido  sobre  modo 
recommendado  do  Porto,  logo  que  Hermenegildo 
adoecesse  gravemente.  Notou  o  arrecadador  dos  li- 
vros commerciaes  que  os  haveres  do  moribundo, 
superiores  a  duas  centenas  de  contos,  estavam  em 
poder  de  Pantaleão,  de  Joaquim  António,  e  de  seu 
primo  Athanasio  José,  repartidos  em  avultadas  som- 
mas,  das  quaes  Plalho  tinha  cobrado  as  declarações 
encontradas,  e  lavradas  com  sufíicientes  solemnida- 
des  legaes.  Este  quarto  ladrão  que  descobria  os 
três  do  Porto  considerou- se  o  melhor  co-herdeiro 
da  herança  porque  desde  logo  computou  a  percen- 
tagem a  auferir. 

Um  conhecido  do  agonisante,  levado  de  escrú- 
pulos, entrou-lhe  ao  quarto  com  o  prior  da  fregue- 
zia,  homem  de  respeitáveis  cans,  e,  na  serenidade 


/jo  Os  brilhantes  do  brasileiro 

límpida  do  rosto,  um  como  mensageiro  e  núncio 
da  misericórdia  divina. 

Hermenegildo  encarou  n'elle  com  assombro,  e 
regougou  a  trancos  de  voz  cavernosa: 

—  Vá-se  embora,  que  eu  não  morro  d'esta  vez. 

—  Assim  o  permittirá  Deus— respondeu  o  sacer- 
dote com  grave  compostura — mas  os  benefícios  dos 
sacramentos  não  utilisam  somente  aos  que  vão  á 
presença  do  Senhor. 

—  Não  me  conte  historias — tartamudou  o  brasi- 
leiro, roiando-se  de  modo  que  lhe  virou  as  costas. 

—  Meu  irmão  —  tornou  o  sacerdote  de  Jesus  — 
veja  se  tem  na  sua  alma  offensas  a  perdoar,  ou 
ódios  de  que  peça  perdão.  Quando  Deus  for  ser- 
vido chamal-o  a  contas,  a  sua  alma  não  poderá 
voltar  as  costas  á  face  do  supremo  juiz. 

—  Não  me  matem! — rugiu  Hermenegildo,  bara- 
fustando. 

O  padre  quedou-se  a  contemplar  de  braços  cru- 
zados e  o  coração  em  Deus  aquelle  espectáculo, 
supplicando  graças  para  rebeldia  tão  estranha  na 
suprema  hora. 

A  graça  divina  esquivou  se.  Contra  a  benigna 
theologia  de  bonissimos  casuistas,  vivo  persuadido 
que  Lúcifer  estimaria  que  certas  almas,  á  ultima 
hora,  limpas  pela  contricção,  se  guindassem  á  glo- 
ria, afim  de  lhe  não  sujarem  o  inferno. 

O  sacerdote  retirou-se,  quando  viu  que  a  sua 
presença  sobre-affligia  o  doente. 

Era  meia  noite.  D'esta  hora  até  ás  cinco  da  ma- 
nhã Hermenegildo  pediu  agua  já  nos  demorados 
paroxismos,  e  ninguém  se  abeirou  do  seu  leito. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  iji 

Cinco  horas  vasquejou  sósinho,  e,  aos  primeiros 
assomos  do  dia,  rendeu. . .  a  alma. 

Rosa,  accordada  pelo  futuro  marido,  perguntou 
se  o  patrão  tinha  acabado. 

—  Acho  que  sim,  que  já  não  ouço  nada  —  disse 
o  criado,  e  foi  chamar  o  primo  de  Athanasio  para 
tomar  conta  de  algumas  arrobas  de  carne  em  pu- 
trefacção,  onde  estivera  uma  alma  «creada  á  ima- 
gem e  semelhança  de  Deus.» 

A  tolerância  divina  permitte  semelhantes  blasfé- 
mias. 


XXH 


Felicidade  snprema 


Em  abril  de  i85o,  Angela  e  JoannE^  sentadas  no 
quintalinho  de  sua  casa,  debaixo  d'uma  amendoeira 
florida,  ao  intardecer,  descançavam  do  trabalho  do 
bastidor  de  que  tiravam  bons  lucros  em  bordados 
de  ouro. 

Joanna,  embellesada  na  formosura  da  sua  amiga, 
dizia- lhe: 

—  Como  vossa  excellencia,  n^esta  pobresa,  ganhou 
o  que  tinha  perdido  na  opulência  da  sua  casa  !  E' 
bem  certo  que  a  felicidade  está  em  mui  pouco !  Eu 
a  temer  que  a  sr.*  D.  Angela  invelhecesse  n'estas 
estreitesas  da  nossa  casa,  e  não  se  habituasse  a 
isto ;  e  quiz  Deus  que,  em  dez  mezes,  eu  a  não 
visse  triste  senão  quando  veio  a  primeira  carta  do 
meu  Francisco. . . 

—  Pois  olhe,  minha  amiga,  eu  estava  agora  tris- 
te. .. 

—  Por  quê  ? !  Vi-a  callada ;  mas  cuidei  que  não 
era  tristesa. . . 


Os  brilhantes  do  brasileiro  iy3 

—  Era... 

—  E  é  segredo  ? 

—  Não,  minha  amiga . . .  Segredos  quando  eu  não 
posso  distinguir  as  nossas  almas  uma  da  outra. . . 
Eu  lhe  conto...  Estava  a  dizer  comigo :  o  meu  futu- 
ro qual  será  ?  Tenho  vinte  e  nove  annos.  Se  me  re- 
cordo do  que  passei,  imagino  que  a  vida  já  é  longa 
e  deveria  estar  por  pouco ;  mas,  diante  de  mim,  ve- 
jo os  annos  demorados  d'aqui  até  á  velhice,  até  aos 
sessenta  annos  da  nossa  Victorina  que  espera  ainda 
viver  até  os  oitenta.  Muito  se  vive  quando  se  soffre !... 
e  o  que  mais  espanta  é  que  nem  a  desesperação  in- 
funda um  sincero  desejo  de  morrer...  Aqui  estou  eu 
a  lastimar-me,  a  perguntar  o  que  hade  ser  de  mim, 
a  ver  a  precisão  de  se  acabar  esta  socegada  vida  que 
tenho;  e,  apesar  do  escuro  das  minhas  nenhumas 
esperanças,  desejo  viver. . .  para  quê? 

—  Deus  lh'o  irá  dizendo,  minha  se.nhora.  Se  eu 
dissesse  á  minha  amiga  que  esperasse  resignada,  se- 
ria uma  indiscreta  conselheira.  Quem  pôde  dar  lições 
mais  sublimes  de  paciência  que  a  sr.*  D.  Angela  ? 

—  Paciência,  sim;  não  me  hade  abandonar  esta 
providencia  dos  infelizes... —  disse  Angela,  concen- 
trando-se    outra   vez   com   desacostumada   melan 
colia. 

—  Então  que  é  isso  ?  —  disse  meigamente  Joanna 
tocando-lhe  nas  mãos  que  ella  inclavinhara  amparan- 
do a  fronte. 

—  E  seu  irmão  ?  —  disse  Angela  como  se  a  per- 
gunta sahisse  de  um  dialogo  mental. 

—  Meu  irmão?  o  quê,  minha  amiga? 

—  Não  o  heide  vêr  mais  ? 


I'j4  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Por  que  não,  sr.*  D.  Angela?  pois  que  rasão 
ha  para  que  o  não  veja  ? 

—  Quando  a  felicidade  do  coração  se  tornou  im- 
possivel . . . 

—  Impossível,  não.  Vossa  excellencia  quiz  ser  n'ou- 
tro  tempo  esposa  de  meu  irmão.  Quem  sabe  se  um 
dia  poderá  mais  livremente  dispor  da  sua  vontade  1... 
Seu  marido  tem  bastante  edade. . . 

—  Eu  era  n'esse  tempo  a  mulher  com  o  prestigio 
que  se  desfez...  Esse  homem,  que  me  prendeu  ao 
remorso  e  vergonha  de  me  deixar  vencer  da  com- 
paixão e  dos  baixos  pensamentos  de  ser  rica,  egua- 
lou-me  a  qualquer  mulher  vulgar...  Se  eu  desmere- 
ci aos  meus  próprios  olhos,  authorisei  todo  o  mun- 
do a  considerar-me  aviltada. . . 

—  Não  diga  isso,  minha  senhora... — atalhou 
Joanna,  tomando-lhe  as  mãos  caridosamente  —  Pois 
não  vê  n^essas  sinceras  confissões  de  meu  irmão 
como  elle  a  amava  ?. . . 

—  Amava  a  saudade ;  não  era  a  mulher;  amava  o 
passado  e  o  que  lá  se  perdeu.  A'  luz  que  então  me 
via  não  poderá  vêr-me  jamais.  Eu  heide  ser  sempre 
a  esposa  ou  a  viuva  d'um  homem  que  me  lançou 
de  si  com  despreso...  E,  depois,  a  gratidão  das  al- 
mas nobres,  como  a  de  Francisco,  pôde  leval-o  a 
dobrar-me  o  joelho  com  admiração ;  mas  com  amor 
nunca.  Eu  sei  isto,  adivinho  isto.  Se  eu  vendesse  a 
casinha  única  onde  me  abrigasse  para  lhe  melhorar 
a  sorte  d'elle,  essa  dedicação  sublime  dupUcaria  o 
meu  direito  a  ser  amada ;  mas  eu,  quando  bem  pen- 
so no  que  fiz,  duvido  que  me  louvem  os  estranhos, 
e  sinto  esfriar  a  veheraencia  de  gratidão  n'aquelle 


Os  brilhantes  do  brasileiro  iy5 

mesmo  por  amor  de  quem  me  pareceu  louvável  o 
acto  que  pratiquei.  Mas  eu  não  queria  que  me  agra- 
decesse ;  queria  até  que  elle  ignorasse  sempre,  para 
eu  não  ficar  desdourada.  Vê  por  que  tantas  vezes 
lhe  tenho  pedido  que  não  me  descubra  ?  E  a  minha 
amiga  sempre  a  querer,  sempre  a  instar  que  eu  a 
deixe  contar-lhe  tudo.  Oh  1  não  o  faça,  por  piedade 
lhe  peço  que  não  lh'o  diga !  Se  elle  vier  um  dia  a 
Portugal,  basta  que  lhe  faça  saber  que  eu  não  fui  má 
esposa...  que  fui  calumniada ;  mas  que  não  ha  no 
mundo  quem  possa  provar  que  eu  meditei  um  ins- 
tante em  justificar  um  crime  com  os  exemplos  de 
meu  marido.  Assim  posso  ser  amada...  e  eu  queria 
sêl-o,  queria,  minha  amiga,  porque  dos  dezeseis  aos 
vinte  e  nove  annos,  vão  milhares  de  dias  e  noites 
em  que  nunca  esqueci  seu  irmão.  Houve  um  tempo 
em  que  o  julguei  mal,  porque  Deus  lhe  dera  a  vir- 
tude que  esmaga  o  coração,  porque  o  meu  desatino 
queria  ser  excedido  pela  paixão  do  homem  que  me 
obrigava  á  voluntária  pobresa,  ás  injurias  de  meus 
parentes,  ao  perdimento  de  um  grande  património 
e  da  herança  de  um  nome  nobre.  Que  me  importa- 
va isso  ?  Mas  seu  irmão,  minha  amiga,  tinha  rique- 
sas  superiores :  a  santificação  da  virtude,  uma  coi- 
sa que  se  adora  de  joelhos  depois  que  se  tem  sido 
desgraçada,  e  se  lidou  seis  annos  com  um  homem 
de  condição  vil. 

N'este  momento,  Victorina  assomou  n'uma  janel- 
la,  dizendo  que  estava  um  homem  perguntando  pela 
dona  da  casa. 

—  Será  carta  do  Brasil  ?  —  perguntou  Joanna. 

—  Não  é,  —  disse  baixinho  Victorina  —  é  uma  pes- 


i^^G  Os  brilhantes  do  brasileiro 

soa  asseada  com  barbas  grandes.  —  E  voltando-se 
subitamente  soltou  um  grito,  e  disse  para  dentro : 

—  O  senhor  entra  pela  casa  assim,  sem  esperar 
resposta  ? 

O  sujeito  sorriu-se  á  indignação  da  velha,  que  não 
reconheceu,  acercou-se  da  janella,  debruçou-se  para  o 
quintal,  e  cravou  espantados  olhos  nas  duas  senhoras. 

—  E'  elle!  é  meu  irmão!  —  exclamou  Joanna. 
~  Oh  minha  querida  senhora,  é  elle  ! . . . 

E  correu  para  casa;  mas  Angela  ficara  immovel  a 
olhar  para  Francisco,  e  elle  immovel  apoiado  no 
peitoril  da  janella,  com  os  olhos  fixos  em  Angela. 

A  irmã  abraçava-o,  e  elle  beijando-a  na  fronte, 
murmurou : 

—  Aquella  é  Angela,  não  é  ? ! 

—  Sim,  meu  filho,  pois  não  é  ella  o  mesmo  an- 
jo?! Vamos  buscal-a,  depressa,  que  está  sem  cor... 

E  desceram  rapidamente,  e  chegaram  já  quando  a 
esmaecida  senhora  caminhava  a  tardos  passos  para 
casa. 

Costa  offereceu-lhe  a  mão  convulsa.  Angela  enca- 
rou-o  muito  amoravel,  apertou-lhe  a  mão,  e  disse 
com  voz  magoada : 

—  E'  a  primeira  vez. . . 

E  carregaram-se-lhe  de  lagrimas  os  olhos. 

Depois,  abraçou-se  em  Joanna,  apoiando-lhe  a  fa- 
ce no  hombro. 

Francisco  permaneceu  silencioso,  abafado,  n'um 
modo  de  existir,  que  seria  o  preludio  da  demência, 
se  durasse  muito,  ou  a  congestão  se  não  desafogas- 
se no  pranto  involuntário. 

—  Dá-lhe  o  braço,  Francisco... —  disse  Joanna  — 


Os  brilhantes  do  brasileiro  ijj 

Elle  parece  que  não  accredita  vêl-a  aqui,  minha 
filha  —  continuou  ella,  sorrindo. 

—  E  desde  quando  ?  —  perguntou  elle,  tomando  o 
braço  de  Angela. 

—  Desde  quando  está  aqui?  —  verificou  a  irmã, 
não  percebendo  bem  a  pergunta. 

—  Desde  que  não  tenho  casa  —  respondeu  a  hospe- 
da sorrindo  —  desde  que  precisei  da  caridade  da  mi- 
nha amiga  de  infância,  e  da  sua  beneficência,  sr. 
Gosta. 

Occorreu  Victorina  a  dar  uns  tons  de  festa  á  che- 
gada de  Francisco,  pasmando-se  n'elle,  nas  grandes 
barbas,  e  na  espantosa  mudança  que  fizera,  e  no 
medo  que  ella  tivera  de  que  fosse  um  salteador, 
quando  o  viu  romper  por  alli  dentro. 

Entraram  para  a  saleta  do  trabalho,  onde  esta- 
vam armados  dois  bastidores. 

—  Aqui  tens  a  nossa  officina  —  apontou  a  riden- 
tissima  Joanna  —  Temos  feito  progressos  e  lucros 
admiráveis :  bordamos  a  ouro.  A  sr.*  D.  Angela, 
em  dez  mezes,  ganhou  quarenta  e  duas  moedas. 

—  Está  vossa  excellencia  aqui  ha  dez  mezes  ?  — 
perguntou  Gosta  á  hospeda. 

—  Penso  que  sim  —  confirmou  Angela. 
Francisco,  confrontando  as  datas,  concluiu  que 

tendo  chegado  ao  Rio  Hermenegildo  oito  mezes  an- 
tes, Angela  se  acolhera  a  sua  irmã  logo  que  sahiu 
de  casa.  Exultou,  luzia-lhe  nos  olhos  o  muito  sol 
que  se  lhe  abrira  na  alma. 

E  a  ponto  vem  dizer-se  que  o  confidente  ultimo 
do  brasileiro,  desde  que  ao  longe  premeditou  a  re- 
dempção  de  Angela,  conjecturara  que  teria  de  pro- 

12 


1^8  Os  brilhantes  do  brasileiro 

cural-a  na  ladeira  onde  vulgarmente  pobresa  e  for- 
mosura impellem  a  mulher,  nascida  sem  a  aureola 
santificante :  —  aureola  de  que  já  hoje  ninguém  vê 
resplendor,  nem  os  romancistas  propriamente  se 
exercitam  n'esse  género  de  inventiva,  temerosos  do 
descrédito  de  phantasticos  e  inverosímeis. 

Do  muito  martelar  n'esta  hypothese  péssima,  bem 
que  trivialmente  realisada  no  máximo  numero  de 
lances  análogos,  causou-se  que  o  lapso  da  desampa- 
rada senhora  para  os  braços  d'outro  homem,  ama- 
do ou  aborrecido,  era  a  esperança  infernal  que  preoc- 
cupava  o  auctor  dos  Sonhos,  aquelle  olympico  vi- 
dente agora  demudado  em  pessimista,  com  as  asas 
da  sua  poesia  mortas,  e  o  espirito  prostrado  nas 
baixesas  vulgares  d'este  mundo.  Figurou-se-lhe,  por 
desventura,  que  uma  mulher,  que  aspirara  o  am- 
biente de  Hermenegildo  Fialho,  devia  ter  impeço- 
nhado  o  coração,  apagada  a  flamma  celestial  do  es- 
pirito, e  desbotadas  as  cores  prismáticas  por  onde 
via  o  bom,  o  bello,  o  santo  da  creação,  antes  de 
tocar  a  hediondez  de  tal  marido.  Duas  angustias, 
pois,  a  um  tempo  o  navalhavam ;  se  a  encontraria 
amante  d'outrem,  e  para  si  perdida ;  se  victima  da 
necessidade  na  vulgar  degradação  de  escrava,  e 
perdida  também  para  elle. 

O  encontral-a,  por  tanto,  em  companhia  de  sua 
irmã  causara  aquelle  intorpecimento  de  espirito  e  pa- 
lavra que  parecia  irmanar-se  com  a  indifferença,  e 
até  com  a  surpresa  desagradável.  Depois,  porém, 
que  se  afez  ao  ar  da  felicidade,  e  os  seus  olhos  po- 
deram  supportar  a  luz  inesperada,  Francisco  trans- 
figurou-se,  as  lagrimas  venceram  a  represa,  os  de- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  ijg 

zoito  annos  refloriram ;  e,  de  súbito,  Angela,  que 
não  intendia  o  frio  silencio  d'elle,  sentiu-se-lhe  aper- 
tada nos  braços,  e  beijada  nas  faces  que  ardiam  dos 
beijos,  das  lagrimas  e  do  pudor. 

—  Eu  vinha  procurar-te,  Angela  !  —  balbuciou 
Francisco  —  mas  Deus  não  quiz  que  eu  imaginasse 
a  possibilidade  de  te  encontrar  ao  lado  da  minha 
santa  irmã.  Eu  tinha  soffrido  muito,  e  a  recompensa 
devia  ser  esta. . . 

Angela  abaixou,  o  rosto,  e  pensou  confusamente 
na  estranbesa  d'este  trance. 

Gosta,  voltando  em  si,  compenetrou-se  do  pejo 
de  Angela,  e  disse : 

—  Eu  beijei  a  tua  face,  Angela,  por  que  não  ha 
consideração  que  te  obrigue  a  corar.  Teu  marido 
morreu. 

—  Morreu  ? !  —  conclamaram  as  duas  senhoras,  e 
cm  ambas  o  ar  da  physionomia  não  revelava  senti- 
mento que  pedisse  lucto  immediato.  Os  olhos  de 
Angela  não  tinham  sombras  de  funéreos ;  o  sorriso 
de  Joanna  iriava  as  cores  azues  e  escarlates  d'um 
vestido  de  gala.  E,  se  n'este  conflicto  pairasse  idéa 
triste,  bastaria  um  destempero  de  Victorina  para 
destruir  o  effeito  lúgubre  da  noticia.  Quando  Fran- 
cisco proferiu  teu  marido  morreuy  a  criada,  que  es- 
tava na  cosinha,  correu  á  saleta  exclamando : 

—  Ainda  bem  I  ainda  bem  ! 

E  chorava  de  alegria,  como  nunca  ninguém  cho- 
rou por  um  defuncto,  excepto  os  herdeiros,  paren- 
tes em  quarto  gráo. 

Cumpria  relatar  o  caso  infando.  Costa,  ommit- 
tindo  os  factos  essenciaes,  contou  que  conversara 


1^0  Os  brilhantes  do  brasileiro 

com  Hermenegildo  nos  primeiros  dias  da  doença, 
sobre  coisas  particulares  da  sua  vida;  mas,  como 
outros  doentes  fora  do  Rio  o  desviassem  do  enfer- 
mo, não  sabia  dizer  da  morte  senão  o  principal : 
isto  é,  que  morrera. 

Instado  a  referir  o  dialogo  que  tivera,  contou  que 
o  brasileiro  apenas  se  queixava  e  dava  como  prova 
da  deslealdade  de  Angela,  a  venda  d'uns  brilhantes, 
e  a  pertinácia  em  não  declarar  o  destino  dado  a 
r.65oj?ooo  réis. 

Foi. . .  — clamou  Joanna,  e  suspendeu-se,  quando 
encontrou  os  olhos  de  Angela  que  pareciam  recri- 
minal-a  com  profundíssima  dor. 

—  Foi,  . .  o  que  ?  —  pergunteu  Francisco  José 
da  Costa,  fingindo-se  embaçado  pelos  olhares  mú- 
tuos das  duas. 

—  Nada. . .  —  dissimulou  Joanna  —  Queria  eu  di- 
zer que  foi  uma  falsidade. 

—  Falsidade ! . . .  não  foi. . .  o  homem  não  men- 
tia ;  nem  tu,  Angela,  permittirás  que  a  nossa  Joan- 
na desminta  teu  defunto  marido  —  objectou  elle, 
sorrindo  ás  inquietas  visagens  da  viuva  —  E  conti- 
nuou :  —  Como  heide  eu  entrar  n'um  segredo  que 
teu  marido  não  penetrou  com  toda  a  sua  policia 
administrativa  e  espionagem  de  amigos !  Não  ouso, 
minha  amiga,  pedir  te  a  confidencia. . .  Teu  marido 
queria  morrer  convencido  que  o  seu  ouro  andava 
por  mãos  de  quem  lhe  disputara  e  vencera  a  alma 
da  esposa.  Parece  que  o  homem  não  se  dispensava 
d*esta  ignorância  para  poder  allegal-a  nas  contas 
dadas  ao  juiz  que  via  as  tuas  lagrimas,  minha  santa 
amiga.  Eu,  porém,  não  consenti  que  elle  se  preva- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i8i 

lecesse  da  sua  ignorância,  e  jurei  pela  minha  honra, 
que  tu  deras  de  esmola  i:65oáiooo  réis.  Mas  o  que 
tu  davas  de  esmola,  nas  mãos  do  beneficiado,  cha- 
mava-se  roubo  em  relação  a  teu  marido  que  era  se- 
nhor do  objecto  esmolado.  Fui  roubado  —  poderia 
elle  dizer  ao  juiz  supremo — Minha  mulher  estaria 
innocente  quanto  aos  deveres  de  esposa;  mas^  co- 
mo parte  do  meu  ser  mercantil^  defraudou-me  em 
i:65õitt>ooo  réis  —  quantia  que  elle  tinha  gravado 
no  cérebro  com  lettras  de  betume  ardente.  Ora, 
suppondo  mesmo  que  tinhas  sido  roubada,  por 
quem  quer  que  fosse,  e  illudida  em  tua  ardente 
caridade,  Angela,  restava-lhe  a  elle  a^possibilidade 
de  uma  restituição  que,  afinal,  dilucidasse  o  myste- 
rio  da  tua  innocencia.  Com  o  propósito  de  lhe  crear 
esperanças  de  ainda  ser  embolsado,  contei  lhe  eu, 
Joanna,  a  historia  d'aquellle  dinheiro,  que  te  foi  res- 
tituido,  quando  tu  nem  o  esperavas,  nem  tinhas  re- 
moto conhecimento  do  roubo.  Na  minha  historia  ha- 
via a  singular  coincidência  de  ser  a  restituição  do 
teu  roubo  egual  á  quantia  de  que  o  meu  doente  se 
queixava.  Notável  semelhança;  i:65o}Jooo  réis! 
dando-se,  de  mais  a  mais,  a  estranha  coisa  de  ser 
elle  roubado  ao  mesmo  tempo  que  tu  eras  indemni- 
sada,  minha  irmã  !  E,  não  pára  aqui  a  triste  coin-- 
cidencia !  os  brilhantes  eram  vendidos  por  quantias 
eguaes  áquellas  que  tu  ias  recebendo,  e  na  mesma 
occasião,  do  tal  sujeito  de  Vianna,  honrada  pessoa 
que  eu  nunca  cessarei  de  proclamar,  apesar  do  in- 
cógnito I . . .  Por  que  estás  tu  a  sorrir,  Joanna  ?  E 
tu,  Angela,  que  ar  é  esse  de  assombro  e  alvoro- 
ço ?.. .  Não  querem  ouvir  o  melhor  da  passagem  ? 


i82  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Um  dia,  estava  teu  marido  a  contar,  provavelmente, 
as  dúzias  de  contos  que  lhe  alvoejavam  com  azas 
de  ouro  á  volta  do  leito,  onde  havia  de  morrer  só- 
sinho,  blasphemo  e  abrasado  de  sede,  sem  amigo  ou 
indifterente  que  lhe  apagasse  nos  beiços  o  brazido 
da  morte ;  um  dia,  vinha  eu  dizendo,  aproximouse 
d'elle  um  homem,  e  disse:  «Venho  restituir-lhe 
1 :65oí?ooo  mil  réis  que  lhe  foram  roubados  por  sua 
esposa  para  me  dar  a  mim,  que  era  pobre.  E  eu  com 
o  seu  dinheiro  fiz  a  minha  posição  de  menos  pobre. 
A  restituição  é  um  dever  que  complica  dois  gran- 
des resultados  :  um  é  o  sr.  Hermenegildo  morrer 
com  a  certesa  que  deixa,  além  de  duzentos  e  tan- 
tos contos,  mais  esta  quantia  aos  seus  amigos  ;  a 
outra  é  ir  vossa  senhoria  por  onde  quer  que  vá  com 
a  certesa  de  que  teve  a  ventura  de  casar  com  uma 
senhora  que  podia  roubal-o  e  trahil-o ;  mas  que  se 
limitou  apenas  a  prival-o,  por  espaço  d'alguns  an- 
nos,  da  deleitosa  posse  d'estas  notas.  Porém,  como 
o  sr.  Fialho  infamou  sua  esposa,  convém  que  a  de- 
clare illibada,  não  só  do  desvio  do  ouro,  mas  tam- 
bém da  dignidade  conjugal.  Para  que  se  faz  mister 
que  leia  e  assigne  este  recibo.»  E  teu  marido,  mi- 
nha amiga,  leu,  recebeu  o  dinheiro  e  assignou  isto 
que  tu  vaes  ler,  se  té  não  custa. 

E  a  viuva  e  Joanna  leram  mentalmente  a  quita- 
ção que  o  leitor  conhece. 

Quando  terminou  a  leitura,  Francisco  ajoelhado 
aos  pés  de  Angela,  beijavalhe  as  mãos,  excla- 
mando, coberto  de  lagrimas : 

—  Eu  te  agradeço,  filha  da  minha  alma !  Bemdita 


Os  brilhantes  do  brasileiro  i83 

sejas  tu,  escolhida  de  Deus  para  mensageira  de  sua 
misericórdia ! 

E  Angela,  baixando  a  face  até  aos  lábios  d'elle, 
murmurou : 

—  Meu  santo  e  nobre  coração  ! . . . 


XXIII 


Os  bomens  honestos 


Seis  mezes  depois,  Athanasio  José  da  Silva,  Pan- 
taleão  Mendes  Guimarães,  e  Joaquim  António  Ber- 
nardo, reunidos  na  famigerada  bodega  do  Maneta 
do  Reimão,  onde  em  certos  dias  iam  sevar-se  na 
pescada  e  cebolas,  bodo  peculiar  d'aquella  taver- 
na, praticavam  do  seguinte  theor : 

—  Acertámos  ou  não?...  — dizia  Athanasio  — 
Viram  vocês  como  afinal  tudo  se  descobriu  ?  Não, 
que  certos  lorpas  inda  diziam  que  o  adultério  da  tal 
sr.*  Angela  não  estava  provado. . .  Ahi  a  tem  ago- 
ra casada  com  o  sujeito. ..  E  nem  deixou  passar 
um  anno  sobre  a  morte  do  marido,  percebem  vo- 
cês ? 

—  Pois  isso  estava  claro  physica  e  moralmente 
fallando  —  obtemperou  Joaquim  António  —  O  ma- 
riola era  um  estudante  de  cirurgia,  segundo  ouvi 
contar.  Olha  se  o  Hermenegildo  não  tem  as  coisas 
seguras,  que  lá  se  regalava  agora  o  troca-tintas  com 


*  Os  brilhantes  do  brasileiro  i85 

bem  bom  d'elle  1  E  dizia  aqui  o  nosso  Pantaleão, 
quando  veio  a  noticia  da  morte  do  nosso  amigo, 
que  se  procurasse  a  viuva,  e  se  lhe  desse  alguns 
contos  de  réisl  Parece-me  que  o  marido  se  levan- 
taria da  cova,  se  tal  fizéssemos  ! 

—  E'  que  eu  —  explicou  o  marido  de  Francisca 
Ruiva,  ainda  cuidava  que  ella  teria  feito  a  sua  as- 
neira, e  que  se  tivesse  arrependido ;  mas  á  vista  do 
que  acontece,  nem  um  dardo !  (E  descendo  a  voz, 
continuou :)  O'  amigo  Athanasio,  aqui  entre  nós, 
seu  primo  do  Rio  é  que  a  fez  limpa !  Sem  trabalho 
nenhum,  nem  risco,  nem  nota  de  ladroagem,  pilhou 
os  seus  quarenta  contos  fortes. . .  Apre  que  é  la- 
drão, e  perdoe  você  por  ser  seu  parente. . . 

—  Que  queriam  vocês  ?  —  desculpou-se  Athana- 
sio —  eu  incumbi  meu  primo  do  negocio  porque  não 
via  pessoa  mais  hábil,  percebem  vocês  ?  Cuidava 
eu  que  elle  entregaria  os  titulos  accommodando-se 
com  uma  pexincha  de  meia  dúzia  de  contos  :  mas 
vocês  bem  viram  a  carta  d'elle.  Ou  me  dão  quarenta 
coutos,  ou  entrego  os  titulos  á  viuva  ou  herdeiros'de 
Fialho.  Que  fazer  ?  ou  dar  os  quarenta  ou  perder 
duzentos.  Vocês  concordaram,  e  eu  paguei. 

—  E  os  outros  seis  contos  que  você  deu  ao  ma- 
rido da  Rosa  Catraia  ?  —  perguntou  Pantaleão. 

—  Não  que  esse,  como  era  criado  do  quarto  de 
Hermenegildo  e  sabia  lêr,  tinha  visto  os  titulos 
quando  andava  á  cata  das  notas  e  mais  a  bêbada 
da  moça,  percebem  vocês  ?  e  depois  viu  que  el- 
les  desapparcceram,  e  começou  a  dar  á  lingua ;  de 
maneiras  que  não  houve  remédio  senão  meu  primo 
fazer  cambalacho   com  elle,  e  mandal-o  para  mim 


j86  Os  brilhantes  do  brasileiro 

com  uma  carta,  que  vocês  viram,  e  também  con- 
cordaram em  que  se  pagasse. 

—  Querem  vocês  saber  uma  ?  adivinham  quem 
hontem  esteve  no  baile  da  Assembléa  ?  A  tal  Rosa 
Catraia  !  —  disse  Joaquim  António. 

—  Ora  que  novidade  você  me  dá  !— accudiu  Atha- 
nasio  —  Fui  eu  quem  lhe  arranjei  a  carta  de  con- 
vite. 

—  E  estava  rica  a  valer !  —  accrescentou  o  ma- 
rido da  maiata.  —  E  boa  mulher  !  ?  O  maroto  do 
Fialho  tinha  gosto  !  Quantas  lhe  conheci  eram  to- 
das de  sola  e  vira  I 

—  Pelo  que  vejo  a  Rosa  soube-se  arranjar  bem !,.. 
—  Observou  Pantaleão. 

—  Ora !  . . .  —  conveio  Athanasio  —  Eu  dou-lhe 
trinta  contos  fortes  pelo  que  ella  apanhou.  Só  os 
brilhantes  de  Angela  valiam  mais  de  cinco  contos. 

—  E  ella  1á  os  tinha  no  baile  que  eu  bem  lh'os 
conheci...  — confirmou  o  mesario  da  santa  casa. 

—  Também  é  escândalo  de  mais  !  —  ceusurou 
Pantaleão  —  apresentar-se  em  publico  com  os  en- 
feites da  mulher  do  amo.  A  minha  vontade  era  es- 
palhar isso. . . 

—  Caia  n'essa  você  —  contradisse  Athanasio  —  e 
depois  queixe-se,  se  o  marido  contar  que  viu  na  car- 
teira do  Fialho  um  titulo  seu  de  divida  de  cincoen- 
ta  e  dois  contos. . .  percebe  você  ? 

—  Falle  baixo,  diabo !  —  accudiu  o  ladrão  pun- 
donoroso  —  você  não  sabe  que  anda  ahi  gente  pelo 
quintal  ? 

Chegaram  as  travessas  da  pescada  entre  rimas 
de  cebolas  e  ovos.  Abriram-se  os  buchos,  e  fecha- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  rSy 

ram-se  as  consciências  d' estes  membros  do  tribu* 
nal  de  honra  onde  Angela  foi  condemnada  á  infâ- 
mia e  á  pobresa. 

Fartos  até  ao  arroto,  de  coletes  desabotoados,  sahi- 
ram  os  três  accionistas  mais  grados  dos  bancos 
portuenses  a  beber  o  ar  balsâmico  do  jardim  de  São 
Lazaro.  Nada,  absolutamente  nada,  estremava  aquel- 
les  três  da  classe  dos  homens  de  bem,  porque  a 
lei,  que  mandava  abrir  com  ferro  quente  um  ferrete 
na  testa  dos  ladrões,  foi  derrogada  em  7  de  feve- 
reiro de  i523. 


XXIV 


A  opinião  pnblica 


A  opinião  dos  tres  capitalistas  dignamente  acata- 
dos no  anterior  capitulo  frisava  com  a  opinião  ge- 
ral da  sociedade  portuense  sobre  o  casamento  de 
Angela  com  o  cirurgião  Gosta.  As  segundas  núpcias 
tinham  evidenciado  o  crime  das  primeiras.  A  infâ- 
mia de  Angela  era  indelével,  e  já  pôde  ser  que  mais 
repulsiva,  desde  que  ella  aífrontou  a  moral,  pas- 
sando em  frente  dos  amigos  de  Fialho  pelo  braço 
do  amante  que  causara  a  morte  do  honrado  brasi- 
letrOy  dizia  a  maiata,  e  Francisca  Ruiva,  e  outras 
Ruivas,  que  me  estão  pedindo  chronica.  E  hãode 
tel-a.  A  cortezia  não  se  exercita  somente  com  as 
senhoras  honestas. 

Francisco  José  da  Costa  leu  a  opinião  publica  no 
volver  d'olhos  dos  magotes  que  se  arrebanhavam 
nas  praças,  e  no  petulante  encarar  das  mães  que  se- 
gredavam ás  filhas  a  desmoralisaçáo  da  mulher  de 
Fialho.  O  cirurgião  era  alvo  da  injuria,  cuspida  nas 


Os  brilhantes  do  brasileiro        /      i8g 

costas,  por  seus  próprios  collegas.  Era  simples  o  li- 
bello  infamatorio  :  accusavam-no  de  se  ter  formado 
á  custa  dos  brilhantes  de  um  brasileiro,  roubados 
por  sua  mulher. 

Angela  encontrou  um  dia  n'uma  algibeira  de  ca- 
saco uma  recente  carta  anonyma  em  que  um  amigo 
aconselhava  a  seu  marido  que  sahisse  do  Porto,  se 
precisava  de  viver  pela  arte.  E  ajuntava  ao  conselho  a 
causa  promotora  de  tão  amigável  aviso ;  £"  odioso 
na  sociedade  o  homem  que  se  habilitou  para  entrar 
n''ella  com  o  dinheiro  d* uma  senhora  casada.  E  se 
essa  senhora  roubou,  deshonrou  e  matou  o  marido,,, 
mil  ve^es  horrendissimo ! 

Angela  da  Costa  leu  e  chorou.  Depois  arguiu- se 
de  fraca,  e  desmerecedora  dos  bens  com  que  Deus 
lhe  apremiara  a  sua  paciência  nas  injurias. 

Guardou  a  carta,  e  assim  que  o  marido  recolheu, 
foi  para  elle  risonha,  e  disse  em  tom  de  queixume  : 

—  Por  que  me  não  mostraste  logo  esta  carta, 
meu  filho  ? 

—  Ah  !  —  acudiu  Francisco  —  tinha  tenção  de 
mostrar- t^a;  mas  esqueceu-me  a  carta  e  o  intento. 
E'  o  que  foi.  Mas  olha,  Angela,  este  esquecimento 
não  argue  insensibilidade,  nem  uma  coisa  impro- 
priamente chamada  cynismo.  Sabes  o  que  é  ?  con- 
formidade, tolerância,  e  quasi  uma  desculpa  á  opi- 
nião publica. 

—  Desculpa  ! . . .—  interrompeu  Angela. 

—  Sim,  filha.  Por  ventura,  tu  já  te  justificaste  ?  e 
eu  já  me  justifiquei  ?  Não.  A  sociedade  sabia  que  uma 
mulher  casada  vendeu  uns  brilhantes;  que  o  marido 
d'essa  mulher  a  expulsou;  que  esse  marido  morreu; 


igo  Os  brilhantes  do  brasileiro 

que  um  homem,  seis  mezes  depois,  apparece  casa- 
do com  a  viuva  do  roubado,  do  assassinado  a  punha- 
ladas de  deshonra...  Que  queres,  Angela?  quem 
ousará  defender-nos  ? 

—  Mas  faz  tu  publica  essa  paga  assignada  por... 

—  Deus  me  livre,  minha  louca.  A  quitação  foi  es- 
cripta  e  assignada  para  que  soubesses  que  não  devias 
nada  a  teu  marido,  e  que  a  roubada  em  tuas  jóias 
tinhas  sido  tu.  Satisfações  á  sociedade  ?  São  justas, 
quando  ella  não  condemna  antes  de  ouvir  os  réos, 
quando  não  escarra  nas  faces  das  victimas  antes  de 
examinar  os  vincos  por  onde  passaram  as  lagrimas. 
A  nossa  causa  de  moral  publica  está  perdida ;  não 
obstante  a  rehabilitação  davam-t'a  os  juizes,  se  hou- 
vesses herdado  os  duzentos  contos  de  Fialho.  Os 
que  me  denigrem  o  caracter,  se  eu  a  esta  hora  fos- 
se o  marido  da  viuva  com  duzentos  contos,  cha- 
mando-me  «tratante  feliz»,  sentar-se-hiam  lisongea- 
dos  nos  coxins  das  minhas  cadeiras,  e  pediriam  aos 
meus  lacaios,  com  urbanidade,  o  favor  de  me  entre- 
garem os  seus  bilhetes  de  visita.  Mas,  filha,  esta  so- 
ledade que  mora  á  volta  de  nós  é  o  cordão  com  que 
a  mão  da  Providencia  abalisa  a  felicidade  de  duas 
almas  que  não  podem  corar  uma  da  outra.  Quando 
eu  desejar  mais  do  que  tenho,  quando  invejar  feli- 
cidades que  não  sei  imaginar,  Angela,  heide  pedir- 
te  perdão  de  ter  sido  o  mais  vil  dos  teus  inimigos. 

Apertou-o  Angela  com  arrebatamento  nos  braços, 
e  murmurou  : 

—  Se  tu  quizesses. . . 

—  O  quê,  minha  filha  ? 

—  Viver  n'uma  aldeia,  entre  umas  serras,  sósi- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  igi 

nhos  com  a  nossa  Joanna,  esquecidos,  e  tão  ama- 
dos ... 

—  Sim,  quero,  minha  providencia...  Adivinhaste 
a  minha  aspiração  de  não  sei  quantos  annos... 

—  Eu  sei,  meu  amor.  Li-a  nos  teus  livros,  e  que 
fantasias  eu  creava  para  completar  as  tuas !...  Se  eu 
tivesse  filhos,  e  lhes  podesse  incutir  a  certesa  de  que 
todo  o  seu  futuro  e  mundo  era  o  espaço  contido  nos 
horisontes  das  nossas  montanhas... 

—  E  não  sabes  tu,  Angela?  —volveu  jubilosa- 
mente Francisco  —  não  sabes  que  eu  careço  de  ser 
cirurgião  ?  que  todas  as  portas  se  me  fecham  aqui  ? 
Não  cuidavas  que  eu  viesse  quasi  pobre  do  Brasil  ? 
Vim,  minha  filha,  vim.  Contava  com  muito  se  lá 
permanecesse,  mas  a  minha  riquesa  eras  tUc  Apenas 
tenho  a  subsistência  segura  de  dois  annos  n'esta 
mediania  em  que  tu  fazes  milagres  de  abundância. 
Mas  o  futuro . . . 

—  Pois  então  para  onde  iremos,  Francisco  ?  Te- 
nho pressa  ;  quero  ir  amanhã,  hoje,  já. . . 

—  Olha,  n'uma  terra,  que  chamam  Barroso,  não 
ha  facultativos.  O  sitio  é  triste,  é  montanhoso,  as 
casas  são  colmadas,  os  alimentos  grosseiros,  os  frios 
do  inverno  glaciaes,  e  os  ardores  do  estio  queimam 
as  urzes  e  seccam  as  fontes.  Queres  ir  para  Bar- 
roso? 

—  E  tu  ?  irias  tu  contente  para  ahi  ? 

—  Vou. 

—  Vamos,  filho  —  exclamou  ella  enthusiastica- 
mente ! 

—  Assim  que  a  doença  ou  a  tristesa  te  ameaçar, 
passaremos  a  sitios  mais  amenos,  iremos  de  aldeia 


ig2  Os  brilhantes  do  brasileiro 

em  aldeia,  até  que  uma  casinha  entre  duas  arvores 
te  convide  a  viver  e  morrer  n*ella. 

Dias  depois,  Francisco  Gosta,  o  grande  operador 
que  honrara  as  escolas  da  sua  pátria  no  Brasil,  ac- 
ceitava  o  partido  de  um  concelho  chamado  Boticas, 
em  terras  de  Barroso. 

Victorina  acompanhou  a  ditosa  familia.  Ao  visi- 
nharem  da  terra  tão  selvaticamente  pintada  por  Fran- 
cisco na  imaginativa  da  esposa,  a  rústica  espectati- 
va  demudou-se  em  alegres  várzeas,  terras  colmadas 
de  arvoredos,  regatos  que  vertiam  murmurosos  por 
entre  outeirinhos  tapisados  de  boninas.  A  casa  des- 
tinada ao  cirurgião  de  partido  era  telhada,  e  olha- 
va sobre  uns  almargeaes  por  três  janellinhas  de  por- 
tas envidraçadas.  A  horta  suppria  mais  substancial- 
mente a  falta  de  jardim,  e  em  vez  de  musgos  e  tre- 
padeiras floridas,  verdejavam  as  couves  gallegas  e 
trepavam  florentes  os  feijões  carrapatos  —  espectá- 
culo bucólico  de  que  muito  se  deliciava  Victorina, 
recordando  a  casinha  rural  de  seus  pães. 

Angela  exclamava  com  as  mãos  postas : 

—  Isto  é  tão  lindo !  Se  haverá  uma  alma  triste 
n'este  povoado !  Que  miserável  e  escuro  d*aqui  se 
me  figura  o  que  deixamos  ! . . . 

Joanna  cuidou  em  alindar  a  casa  com  a  modes- 
tíssima mobília  em  que  o  município  se  mostrara  ge- 
neroso para  grangear  a  estima  do  facultativo. 

Ao  outro  dia,  a  esposa  do  boticário  com  sua  cu- 
nhada esposa  do  regedor,  e  as  authoridades  de  Mon- 
te Alegre  com  suas  famílias,  visitaram  o  cirurgião 
que  alli  era  graduado  em  doutor. 

De  tudo  isto  entreluzia  á  scísmadora  Angela  um 


ta 


Os  brilhantes  do  brasileiro  igS 

viver  antigo,  santa  singelesa  de  costumes  e  dulcifi- 
cação  de  almas  que  para  alli  viessem  acerbadas  do 
viver  das  cidades. 

Aquelle  silencio  de  terra  e  céo  era-lhe  o  ambien- 
te lúcido  das  suas  esperanças.  Não  ousara  imagi- 
nal-as  tão  accordes  com  a  sua  Índole,  vendo-se  li- 
gada ao  esposo  querido  que  reflectia  a  felicidade  de 
todos  sobre  dourando  a  sua. 

Começou  o  doutor  a  curar,  e  a  voz  publica  a  pre- 
goar milagres.  Achaques  inveterados,  aleijões,  ne- 
vralgias, que  tinham  resistido  aos  exorcismos,  espi- 
nhelas  cahidas  e  nunca  levantadas,  todas  as  castas 
de  enfermidades  sem  cura  encontraram  remédio  ou 
alivio. 

O  assombro,  porém,  excedeu  todo  encarecimen- 
to quando  o  doutor  chamou  um  cego  mendigo,  e 
depois  de  operal-o  e  tratal-o  em  sua  casa,  o  man- 
dou trabalhar  com  vista  no  seu  antigo  oíficio  de  pe- 
dreiro. 

Rodeavam-no  as  multidões  de  parentes  e  amigos 
perguntando  todos  a  um  tempo  se  os  conhecia. 

Convencidos  de  que  o  cego  de  vinte  annos  vol- 
tara a  ver  os  filhos  que  deixara  no  berço,  o  doutor 
avultou-lhes  como  ente  milagroso,  alli  mandado  pela 
Senhora  da  Saúde,  adorada  com  muita  fé  na  sua 
egreja. 

Alargou-se  a  área  da  clinica  do  facultativo  a  seis 
e  mais  léguas  em  redor,  por  caminhos  precipitosos 
á  orlíi  de  despenhadeiros. 

Mas  o  inverno  chegou. 

Os  pegões  do  vento  outomnal  abateram  quando 

as  neves  de  novembro  começaram  a  coroar  os  espi- 

i3 


ig4.  Os  brilhantes  do  brasileiro 

nhaços  das  serras,  e  a  sobrepor  as  suas  camadas 
indurecidas  pelo  giar  das  noites,  sobre  as  veredas 
de  cabras  que  ligavam  uma  aldeia  a  outra.  Sem  im- 
pedimento dos  rogos  de  sua  familia,  Francisco  Cos- 
ta ia  sempre  que  era  chamado.  E,  quando  transpu- 
nha as  raias  do  concelho,  a  visitar  doentes  em  noite 
tempestuosa,  por  os  mesmos  caminhos  já  famigera- 
dos na  vida  de  fr.  Bartholomeu  dos  Martyres,  e  re- 
cebia duzentos  e  quarenta  réis,  de  recompensa, 
Francisco  depunha  no  regaço  da  esposa  o  seu  bem 
suado  ou  bem  tiritado  obulo,  e  dizia  a  sorrir: 

—  E*  o  dinheiro  de  dois  operários :  tanto  labutou 
o  lavrador  para  o  tirar  da  terra,  como  eu  para  lh'o 
arrancar  do  cantinho  da  arca.  Se  eu  lhe  pedisse 
mais,  o  doente  preferia  a  morte. 

O  que  muito  suppria  na  sua  receita  era  a  arte 
operatória,  exercitada  longe,  mormente  as  opera- 
ções de  catarata  que  já  tinham  levado  seu  nome  ao 
território  hespanhol. 

Então  aconteceu,  duas  vezes,  no  primeiro  anno, 
Francisco  Costa  enthesourar  na  caixa  económica  de 
sua  mulher  uma  dúzia  de  peças,  com  esta  recom 
mendação  dita  em  gracejo: 

—  Vae  guardando  o  património  do  nosso  primei- 
ro filho. 

Angela  estremeceu  da  felicidade,  que  já  lhe  es- 
tremecia no  seio  com  adiantados  signaes  de  mater- 
nidade. 

—  E  o  nosso  filho  que  será  n'este  mundo'?  que 
destino  lhe  hasde  dar?  —  perguntou  a  filha  do  ge- 
neral Noronha. 

—  Visto  que  não  é  provável  ser  elle  o  vigessimo 


Os  brilhantes  do  brasileiro  igS 

senhor  do  Paço  de  Gondar  —  respondeu  a  rir  Fran- 
cisco Gosta  —  será  artista. 

—  Artista ! 

—  Artífice,  é  mais  portuguez.  Terá  uma  profissão 
que  lhe  abaste  á  sua  subsistência  e  á  de  uma  famí- 
lia creada  com  pouquíssimas  necessidades.  Não  ap- 
prenderá  a  ler,  para  crer;  não  saberá  nada  da  scien- 
cia  humana  para  intender  bem  o  Padre  Nosso,  que 
é  a  sciencia  divina  baixada  até  ao  homem ;  dormirá 
o  somno  pesado  do  operário  para  não  sonhar  as 
chimeras  que  me  fizeram  a  mim  o  motor  dos  teus 
longos  infortúnios,  meu  pobre  anjo  ! 

—  Mas  hoje^  filho ! . . .  —  atalhou  ella  —  Não  es- 
tou eu  esquecida  de  tudo ! . . .  A  compensação  não 
é  tão  superior  ao  que  padeci?  Se  Deus  me  der  fi- 
lhas, a  felicidade  que  eu  peço  para  ellas  é  esta  mi- 
nha . . . 

—  Mas  padeceste  muito,  Angela. . .  E  as  tuas  fi- 
lhas poderão  ser  felizes  como  tu  sem  terem  pade- 
cido...—  E  concluiu  acariciando-a :  —  é  preciso 
que  ellas  não  saibam  ler  Sonhos  nem  escrever  Es- 
peranças . . . 


XXV 


o  cego 


Os  olhos  do  general  Noronha  cegaram  inteira- 
mente. Os  especialistas  de  Paris  tinham  capitulado 
de  catarata  negra  a  próxima  cegueira,  muito  simi- 
Ihante  nos  symptomas  a  gotta  serena. 

Declinava  para  os  setenta  annos  o  inconsolável 
cego.  Queria  voltar  a  Paris,  esperançado  na  opera- 
ção; mas  escasseavam-lhe  forças.  A  velhice  d'este 
homem  disciplinado  por  pesares  de  toda  a  espécie 
desde  o  terrivel  só  até  ao  excruciar  do  remorso, 
causava  a  um  tempo  compaixão  e  medo.  A  cache- 
xia  lenta  myrrara-o  até  lhe  seccar  a  pelle  sobre  a 
aridez  dos  ossos ;  e  os  glóbulos  dos  olhos  guinavam 
pardacentos  nas  orbitas  descarnadas  á  procura  d'um 
raio  de  luz. 

Os  parentes  e  amigos  que  elle  havia  repellido  não 
o  procuravam  nos  derradeiros  annos,  por  que  sa- 
biam que  o  testamento  estava  feito.  Os  legatários, 


Os  brilhantes  do  brasileiro  igy 

entregues  á  safara  da  lavoura,  nem  sequer  averigua- 
vam  se  o  senhor  do  Paço  de  Gondar  era  morto  ou 
vivo.  Ninguém  por  tanto  o  visitava.  O  velho  chei- 
rava a  cadáver,  e  o  lastimar-se  xl'um  cego  exas- 
perado afugentaria  até  a  commiseração  dos  herdei- 
ros. 

O  mordomo,  João  Pedro  é  que,  dia  e  noite,  lhe 
dava  o  braço  ou  vigiava  o  anciado  dormitar.  Cho- 
rava, quando  o  via  de  súbito  parar,  voltados  para 
o  céo  os  olhos,  e  clamar:  «Meu  Deus,  meu  Deus, 
dae-me  a  minha  vista,  ou  matae-me  !» 

—  E,  em  uma  d'essas  apostrophes  á  Providencia 
divina,  que  lhe  visitara  alfim  a  escuríssima  ceguei- 
ra d'alma  e  corpo,  João  Pedro  disse : 

—  Fidalgo,  vossa  excellencia,  se  quer  que  Deus 
o  escute,  siga  a  lei  christã ;  tenha  pena  de  sua  fi- 
lha, perdôe-lhe  pelo  divino  amor  de  Deus.  Pôde  ser 
que  depois  a  misericórdia  de  Jesus  Christo  se  com- 
padeça de  vossa  excellencia. 

—  E  quem  te  disse  a  ti  que  ella  era  minha  fi- 
lha ?  —  repetiu  o  cego  a  pergunta  feita  um  anno 
antes. 

—  Disse-m'o  vossa  excellencia,  quando  ella  o  vi- 
sitava ;  muitas  vezes  me  escreveu  lá  para  o  Paço : 
«Manda-me  boa  fructa  que  tenho  cá  minha  filha.» 
Hade  perdoar-me,  fidalgo ;  mas  vossa  excellencia  só 
deixou  de  lhe  chamar  filha  depois  que  ella  quiz  ca- 
sar com  um  homem  mechanico. . . 

—  E  se  preverteu. . .  —  atalhou  rancoroso  o  ce- 
go. 

—  Mentiram-lhe,  fidalgo ;  ella  não  praticou  acção 
má,  senão  a  de  querer  ser  esposa  d*um  pobre. 


igS  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Não  sabes  nada,  pedaço  d'asno.  Tenho  ali  uma 
carta  de  minha  irmã  Beatriz. 

—  Bem  sei,  meu  senhor. 

—  Sabes  ?  quem  t'o  disse. 

—  A  sr.»  D.  Angela. 

—  Quem  lh*a  mostrou  ? 

—  Viu-a  ella,  quando  escreveu  a  vossa  excellencia 
uma  carta  sobre  a  sua  escrivaninha.  Essa  carta  diz 
que  os  criados  da  senhora  sua  irmã,  a  quem  Deus 
perdoe,  tinham  arrancado  a  fidalga  dos  braços  do 
tal  filho  do  sacristão.  Era  uma  mentira  de  clamar 
vingança  aos  anjos.  Sua  excellentissima  filha,  quan- 
do desesperada  procurara  o  tal  homem,  não  o  en- 
controu, tinha  saido  para  o  Porto. 

—  Quem  t'o  contou  ? 

—  Victorina,  que  saiu  de  Gondar  com  a  sr.*  D. 
Angela,  quando  tinha  dois  annos ;  o  próprio  capel- 
lão,  e  todos  os  criados  da  sr.*  D.  Beatriz,  que  lá 
está  onde  as  contas  são  apertadas. 

—  Por  que  não  disseste  isso  até  hoje? 

—  Por  que  vossa  excellencia  se  desesperava  as- 
sim que  eu  começava  a  fallar  na  sr.*  D.  Angela,  e 
depois . . .  depois . . . 

—  Depois  o  quê  ? , . .  Não  respondes  ?  ! 

—  Vossa  excellencia  começava  a  dizer  que  via  a 
mãe  da  menina,  e  a  sacudir  os  braços  que  me  fa- 
zia terror. 

—  Está  bom  !  está  bom  !  —  murmurava  gutural- 
mente  o  velho,  procurando  com  as  mãos  tremulas 
a  bocca  do  criado. 

E  recahia  na  concentrada  prostração  que  durava 
horas  e  dias. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  jgg 

Uma  vez,  o  general  acordou  de  sobresalto,  por 
noite  íóra,  chamou  João  Pedro  com  afflicção,  e  dis- 
se-lhe  : 

—  Quem  anda  na  casa  ? 

—  Ninguém,  senhor. . .  Serão  os  ratos  que  os  ha 
n'ella  de  tamanho  de  leitões. 

—  Não  mangues  comigo,  João  ! 

—  O'  fidalgo  I  eu  mangar  com  vossa  excellen- 
cia  ! . . . 

—  Ahi  anda  gente...  os  passos  e  a  voz  são  de 
Angela ! . . . 

—  Deus  permittisse  que  fosse  ella ! . . .  O  senhor 
general  estava  agora  sonhando,  e  ás  vezes  fallava 
em  sua  filha. 

—  Fallava  ? 

—  Sim,  meu  senhor. 

—  Então  era  sonho. . . 

—  E,  se  ella  lhe  apparecesse. . .  se  vossa  excel- 
lencia  a  visse  de  repente. . . 

—  Não  vês  que  estou  cego. . .  Cego,  meu  Deus  ! 

—  Pois  sim ;  mas  se  vossa  excellencia  lhe  ouvisse 
a  voz,  e  lhe  deixasse  beijar  as  mãos. . . 

—  Tu  quando  a  viste  ? 

—  Eu,  senhor  ?  Vi-a  ha  oito  annos,  quando  vos- 
sa excellencia  estava  em  França,  e  me  mandou  en- 
tregar-lhe  o  cofre  dos  enfeites. 

—  E  estava  aonde  ? 

—  Perto  da  villa  de  Barrosas,  e  casou  no  dia  em 
que  lá  cheguei. . .  Eu  já  contei  a  vossa  excellencia 
isto. . . 

—  Mas  ella  escreveu-me  ha  coisa  de  anno  e  meio. 

—  Onde  estava  então  ? 


200  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  No  Porto. 

—  E  nunca  mais  soubeste  d'ella  nada  ? 

—  Não,  fidalgo. . .  Isto  é.  . .  —  tartamudeou  o 
mordomo  —  quero  dizer. . . 

—  Soubeste,  ou  não  ? 

—  Ella  a  mim  nunca  me  escreveu  *,  mas,  cá  em 
Ponte,  ouvi  dizer  que  o  marido  a  deixara  e  fora  para 
o  Brasil. 

—  Por  quê  ? 

—  Não  sei. . .  —  respondeu  prompto  João  Pedro 
como  quem  esperava  a  pergunta,  e  tencionava  es- 
conder os  boatos  desairosos  para  a  filha  de  seu 
amo. 

—  Não  sabes?  alguma  nova  deshonra  !...  Quem 
te  contou  isso  ?  Quero  saber.  . . 

—  Não  me  recordo  a  quem  o  ouvi. . .  Parece-me 
que  foi  a  um  padre  que  já  morreu. 

—  E  que  é  feito  d'ella  ?  sabes  ? 

—  Não  sei,  meu  senhor. 

—  Quero  que  saibas...  Vae  saber  isso  ao  Por- 
to. . .  Indaga  por  lá. 

—  E  quem  hade  ficar  á  beira  de  vossa  excellen- 
cia? 

—  Um  criado  qualquer.  Vae  já  hoje,  assim  que 
amanhecer...  Sonhei  que  a  via...  Ver,  meu  Deus, 
ver!...  Sonhei  que  a  via...  E  o  meu  coração  estava 
alegre...  Procura-m'a,  procura  m'a,  João! 

Seis  dias  depois,  o  mordomo  voltava  triste  do 
Porto.  As  inculcas  lançadas  informaram-no  de  que 
Angela,  coberta  de  opprobrio  e  justo  despreso  de 
todo  mundo,  se  casara  com  um  cirurgião,  por  amor 


Os  brilhantes  do  brasileiro  20  r 

de  quem  o  marido  morrera  apaixonado;  e  ninguém 
sabia  dizer,  na  visinhança  da  casa  onde  ella  habita- 
ra, o  destino  que  levaram  com  certesa ;  havia,  no 
entanto,  quem  affirmasse  que  tinham  ido  para  o 
Brasil. 

Das  informações  colhidas,  João  Pedro  disse  sim- 
plesmente que  a  sr.*  D.  Angela,  viuva  do  primeiro 
marido,  casara  segunda  vez,  e  sahira  ou  para  o  Bra- 
sil ou  para  onde  se  não  sabia. 

E  o  mordomo,  vendo  contrahir-se  de  angustia  o 
rosto  cavado  de  seu  amo,  chorou  de  compaixão 
d'elle,  e  de  pesar  de  não  ter  encontrado  Angela. 

—  Agora,  não  se  afflija,  fidalgo...  —  disse  com  a 
voz  quebrada  o  extremoso  servo. 

—  Deus  —  soluçou  o  ancião  —  despertou-me  o  de- 
sejo de  a  ter  comigo  para  me  redobrar  o  martyrio !... 
Seja  feita  a  vossa  vontade.  Senhor!. . . 


XXVI 


A  Providencia 


Pernoitou  em  Ponte  do  Lima,  no  anno  de  i853, 
um  cavalheiro  de  Chaves,  de  apellido  Pisarro,  em 
casa  de  parentes  que  também  o  eram  do  general 
Simão  de  Noronha. 

Dizia-se,  á  mesa  da  ceia,  que  o  general  aceitara 
o  titulo  de  conde  de  Gondar,  na  ultima  velhice,  cego, 
sem  descendência,  sem  sociedade,  sem  o  minimo 
prazer  da  vida,  sequestrado  de  toda  a  convivência, 
e,  segundo  se  contava,  tão  desvairado  de  rasão  que 
deixava  três  enormes  casaps  de  bens  livres  aos  irmãos 
da  mulher  da  Ínfima  ralé  com  quem  casara  na  pri- 
meira mocidade. 

—  E  está  cego  o  tio  conde  de  Gondar? — pergun- 
tou o  fidalgo  de  Chaves  —Cego  sem'remedio  ? 

—  Se  tivesse  remédio,  tel-o-ia  achado  em  Paris 
onde  já  foi  duas  vezes. 

—  Na  minha  província  e  perto  de  mim  —  tornou 


Os  brilhantes  do  brasileiro  203 

o  flaviense— ha  um  cirurgião  da  moderna  escola  que 
tem  feito  prodígios  em  operações  de  olhos.  Se  eu 
soubesse  que  o  conde  consentia  ser  examinado, 
obrigava-me  a  trazer-lhe  o  doutor  Gosta,  como  lá  se 
chama,  sem  favor,  ao  admirável  facultativo. 

—  Quem  lh'o  hade  perguntar  ?  Ha  mais  de  dez 
annos  que  não  recebe  nem  visita  alguém. 

—  Não  importa :  heide  eu  ir  procural-o. 

Foi ;  annunciou-se,  e  teve  entrada,  por  que  o  con- 
de lembrou-se  de  ter  conhecido  nas  primeiras  luctas 
da  liberdade,  um  general,  tio  do  cavalheiro  annun- 
ciado. 

Disse  o  visitante  o  propósito  que  o  levava.  Con- 
tou as  maravilhas  do  doutor  Costa  e  oíFereceu-se  a 
conduzil-o  a  Ponte. 

—  Será  inútil ;  mas  que  venha.  Irá  a  minha  liteira 
buscal-o.  Se  eu  podesse  ir. . . 

—  E  por  que  não  vae,  senhor  conde  ?  —  aprovei- 
tou o  parente,  applaudindo  o  desejo  —  O  exercicio 
deve  ser-lhe  útil.  São  dois  dias  e  meio  de  jornada. 
Se  elle  se  resolve  a  operal-o,  vossa  excellencia  vae 
residir  em  Chaves  na  minha  casa,  ou  em  Mont' Ale- 
gre, onde  ha  boas  commodidades  ;  por  que,  se  vos- 
sa excellencia  quizesse  ser  operado  em  Ponte,  seria 
isso  mais  diíficil  ao  doutor  que  tem  uma  grande  cli- 
nica, e  não  poderia  assistir,  como  convém,  ao  cura- 
tivo e  convalescença  da  operação. 

Reanimouse  o  cego.  A  esperança  galvanisou-lhe 
as  articulações  emperradas  pela  immobilidade.  Aper- 
tou nos  braços  com  reconhecimento  a  dedicação  do 
parente,  e  pactuou  sahir  no  dia  seguinte. 


204  ^s  brilhantes  do  brasileiro 

Folgando  de  palestrar,  succederam  variados  os 
assumptos.  Fallou  da  emigração,  das  esperanças 
d'aquelles  dias,  das  batalhas  do  Porto,  da  bravura 
dos  paisanos,  das  proesas  do  libertador,  e  terminou 
dizendo  com  um  remoqueador  sorriso  de  elevada 
critica : 

—  Sabe  vossa  excellencia  o  que  venceu  a  guerra? 
Não  foi  a  idéa  da  pátria,  nem  o  ódio  do  despotis- 
mo, nem  o  amor  á  liberdade.  Foi  D.  Pedro  ter  fe- 
chado o  Brasil  no  caso  de  lhe  cá  espedaçarem  o  es- 
tandarte aventureiro,  e  foi  cada  homem  do  Mindello 
defender  a  vida  própria  da  forca  ou  do  desterro,  e 
foi  cada  cidadão  da  cidade  eterna  ser  obrigado  a  de- 
fender a  esposa  e  os  filhos.  Uma  vez  perguntava 
D.  Pedro  no  Porto,  a  um  velho,  que  sahia  armado 
e  trôpego,  a  um  toque  de  rebate :  tTambem  tu,  meu 
velho?!  e  o  velho  respondeu:  aTambem  eu,  meu 
diabo !  Por  causa  de  vossa  magestade  estou  eu  aqui 
a  defender  os  meus  netos.»  Esta  resposta  é  a  his- 
toria do  triumpho  prodigioso  de  D.  Pedro. 

Estendeu  o  conde  a  sua  diatribe  politica,  desem- 
bestando, contra  generaes  e  estadistas,  acerados  dar- 
dos, dignos  do  artigo  de  fundo  da  imprensa  politi- 
ca portugueza.  Todavia,  um  ponto  lhe  esqueceu  im' 
portantissimo :  e  era  explicar  a  sua  condescendên- 
cia no  aceitar  e  pagar  um  titulo  lembrado  a  el-rei 
pelo  então  ministro  da  guerra,  camarada  do  bravo 
Simão  de  Noronha.  Convinha  lhe  exemplificar  o  des- 
preso  das  mercês  em  conformidade  com  o  seu  des- 
dém da  liberdade  que  boa  ou  má  elle  ajudara  gran- 
demente o  implantar.  Perdôe-lhe,  porém,  o  máo  hu- 
mor civico  em  desconto  das  amarguras  da  velhice. 


I 


Os  brilhantes  do  brasileiro  2o5 

e  da  roaz  concentração  em  que  a  cegueira  o  pozera, 
insulado  de  toda  a  sociabilidade. 

—  E'  pena  —  lastimou  o  cavalheiro  —  que  vossa 
excellencia,  em  annos  tão  carecidos  dos  afíagos  da 
família,  se  veja  sósinho,  e  forçado  a  escutar-se  in- 
cessantemente em  suas  tristezas. . . 

—  Efteitos  da  péssima  mocidade  —  disse  laconi- 
camente  o  velho. 

—  E  não  lhe  restam  parentes  estimados  que  su- 
bstituíssem a  falta  de  filhos  ?. . . 

—  Não,  senhor. 

A  concisão  das  respostas  reduzia  a  silencio  o  in- 
terlocutor. 

—  Quer  então  vossa  excellencia  que  partamos 
amanhã  para  as  Boticas  ? 

—  Se  eu  não  tiver  peorado  d'esta  frouxidão  que 
difficilmente  me  deixa  ir  d'uma  cadeira  para  outra, 
muito  me  obsequiara  vossa  excellencia  acompanhan- 
do-me.  Se  o  doutor  intender  que  é  praticável  a  ope- 
ração, eu  mandarei  ir  o  meu  escudeiro  e  mais 
criados. 

—  Vossa  excellencia  tem  os  meus  criados  e  a 
mim  com  elles. 

—  Obrigadissimo  a  sua  bondade  :  deixe-me  abra- 
çal-o,  que  ha  muitos  annos  não  senti  alguém  nos 
meus  braços.  Parece-me  que  ainda  é  novo. . . 

—  Não,  senhor.  Tenho  quarenta  annos. 

—  Eu  já  era  decrépito  n'essa  edade.  Aos  vinte  e 
seis  annos  imbranqueceram-me  os  cabellos,  e  aos 
trinta  cahiram-me.  Quando  voltei  a  Portugal,  de- 
pois d'um  exílio  de  treze  annos,  os  meus  criados 
perguntaram-me  quem  eu  procurava. 


2o6  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  E  já  então  não  encontrou  pessoa  alguma  de 
família  ? 

—  Que  eu  presasse...  não.  Tinha  irmãs,  que 
nunca  estimei,  nem  me  estimaram.  Tinha  uma  fi- 
lha... 

—  Morreu  ? 

—  Morreu. 

O  conde  de  Gondar  apertou  as  mãos  do  homem, 
que  presava,  porque  sabia  que  lhe  via  as  lagrimas  ; 
e  murmurou  : 

—  Vê  ?  estes  olhos  não  tem  luz,  tem  o  sangue  do 
coração.  Olhe  que  eu  sou  o  mais  castigado  e  des- 
graçado homem  que  nasceu  debaixo  do  sol.  A  se- 
pultura repelle-me  ha  cincoenta  annos,  porque  eu 
morri  então.  Morri  então,  senhor. . . 

E  estreitava  convulsamente  ao  seio  as  duas  mãos 
do  cavalheiro. 

—  Está  bom. ..  — proseguiu  elle  com  satisfação 
—  estou  melhor.'.,  desafoguei...  Sinto-metão  bemf... 
Quem  podéra  chorar  uma  hora  em  cada  doze  de 
torturas. . . 

—  Já  vê  vossa  excellencia  quanto  lhe  seria  con- 
soladora uma  familia.  . .  Foi  fatal  o  perdimento  de 
sua  filha. 

—  E  vossa  excellencia  sabe  que  a  perdi  ? 

—  Sei  por  ter  tido  a  honra  de  o  ouvir,  ha  pouco 
dizer,  ao  senhor  conde. 

—  Ahl  fui  eu?.    . 

—  Sim ;  disse  me  vossa  excellencia  que  sua  filha 
tinha  morrido. 

—  Viva  ou  morta. . .  morreu.  Nunca  ouviu  fallar 
d'ella  ? 


Os  brilhantes  do  brasileiro  20j 

—  Não,  senhor. 

—  Esqueceram-na  todos  !  Ninguém  aqui  em  Pon- 
te.. .  nem  os  Abreus  lhe  fallaram  d'ella  ? 

—  Não,  senhor  conde. 

—  E'  por  que  ella  empobreceu.  . .  é  porque  eu  a 
repelli . . .  Despresaram-na  todos,  e  não  curaram  de 
saber  se  eu  tinha  rasão,  ou  se  ella  tinha  infâmias 
para  ser  despresada. . .  E  por  isso  morreu  ! 

O  flaviense  não  formava  da  intellectualidade  do 
conde  um  juizo  satisfatório  para  uma  certidão  de 
sanidade.  Não  acabava  de  intender  se  a  filha  do 
conde  era  viva  ou  morta ;  nem  ousava  protrahir  in- 
dagações irritantes  da  torvação  menta!  do  velho. 

Calou  se,  aproveitou  o  ensejo  opportuno  de  des- 
pedir-se,  e  foi  indagar  o  mysterio  de  tal  filha. 

Os  informadores  disseram-lhe  concordemente  que 
em  verdade  o  conde  tivera  na  sua  mocidade  uma 
filha  natural  de  uma  celebre  fidalga  do  seu  tempo ; 
mas  que  essa  menina  se  havia  perdido  em  liberti- 
nagens como  sua  mãe. 

O  cavalheiro  intendeu  então  o  que  era  morrer^  e 
condoeu-se  profundamente  do  pae  da  perdida. 


XXVII 


Yem  rompendo  a  luz 


Francisco  José  da  Costa  foi  chamado  urgente- 
mente para  visitar  um  senhor  conde  hospedado  em 
Monte  Alegre. 

—  Conde  de  quê  ?  —  perguntou  Angela  curiosa 
de  saber  que  titular  subia  as  montanhas  de  Barroso 
em  busca  de  seu  marido. 

—  Conde  de  Gondar,  —  disse  o  enviado. 

—  De  Gondar?! — observou  Angela  ao  marido 
—  Cuidei  que  só  havia  o  Paço  de  Gondar  de  meu 
pae ! 

Ora  Francisco  não  lia  gazetas,  nem  sabia  que  o 
general  Noronha  passasse  a  titular.  Não  ponderou 
por  isso  a  observação  da  esposa,  nem  inquiriu  a 
procedência  do  conde. 

Chegou  á  casa  nobre  de  Monte  Alegre. 

Levaram-no  á  presença  d'um  ancião  cego,  de  as- 
pecto cadavérico  e  tocantemente  amargurado. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  20g 

Costa  examinou-o  em  breve  espaço,  e  pergun- 
tou: 

—  Senhor  conde,  ha  que  tempo  começou  o  seu 
padecimento  d'olhos  ? 

—  Ha  nove  annos.  Estava  eu  em  Paris  a  tratàr- 
me  de  nevralgias  de  cabeça. 

—  E  quando  cegou  completamente  ? 

—  Ha  dois  annos,  tendo  voltado  a  Paris  para  con- 
sultar de  novo  os  especialistas. 

—  Disseram  a  vossa  excellencia  que  era  catarata 
negra  a  cegueira  í 

—  Justamente ;  mas  era  intempestiva  a  operação. 
Depois  cá  em  Portugal  dois  facultativos  que  con- 
sultei não  votaram  pela  operação:  um  d'elles  pen- 
dia a  crer  que  a  minha  cegueira  fosse  paralysia. 

—  E'  catarata  negra  —  disse  Francisco  Gosta. 

—  Pôde  operar-se  ?  —  perguntou  o  conde  agitado. 

—  Pôde,  senhor  conde. 

—  Vossa  senhoria  tem  esperanças  ? 

—  As  que  pôde  ter-se  em  operatória. 

—  E  espera  dar-me  vista  ? 

—  Espero,  creio  que  vossa  excellencia  verá. 

—  Feliz  hora  em  que  este  amigo  que  está  a  meu 
lado  me  levou  a  Ponte  do  Lima  a  noticia  de  vossa 
senhoria  !  —  exclamou  o  conde. 

—  O  senhor  conde  de  Gondar  —  disse  o  cava- 
lheiro de  Ghaves  ao  operador  —  é  o  bem  conheci- 
do general  Simão  de  Noronha. 

Gosta  fitou  o  semblante  do  cego,  e  baixou  machi- 
nalmente  a  cabeça. 

O  apresentante  proseguio ; 

—  Eu  tinha  visto  dois  prodígios  de  vossa  senho- 

14 


2IO  Os  brilhantes  do  brasileiro 

ria,  e  assim  que  soube  dos  padecimentos  de  sua 
excellencia  animei-me  a  solicitar  a  sua  vinda  com 
grande  confiança  na  pericia  do  senhor  doutor. 

—  Agradeço  a  vossa  excellencia  a  confiança  im- 
merecida  com  que  honra  o  pouco  que  sei  e  valho. 
Onde  quer  ser  operado  o  senhor  conde  ? 

—  Se  fosse  possivel,  na  terra  onde  vossa  senho- 
ria reside  —  respondeu  o  cego. 

—  Nas  Boticas  não  creio  que  haja  casa  capaz  — 
observou  Pisarro. 

—  Ha  —  contradisse  o  cirurgião. 

—  Sim  ?  —  accudiu  o  conde. 

—  E*  a  minha  —  tornou  Costa  —  Se  vossa  excel- 
lencia quizer. . . 

—  Quero,  meu  Deus,  quero ;  nem  posso  querer 
outra  coisa,  e  desde  já  lhe  aperto  as  mãos  com  o 
mais  sentido  reconhecimento  —  disse  o  velho  com 
alegria. 

—  Não  pôde  hospedar-se  melhor  —  confirmou  o 
parente. 

—  A  casa  é  de  aldeia  —  tornou  Costa  sorrindo  — 
mas,  em  quanto  o  senhor  "conde  for  cego,  dispensa 
o  luxo  dos  prnatos ;  e,  depois  que  tiver  vista,  irá 
para  sua  casa.  O  essencial  é  que  vossa  excellencia 
tenha  um  leito,  um  cirurgião  a  ponto,  e  pessoas  que 
o  sirvam.  Isso  lhe  ofFereço. 

—  Não  ouso  dizer  a  vossa  senhoria  que  remunera- 
rei o  que  é  remunerável  —  disse  o  conde  — ;  mas  o 
maior  numero  dos  seus  favores  não  se  retribue  a 
dinheiro. 

—  O  dinheiro  n'estas  aldeias,  senhor  conde  — 
volveu  Francisco  —  não   é  extremamente  appeteci- 


Os  brilhantes  do  brasiieir^o  211 

vel,  por  que  faltam  cá,  ainda  bem^  as  tentações  que 
o  encarecem. 

—  Não  sei  —  reflectiu  o  general  —  como  um  fa- 
cultativo de  tanto  merecimento  se  aclimatou  em 
Barroso  ! 

—  A  procura  d'uma  subsistência  parca,  bastan- 
tissima  á  felicidade  domestica. 

—  Então  é  aqui  feliz  ? 

—  Mais  do  que  dizem  que  se  pôde  ser  n'este 
mundo. 

—  E'  o  primeiro  homem  que  me  responde  isto  ! 
—  maravilhou-se  o  general  volvendo  a  cabeça  para 
o  lado  onde  sentia  gente  —  Nunca  foi  infeliz  ? 

—  Fui  apenas  infeliz  trinta  e  um  annos. 

—  E  quantos  tem  ?  ! 

—  Trinta  e  três,  senhor  conde. 

—  Então  a  sua  felicidade  é  recentíssima  !  Encon- 
trou-a  aqui  ? 

—  A  perfeita,  a  inexcedivel  encontrei-a  em  Bar- 
roso. 

—  Tem  familia  ? 

—  Mulher,  um  filho  e  uma  irmã. 

—  São  as  delicias  da  sua  vida  ! . . .  não  são  ? 

—  Certamente... — respondeu  Costa,  espantado  do 
tom  dulcíssimo  com  que  abemolara  aquellas  pala- 
vras a  selvagem  índole  do  pae  de  Angela,  e  do 
amante  de  Maria  d' Antas. 

—  Eu  também  fui  casado  —  tornou  o  cego  —  e 
amei  extremosamente  minha  mulher,  que  morreu 
de  dor  instantaneamente  quando  me  viu  ferido  de 
morte  em  batalha.  Comprehendo  esse  sublime  e  sa- 
grado amor  de  marido. . . 


212  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  E  de  pae?...  Não  tem  vossa  excellencia  a  boa 
fortuna  de  ter  filhos?. . . 

—  Não. . .  não  tive. . . — balbuciou  seccamente  o 
conde,  e  declinou  a  direcção  da  pratica,  pergun- 
tando : 

—  Quando  quer  vossa  senhoria  que  eu  vá  para  a 
sua  hospedeira  casa? 

—  A*manhã,  querendo  vossa  excellencia.  Hoje 
mando  dar  algumas  ordens  ao  aposento  que  o  se- 
nhor conde  vae  honrar. 

—  O'  senhor  doutor ! . . .  beijo-lhe  as  mãos.  E  po- 
derei mandar  chamar  um  escudeiro  que  me  trata 
ha  muitos  annos? 

—  Pois  não!  Esperarei  vossa  excellencia,  a  me- 
nos que  me  não  dê  ordem  de  o  acompanhar  desde 
aqui . . . 

—  Não,  senhor — atalhou  o  fidalgo  flaviense — eu 
acompanharei  o  meu  amigo. 

—  Recebo  as  ordens  de  vossas  excellencias  — 
disse  Francisco  José  da  Costa,  e  sahiu. 

—  Este  homem  pareceu-mc  extraordinário !  — 
considerou  o  conde  —  Tem  uns. ares  altivos,  não 
tem? 

—  E  mais  vossa  excellencia  não  lhe  viu  a  gravi- 
dade imponente  do  rosto!  As  maneiras  são  de  boa 
sociedade,  e  o  olhar  tem  uma  penetração  de  águia. 
Eu  estava  a  gostar  de  o  ouvir. 

—  Também  eu  !  Muito  lhe  devo,  meu  amigo !  De 
mais  a  mais  deu-me  um  operador  sympathico,  com 
uma  familia  que  me  hade  aligeirar  as  horas !  Muita 
lhe  devo!. .. 


i 


Os  brilhantes  do  brasileiro  2j3 

Entrou  com  tranquilla  apparencia  o  cirurgião  em 
casa. 

—  Que  tinha  o  conde?  perguntou. Angela. 

—  E'  cego,  filha. 

—  Oh  coitado!  E  cura-se? 

—  Cura. 

—  Deus  o  permitta.  Vaes  operal-o? 

—  Vem  elle  aqui  operar-se. 

—  A's  Boticas? 

—  A  nossa  casa. 

—  O  conde  vem  para  aqui!...  ai  que  casa 
esta ! . . . 

—  Não  te  disse  que  elle  é  cego,  menina  ? 

—  E  que  quarto  lhe  dás  ? 

—  O  nosso. 

—  Então  seja  o  meu,  disse  Joanna. 

—  O  nosso  é  melhor — tornou  Francisco — Cedes 
o  teu  quarto  ao  conde,  Angela  ? 

—  Pois  sim,  meu  amor.  Elle  que  homem  é? 

—  Tem  setenta  annos. 

—  Tão  velhinho  1  e  vaes  operal-o  ? 

—  Vou. 

—  D'onde  é  elle? 

—  Veiu  de  Ponte  do  Lima. 

—  De  Ponte  do  Lima  ?  De  que  familia  ? 

—  Dos  Noronhas  Barbosas. 

—  Então  é  meu  parente. 

—  E';  é  muito  teu  parente;  é  teu  pae. 

—  Meu  pae  ? !. . .  Estás  brincando,  Francisco  ? 

—  O  cego  conde  de  Gondar  que  vem  para  tua 
casa  é  teu  pae,  Angela ;  é  o  general  Simão  de  No- 
ronha. 


214  ^5  brilhantes  do  brasileiro 

—  E  elle  sabe?... — exclamou  Angela  oíFegante 
— Elle  sabe. . . 

—  Para  onde  vem?  não,  nem  quero  que  saiba 
depois  que  estiver  cá.  Desde  que  elle  entrar,  tu 
perdes  o  teu  nome,  e  chamas-te...  como  hasde 
chamar-te?  Maria.  Se  sentires  expansões  de  filha, 
hasde  reprimil-as.  Pede-t'o  o  teu  plebeu,  o  filho  do 
sacristão  honradíssimo  que  amou  seus  filhos  com 
ternura,  e  se  apartou  d'elles  promettendo-lhes  vi- 
gial-os  do  céo.  O  conde  de  Gondar  aqui  dentro  é 
um  doente  que  se  trata.  De  commum  entre  nós  ha 
apenas  operado  e  operador.  Tu  és  a  esposa  d'um, 
e  a  filha  repulsa  e  abandonada  do  outro.  Que  te 
diz  o  coração,  Angela  ? 

—  Que  elle  é  meu  pae. ..  e  mais  desgraçado  que 
eu. . . 

—  Pois  compadece-te,  ama-o,  mas  não  me  impe- 
ças o  restituir-lhe  a  vista.  Quando  elle  te  vir,  hade 
ser  tarde;  mas  podes  vêl-o  e  fallar-lhe  com  tanto 
que  immediatamente  á  operação,  e  mudados  os 
apositos,  elle  te  não  veja. 

—  Mas,  logo  que  me  veja,  é  provável  que  me  re- 
conheça. . . 

—  Se  assim  for,  a  tua  dignidade  te  aconselhará. 
Sobre  tudo,  é  preciso  que  attendas  aos  créditos  do 
cirurgião.  Se  sobrevierem  febres  em  resultado  de 
commoções  violentas,  perderei  o  prazer  de  mostrar 
ao  conde  de  Gondar  uma  família  feliz  sem  brasão 
no  portal  nem  ouro  nas  arcas.  Quando  o  conde 
souber  em  casa  de  quem  está,  desejo  muito  que  a 
senhora  de  casa  se  faça  tão  somente  conhecer  por 
filha  de  D.  Maria  d' Antas. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  21 5 

D'onde  se  prova  que  as  singulares  utopias  no 
amor  dos  dezoito  annos  similhavam  muito  em  Fran- 
cisco Costa,  aos  trinta  e  três  annos,  umas  singula- 
res utopias  de  dignidade  humana. 


XXVIII 


GonMenclas  do  cego 


Batia  alvoroçado  o  coração  de  Angela  quando  ao 
longe  tilintava  a  guisalhada  da  liteira,  em  que  en- 
trava nas  Boticas  o  conde  de  Gondar.  Joanna  e  Vi- 
ctorina,  pasmadas  da  casualidade,  faziam  considera- 
ções muito  religiosas  sobre  o  caso. 

Francisco  sahira  á  extrema  da  aldeia  para  guiar 
o  liteireiro.  O  cego,  sabendo  que  o  doutor  o  viera 
esperar,  mandou  parar  o  vehiculo,  para  apertar  a 
mão  do  «segundo  creador  da  sua  luz»  dizia  elle. 

Caminhou  Gosta  de  par  com  a  portinhola,  e  to- 
mou o  velho  nos  braços,  quando  a  liteira  parou  ao 
portão  do  quinteiro. 

Angela  e  as  outras  espreitavam  das  janellas.  Vi- 
ctorina  berizia-se,  murmurando : 

—  Ai !  como  elle  está  acabadinho !  Quem  viu  este 
senhor  ha  quarenta  annos  ! 

Angela  retrahiu-se  da  janella  para  limpar  as  la- 
grimas. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  21  j 

Subiu  o  conde  pelo  braço  de  Francisco  os  pou- 
cos degráos  que  levavam  do  quinteiro  á  saleta  des- 
tinada. 

A  melhor  alfaia  de  assento  era  uma  priguiceira 
almofadada  a  toda  a  pressa  por  Angela  e  Joanna  com 
um  colchãosinho  de  lã  e  chita  escarlate,  e  dois  tra- 
vesseiros com  suas  fronhas  de  folhos  engommados. 

—  Queira  vossa  excellencia  sentar  se,  e  reclinar- 
se,  senhor  conde  —  disse  o  facultativo  —  Convir- 
Ihe-ia  melhor  uma  poltrona ;  mas  não  a  tenho. 

—  Isto  é  magnifico  ! —disse  o  general  encostan- 
do-se  confortavelmente  —  Que  ar  de  frescura  tem 
esta  casa !  Parece  que  a  felicidade  tem  um  aroma 
particular,  primo  Pisarro  !— ajuntava  o  general  vol- 
tado para  onde  se  lhe  figurava  estar  o  fidalgo  de 
Chaves — Onde  vossa  excellencia  me  trouxe !...  Gomo 
isto  me  hade  parecer  o  céo,  quando  eu  poder  vêr 
a  casa  é  os  bem-aventurados  que  vivem  n'ella!.  .. 
Ainda  me  não  deu  a  honra  de  me  apresentar  a  sua 
senhora,  a  seu  filhinho  e  a  sua  irmã,  senhor  Costa. 

—  Eu  chamo-os :  são  os  criados  de  vossa  excel- 
lencia que  eu  apresento.  Maria  e  Joanna,  venham 
offerecer  os  seus  serviços  ao  senhor  conde. 

Entraram  as  duas  senhoras,  e  Victorina  com  um 
menino  de  anno  e  meio  no  colo. 

O  conde  fez  menção  de  levantar-se,  quando  sen- 
tiu frémito  de  vestidos. 

—  Não  se  levante  vossa  excellencia  —  susteve 
Francisco  —  Aqui  estão  minha  mulher  e  minha 
irmã. 

O  cego  estendeu  as  mãos,  e  tomou  as  das  senho- 
ras. 


2l8  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  A  da  esquerda  qual  é  ?  —  perguntou  elle. 

—  E'  minha  mulher. 

—  Parece-me,  notou  o  conde,  que  a  presença  de 
um  ancião  cego  a  commove  sensivelmente,  minha 
senhora !. . .  Vossa  excellencia  tem  a  sua  mão  tre- 
mula e  ardente...  Se  tem  compaixão  desta  velhice 
em  trevas,  deixe  estar  que  seu  marido  lhe  hade  dar 
a  satisfação  de  me  abrir  outra  vez  o  mundo  diante 
d'estes  olhos. 

—  Deus  o  permitta...  —  balbuciou  Angela. 

—  Pouco  heide  viver  —  tornou  o  conde  — ;  mas 
eu  queria  ainda  ver  o  sol,  um  dia  que  fosse,  o  céo 
que  não  vejo  ha  dois  annos,  contados  noite  por  noi- 
te, porque  eu  nunca  mais  distingui  o  dia  das  tre- 
vas. Vossas  excellencias  serão  testemunhas  da  mi- 
nha doida  alegria. . .  Ouço  a  voz  d'um  menino  que 
chama  sua  mãe...  E'  o  seu  filhinho,  minha  senhora  ? 

—  E',  sim,  senhor  conde. 

—  Deixe-me  beijal-o,  se  elle  me  não  tiver  medo. 
A  creancinha  foi  facilmente  aos  braços  do  velho, 

deixou-se  beijar,  c  ficou  a  olhai- o  no  rosto  com  in- 
fantil fixidez. 

—  Eis  aqui  a  florinha  que  desabrocha  sobre  uma 
sepultura...  —disse  o  velho  —  Que  mavioso  grupo, 
não  é?  Foi  em  França,  não  sei  em  qual  palácio  de 
Carlos  X,  que  eu  vi  assim  uma  pintura,  e  uma  le- 
genda que  dizia:  Aurora  que  alumia  um  tumulo.,. 
Ora  vá,  vá,  anjo,  que  deve  estar  admiradinho  de  se 
ver  entre  as  tristes  ruínas  d'uns  setenta  annos!... 
Aqui  o  tem,  senhora  D.  Maria. . . 

Angela  bem  queria  esconder  o  seu  pranto  do  fi- 
dalgo de  Chaves  que  a  contemplava  como  espanta- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  21  g 

do  de  tamanha  sensibilidade ;  mas  a  commoçao  ven- 
cia o  infundado  receio  de  denunciar-se. 

—  Senhor  conde,  disse  Pisarro,  rasão  tinha  vos- 
sa exceli  encia  para  suppor  que  a  senhora  D.  Maria 
estava  compadecida.  Ella  ahi  está  com  o  rosto  co- 
berto de  lagrimas. 

—  Obrigado  á  sua  compaixão,  obrigado  mil  ve- 
zes,- minha  senhora !  —  agradeceu  o  cego  com  a  voz 
tremente. 

—  Maria,  disse  Francisco,  dá  ordem  a  que  venha 
um  caldo  para  o  senhor  conde. 

—  Eu  não  tenho  vontade ;  mas  o  meu  dever  é 
obediência  ao  medico  —  condescendeu  o  conde. 

—  E  vossa  excellencia  jantará  um  pouquinho  mais 
tarde  —  continuou  Gosta,  dirigindo-se  ao  parente  do 
conde. 

—  Eu  vou  retirar-me  porque  me  esperam  em 
Monte  Alegre,  e  almocei  para  jantar  á  noite.  Voltarei 
aqui,  se  me  dá  licença,  de  três  em  três  dias. 

—  Sempre  que  vossa  excellencia  queira  honrar- 
me.  Depois  de  amanhã  hade  ser  operado  o  senhor 
conde.  Mandei  chamar  um  ajudante  a  Chaves,  e  só 
então  aqui  estará. 

Retirou-se  o  flaviense,  felicitando  o  primo  pela 
ventura  de  ter  achado  o  seio  de  tão  carinhosa  fa- 
mília. 

—  Quando  aqui  estiver  três  dias,  cuidarei  que  é 
a  minha  —  disse  o  cego  tomando  o  caldo  das  mãos 
de  Angela,  emquanto  Joanna  lhe  aconchegava  as 
almofadas  para  encosto  dos  braços. 

E,  no  correr  d'este  lance,  Victorina  com  as  mãos 
postas,  e  os  beiços  chegados  ás  pontas  dos  dedos, 


220  Os  brilhantes  do  brasileiro 

€   a    cabeça  um   pouco  inclinada,  não  desfitava  os 
olhos  absortos  da  cabeça  de  Simão  de  Noronha. 

Estava  ella  comparando  o  gentil  capitão  de  ca- 
vallaria,  o  mancebo  dos  olhos  negros  e  tez  morena, 
o  fragueiro  caçador  que  ensinava  cavallos  a  galgar 
penedias,  cmfim,  o  galhardo  amante  de  D.  Maria 
d'Antas.  E,  quando  a  idéa  da  veíha  tropeçava  n'este 
nome,  como  n'um  tumulo,  queria  ella  ver,  á  beira 
do  ancião,  o  espectro  terribilissimo  d'uma  mulher 
estrangulada. 

Ao  outro  dia,  o  cirurgião  foi  vêr  os  seus  infermos 
no  circuito  de  algumas  léguas,  recommendando  á 
esposa  : 

—  Sê  o  que  deves  ser,  minha  filha.  Sopeza  o  co- 
ração, se  o  sentires  mais  pusillanime  do  que  eu  de- 
sejo. 

—  Conta  commigo,  Francisco.  Elle  não  me  vê 
chorar. 

As  duas  senhoras  sentaramse  em  frente  do  ca- 
napé, costurando  nas  faixas  e  pannos  necessários 
para  o  curativo.  Antoninho  agatanhava  á  priguicei- 
ra,  e  passeava  amparando  se  á  beira  do  estofo  ou 
aos  joelhos  do  cego,  que  nunca  o  deixava  passar 
sem  um  beijo.  A  creança  ria  ás  guinadas,  quando 
vingava  illudir  o  velho,  que  se  fingia  zangado  com 
o  engano. 

Quem  seis  dias  antes  tivesse  visto  no  palacete 
de  Ponte  o  solitário  cego,  de  fronte  abatida  para  o 
peito,  braços  pendidos,  ou  agitados  a  espancar  as 
trevas  interiores  em  busca  de  um  lampejo  que  lhe 
deixasse  entrever  a  vida  d'além  tumulo  I  Quem  ago- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  221 

ra  o  visse  na  casinha  das  Boticas,  a  brincar  com  um 
menino,  a  rir  das  creancices  que  não  via,  a  folgar 
que  Joanna  lhe  descrevesse  as  cabanas  da  aldeia, 
os  trajos  das  barrozans,  a  sua  maneira  de  dizer,  as 
bagatellas  com  que  pessoas  alegres  costumam  ali- 
geirar as  horas ! . . . 

Esta  incongruente  transfiguração  quem  na  ope- 
rou ?  A  esperença  da  luz  ?  o  contacto  da  familia  fe- 
liz ?  a  influencia  mysteriosa  do  que  ha  ahi  sem  no- 
me e  sem  idéa  nos  actos  da  Providencia  ? 

Tudo  isto  e  o  mais  que  possa  occorrer  ás  almas 
intelligentes  de  espiritualismo,  não  nos  dá  a  causa 
de  tão  capital  mudança. 

Eu  ousaria  explicar  tudo  em  pouco.  A  palavra 
Deus  abrange  o  incógnito  de  céo  e  terra,  o  incom- 
prehensivel  da  alma,  e  o  insondável  liame  de  coisas 
que  a  rasão  natural,  de  pouco  alcance  mas  inflexi- 
velmente orgulhosa,  capitula  de  paradoxos.  Deus. 
Por  que  não? 

Se  Simão  de  Noronha  delinquira,  o  açoute  da  jus- 
tiça não  lhe  estalava  desde  o  instante  da  ira,  nas 
fibras  do  corpo  ?  Não  se  lhe  apagou  primeiro  lá  den- 
tro a  lâmpada  da  fé  ?  Não  lhe  tirou  Deus  o  amor 
paternal  para  o  privar  da  ternura  da  filha?  Não  lhe 
fez  odiosa  a  sociedade  para  o  infernar  bem  dentro 
de  si  mesmo  ? 

Pois  se  é  racional  reconhecer  a  Providencia  na 
expiação  de  tão  longo  praso,  será  absurdo  reconhe- 
cer-lhe  a  misericórdia  n'aquelle  diluculo  de  contenta- 
mentos, apoz  quarenta  annos  de  noite,  de  ira,  de 
tédio,  de  atheismo,  de  remorso,  e  de  inferno  ? 


222  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Alegremente,  pois,  dizia  o  conde  : 

—  A  senhora  D.  Maria  falia  muito  pouco.  A  se- 
nhora D.  Joanna  é  mais  conversadora. 

—  Eu  fallo  pouco,  senhor  conde?. . .  Tenho  um 
génio  melancólico. .  .  — disse  Angela. 

—  Ainda  lhe  não  disse,  minha  senhora,  que  o  seu 
metal  de  voz  desperta-me  recordações  tristes ;  e 
não  obstante,  consolome  de  a  ouvir.  Conheci  o  tim- 
bre da  sua  voz  não  vulgar  em  duas  pessoas. . . 

Angela  e  Joanna  entre-olhavam-se  suspensas  dos 
tardos  dizeres  do  conde.  Elle,  porém,  recolheu-se, 
abateu  o  rosto  cabido  e  como  subitamente  macerado. 

—  Está  tão  triste,  senhor  conde  !  —  disse  Joan- 
na—  Não  queremos  vêl-o  assim!...  Não  pense 
no  passado.  Lembre-se  só  de  que  vae  recuperar  a 
sua  vista.  . . 

—  Para  ver  sepulturas,  e  ver  também  onde  hei- 
de  abrir  a  minha. . . 

—  Para  ver  as  pessoas  que  lhe  desejam  muitos 
annos  de  alegria,  e  uma  é  minha  irmã...  Maria, 
outra  sou  eu,  e  meu  mano...  Aqui  tem  já  vossa 
excellencia  três  pessoas  que  lhe  querem  muito... 

—  E  eu  sei  quanto  pôde  a  commiseração  em  suas 
excellentes  almas,  minhas  senhoras...  Os  incom- 
modos  que  eu  tenho  já  dado  para  me  não  faltar  ne- 
nhuma d'estas  niquices  de  velho,  e  de  cego...  A 
pobre  Victorina  toda  a  noite,  assim  que  eu  gemia, 
estava  ao  meu  lado.  .  Penso  que  era  ella ;  que  d'uma 
ou  duas  vezes  quem  me  fallou  foi  a  senhora  D.  Ma- 
ria, não  foi  ? 

—  Fui,  senhor  conde.  Eu  estava  ainda  a  pé  nas 
minhas  resas,  e  mais  minha  irmã. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  223 

—  Peçam  a  Deus  por  mim,  virtuosas  senhoras. 

—  Pedimos,  pedimos,  senhor  conde — disse  Joanna. 

—  O  doutor  por  lá  anda  a  moirejar  na  vida  de 
cabana  em  cabana.  ..  — disse  o  conde. 

—  E'  verdade.  Tem  dias  que  sae  ao  romper  d'al- 
va  e  recolhe  alta  noite  —  respondeu  Angela. 

—  Que  voz  a  sua  minha  senhora !  —  repisou  o 
cego  bamboando  a  cabeça  —  faz-me  sentir  espanto- 
sas hallucinaçoes  í. . . 

—  Mas  eu  queria  que  a  minha  voz  o  não  morti- 
ficasse, senhor  conde.  .. 

—  Não  me  mortifica  ;  enche-me  o  coração  de. . . 

—  Saudades  ?  —  perguntou  Joanna  com  susto,  em 
quanto  Angela  lhe  fazia  signal  para  não  insistir  em 
taes  indagações. 

—  Saudades...  e  agonias  sem  nome...  Heide  dizer 
verdade  a  vossas  excellencias...  Na  minha  mocidade 
amei  uma  dama,  cuja  voz  era  a  da  sr.*D.  Maria;  e 
tive  uma  filha,  que  também  assim  fallava...  Agonias 
e  saudades...  é  o  que  me  resta  de  ambas. ..  Está 
bom... — suspendeu-se  o  conde  sacudindo  a  cabeça — 
Está  bom !. . .  Ora  que  nem  aqui  me  deixam  estas  fu- 
nestas memorias !...  Eu  estava  a  dizer  que  dei  mui- 
to incommodo  esta  noite...  A'manhã  deve  ahi  chegar 
o  meu  escudeiro,  um  criado  que  tem  quarenta  e  tan- 
tos annos  de  casa,  que  me  tem  aturado  muito,  e 
que  ficará  ao  pé  da  minha  cama  para  vossas  ex- 
cellencias e  a  sua  criada  poderem  dormir  descan- 
çadas. 

Angela,  olhando  para  Joanna,  abriu  a  bocca  em 
atitude  de  susto,  quando  ouviu  dizer  que  vinha  o 
escudeiro.  João  Pedro  reconhecel-a-ia  logo,  e  com 


224-  Os  brilhantes  do  brasileiro 

qualquer  palavra  de  espanto  perturbaria  o  animo  do 
pae. 

—  Seu  marido  é  natural  do  Porto?  Sr.*  D.  Ma- 
ria ?  —  perguntou  o  cego,  apoz  longa  pausa. 

—  Sim,  senhor  —  titubeou  Angela. 

—  E  vossa  excellencia  também  ? 

—  Sim,  senhor. 

—  Queria-lhes  fazer  uma  pergunta  ;  mas  bem  co- 
nheço que  é  ociosa... 

—  Que  era,  senhor  conde?  —  insistiu  Joanna. 

—  Se  tiveram  alguma  vez  noticia  de  existir  no 
Porto  um  brasileiro  de  Barrosas,  de  quem  me  não 
lembra  o  nome,  casado  com  uma  senhora  chamada 
Angela,  que  depois  enviuvou,  e  casou  segunda  vez... 

Angela  fez  á  cunhada  um  signal  negativo. 

—  Nada,  não  conhecemos,  nem  ouvimos  fallar... 

—  Logo  vi.  Vão  lá  saber  em  terra  tamanha... 

—  Mas,  se  se  pedissem  informações... —  lembrou 
Joanna. 

—  Já  as  mandei  procurar... 

—  E  não  soube  nada  ? 

—  Soube  o  que  disse,  minhas  senhoras :  que  An- 
gela enviuvara,  casara  segunda  vez,  e  sahira  não  se 
sabia  para  onde. 

—  Vossa  excellencia  mandou  ha  muito  saber?  — 
perguntou  Joanna. 

—  Ha  três  mezes  o  meu  escudeiro;  por  lá  andou 
cinco  dias. 

—  E  essa  senhora...  —  balbuciou  Angela. 

—  Seria  parenta  do  senhor  conde  ?  — interveio 
Joanna. 

—  Era  uma  infeliz,  filha  d*um  homem,  que  tinha 


Os  brilhantes  do  brasileiro  225 

sido  bom,  e  infortúnios  grandes  desvairaram  e  pre- 
verteram.  Afinal,  esse  homem  como  se  tinha  sepul- 
tado vivo,  perdeu  nas  trevas,  onde  se  abysmou,  al- 
ma, coração,  honra  e  tudo.  Deus,  que  o  precipita- 
ra, levantou-o  um  dia,  não  sei  se  para  lhe  acrescen- 
tar o  supplicio,  renascendo  lhe  o  coração  e  sentimen- 
tos de  amor  a  sua  filha.  Procurou-a  então;  mas... 
tarde. 

Escutaramno  silenciosas  e  estupefactas  as  duas 
senhoras. 

A  conversação  foi  interrompida  pela  entrada  do 
cirurgião,  porém,  o  conde,  azado  o  ensejo,  prose- 
guiu: 

—  Sr.  Costa,  eu  quero  dever  lhe  uma  grande 
fineza ! 

—  Mande-me  vossa  excellencia. 

—  Estas  senhoras  já  me  ouviram  com  muita  pa- 
ciência e  compaixão  fallar  d'uma  filha  que  tive... 

Francisco  olhou  com  assombro  para  ambas. 
Simão  de  Noronha  continuou : 

—  Heide  pedir-lhe  que  empenhe  as  suas  amisades 
e  relações  no  Porto  para  descobrir-se  o  destino  de 
uma  senhora,  de  nome  Angela,  casada  que  foi  com 
um  brasileiro,  já  fallecido,  e  casada  depois  com  não 
sei  quem.  O  meu  escudeiro  que  chega  talvez  ama- 
nhã pôde  dizer  a  vossa  senhoria  o  nome  do  brasilei- 
ro, com  o  qual  a  indagação  nos  levaria  a  descobrir 
a  paragem  de  minha  filha. 

—  Promptamente  escreverei  a  pessoas  que  hãode 
conseguir  o  que  for  possivel  —  disse  Francisco  sen- 
sivelmente  perturbado  —  Tenha   vossa   excellencia 

esperanças;  mas  que  não  venham  alvorotar-lhe  o 

i5 


220  Os  brilhantes  do  brasileiro 

espirito.  Precisamos  de  toda  a  sua  placidez  nervosa, 
e  de  completa  inacção  de  espirito.  Depois  que  vossa 
excellencia  estiver  no  goso  da  sua  vista,  buscaremos 
tudo  que  possa  impressional-o  alegremente.  Se  sua 
filha  existir,  ella  será  também  comigo  portadora  de 
luz:  eu,  a  dos  olhos ;  ella,  a  da  alma. 


u 


XXIX 


Luz! 


Estão  prestes  o  operador  e  o  ajudante. 

Angela,  baldado  o  esforço  que  empregou  para  as- 
sistir, affastou-se  pallida  e  tremula,  para  o  seu  ora- 
tório. 

Joanna  e  Victorina  assistiam  para  coadjuvar  o 
operador. 

O  conde  treme. 

—  General !  —  disse  Francisco  Costa  —  Quem  se 
enrostou  com  os  esquadrões  de  cavallaria  de  Cha- 
ves imperturbável,  não  desmaia  diante  d'uma  lami- 
nasinha  de  aço. 

—  Tremo  de  medo;  mas  não  é  medo  do  golpe. 
Se  depois  de  me  rasgar  as  névoas,  doutor,  eu  não 
vejo  mais  que  trevas  ! 

—  Será  ver  o  que  ninguém  viu,  senhor  conde.  Ver 
trevas,  é  vista  dupla,  que  eu  não  prometto  dar  a 
vossa  excellencia.  Basta  que  veja  a  luz  —  replicou 
jocosamente  o  operador  —  Não  obstante,  eu  encon- 


228  Os  brilhantes  do  brasileiro 

trei  essa  imagem  em  Milton,  que  tinha  a  authori- 
dade  de  cego. 

O  operador  escolheu  o  methodo  da  extracção. 

Atravessada  com  o  kératotomo  a  córnea  trans- 
parente, o  humor  crystallino,  cuja  opacidade  impe- 
dia a  impressão  dos  raios  visuaes,  depois  de  compri- 
mido o  globo  brandamente,  destacou-se,  e  sahiu  no 
gancho  de  Wenzel. 

Terminada  a  operação,  o  conde  viu  a  mão  do 
operador,  tomou-a  nas  suas  e  beijou- a. 

—  Vi  1  meu  Deus !  Vejo  o  seu  rosto,  sr.  Costa  — 
exclamou  Simão  de  Noronha  —  Aqui  estão  duas 
senhoras,  não  estão  ? . . . 

—  E'  minha  irmã  e  Viciorina. 

—  E  sua  senhora  ? 

—  Está  preparando  compressas. 

—  Eu  queria  vêl-a. . . 

—  Noutra  occasião.  Vamos  já  collocar  os  appo- 
sitos. 

—  Já  ? !  Mais  quantos  dias  cego ! 

—  Quarenta  e  oito  horas  em  que  vossa  excellen- 
cia,  pensando  nos  cegos  irremediáveis,  cuidará  que 
as  horas  são  instantes. 

Conduzido  para  o  leito  o  operado,  em  quarto 
quasi  de  todo  escuro,  assentaram-lhe  chumaços  mo- 
lhados sobre  os  olhos  cingidos  de  ligaduras. 

Terminado  o  curativo,  Angela  voltou,  apertou  a 
mão  do  pae,  e  disse-lhe  estremecidamente : 

—  Parabéns  para  vossa  excellencia  e  para  nós, 
senhor  conde ! 

—  Não  tive  a  fortuna  de  vêl-a,  sr.*  D.  Maria !. .  . 
—  queixou-se  o  velho. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  22g 

—  Estava  lá  dentro. .  r 

—  E  não  esteve  aqui  em  quanto  me  operaram  ? 
Não  a  senti. . . 

—  Estava  pedindo  a  Deus  por  vossa  excellencia. 

—  E'  um  anjo,  minha  querida  senhora!  Esta  ca- 
sa... toda  ella  é  um  sanctuario. . .  Olhe  que  vi 
seu  marido.  Já  o  conheço.  Tem  um  bello  aspecto ! 
E'  trigueiro  e  muito  barbado,  não  é  ? 

—  E',  sim,  senhor  conde. 

—  Sua  cunhada  não  a  divisei  bem;  mas  pareceu- 
me  branca  e  magra,  não  é  ? 

—  E'  sem  duvida. 

—  A  criada  conheci  que  era  velha;  mas  estava 
encuberta  pela  sr.*  D.  Joanna. . . 

—  As  velhinhas  escondem-se  —  occorreu  a  jovial 
Victorina  —  E'  o  que  faltava  apparecer  uma  velha 
carcomida  logo  de  pancada  a  um  senhor  que  não 
via  creatura  viva  ha  dois  annos ! 

—  Pois  quero  e  desejo  vêl-a,  e  muitas  vezes, 
sr.*  Victorina.  Tem-me  tratado  com  muito  amor. 
Já  tive  outra  criada  com  o  seu  nome.  Onde  isso 
vac  !  Ha  bons  trinta  e  dois  annos  que  a  não  vejol... 

—  Já  deve  ser  da  minha  edade  então...  — obser- 
vou a  velha,  tregeitando  para  as  damas. 

—  Sim,  se  vocemecê  anda  pelos  setenta. . . 

—  Setenta!  Deus  nos  acuda!...  Pois  eu  tenho 
lá  setenta  annos! 

—  Então  quantos  tem  vocemecê  ? 

—  Fiz  sessenta  e  nove  ha  seis  mezes. 

—  Ah!  então  recolho  o  meu  juizo  !  —  casquinou 
o  conde  —  Está  vocemecê  muito  nova,  sr.*  Victori- 
na. Cuidado  com  as  iliusões  da  mocidade,  menina! 


23o  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Riam  as  senhoras,  e  Victorina  continuou  a  pro- 
vocar as  jocosidades  do  conde,  que  eram  ouvidas 
com  admiração,  mormente  pela  filha  que,  nos  raros 
dias  de  convivência  com  seu  pae,  o  não  vira  sorrir 
uma  vez  só. 


Quando,  ao  cahir  da  tarde,  se  annunciou  a  che- 
gada de  João  Pedro,  sahiu  a  encontral-o  no  quin- 
teiro Angela. 

O  velho  embasbacou,  e  encostou-se  á  mula,  de 
que  desmontara,  por  que  as  pernas  lhe  faltavam. 

A  filha  do  conde  de  Gondar  em  poucas  palavras 
illucidou-o  sobre  o  que  lhe  convinha  fazer  para  que 
a  cura  de  seu  pae  não  fosse  perturbada  por  alvo- 
roços de  espirito  ou  nevralgias  que  lhe  irritassem 
os  olhos. 

Logo  que  o  ensejo  se  apropositou,  Francisco  Cos- 
ta, estando  já  precavido  o  escudeiro,  volveu  a  fal- 
lar  ao  conde  no  seu  intento  de  procurar  Angela. 

—  Ahi  está  João  Pedro  que  dirá  a  vossa  senhoria 
o  nome  do  homem  com  quem  minha  filha  foi  ca- 
sada. 

O  escudeiro  custava-lhe  a  conter  em  posição  si- 
suda as  mandibulas  abertas  pelo  riso,  quando  res- 
pondeu, voltado  para  Angela  : 

—  Chamava-se  Hemorragilde. 

Abafaram  todos  o  froixo  da  gargalhada,  tirante  o 
conde  que  murmurou : 

—  Vejam  que  nome!  Parece  gothico;  mas  ainda 
parece  mais  nome  de  moléstia...  Hemorragilde!... 

■—  Se  o  senhor  conde  permittir  —  diss^e  o  cirur- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  2S1 

gião  —  vae  João  Pedro  ao  Porto  com  cartas  minhas, 
visto  que  o  dispensamos  aqui,  e  pôde  lá  fazer  bons 
serviços  ao  nosso  intento. 

—  Pois  que  vá  onde  vossa  senhoria  ordenar  — 
annuiu  o  conde. 

—  E,  segundo  as  noticias  que  nos  for  communi- 
cando,  vossa  excellencia  ordenará  o  que  hade  fazer- 
se.  Conjecturemos  que  elle  encontra  a  sr.*  D.  An- 
gela. Que  manda  o  senhor  conde  que  elle  diga  a 
sua  fílha  ? 

—  Que  immediatamente  venha  para  minha  com- 
panhia—  deliberou  sem  detença  o  general — que  não 
espere  novas  ordens ;  que  se  recolha  á  minha  casa 
de  Ponte,  e  espere  por  mim...  e  por  todos  nós... 
por  que  vossa  senhoria  e  estas  senhoras  iriam  co- 
migo, não  é  verdade  ?  iriam  ser  testemunhas  da  fe- 
licidade que  me  começou  no  seio  caritativo  e  amo- 
roso d'esta  familia... 

—  E,  se  sua  filha,  senhor  conde,  quizesse  vir  aqui 
mesmo  encontrai  o,  não  seria  isso  antecipar-lhe  a  ella 
o  jubilo  de  lhe  beijar  as  mãos  ?. . . 

—  Sim...;  mas  eu  queria  poder  vêl-a...  Se  ella 
viesse  em  quanto  dura  esta  escuridão,  seria  grande 
e  dolorosa  a  minha  anciã. . . 

—  Concordo,  e  aconselho  até,  que  ella  venha  depois 
que  vossa  excellencia  estiver  convalecido  —  obtem- 
perou Francisco. 

—  Mas  o  doutor  parece  que  dá  a  vinda  como  pos- 
sível !  —  admirou  o  conde. 

—  Pois  não  é  possível?!  Afigura-se-me  até  pro- 
vável... O  impedimento  único  seria  ter  ella  morrido. 
Se  existe,  heide  descobrila  mediante  as  diligencias 


232  Os  brilhantes  do  brasileiro 

dos  meus  amigos.  Encontrada  ella,  tem  vossa  excel- 
lencia  a  sua  filha  nos  braços. 

—  E,  se  ella  m'os  repellisse!... —  conjecturou  o  ve- 
lho, quebrado  do  vigor  com  que  estivera  dialogando. 

—  Seria  incrivel !... — objectou  o  marido  de  Angela. 

—  Eu  também  a  repelli... —  contraveio  o  conde. 

—  Tão  justificados  seriam  os  motivos... 

—  As  calumnias,  e  mais  que  tudo...  a  terrivel  doen- 
ça da  minha  alma...  a  peçonha  que  m'a  queimava... 
a  desesperada  tristeza  que  me  ia  levando  á  demên- 
cia, e  me  deixou  o  peor...  que  foi  a  vida,  a  consciên- 
cia dos  meus  crimes  encadeados  uns  n'outros,  como 
os  fuzis  do  grilhão  que  amarra  o  criminoso  ao  ce- 
po... Ahi  vem  o  meu  demónio...  —  disse  reconcen- 
trado  o  conde . . . 

—  Mal  vamos  assim! — acudiu  o  facultativo,  to- 
mando-lhe  o  pulso  —  Senhor  conde,  domine-se,  ar- 
ranque-se  d^essas  intermittentes,  pelo  menos  em 
quanto  não  estiver  inteiramente  restaurado. 

—  Senhor  conde  I  — rogou  ternissimamente  Ange- 
la—  peço-lhe  pelo  divino  amor  de  Deus  que  não  se 
afflija. . .  Diz-me  o  coração  que  sua  filha  o  ama,  e 
lhe  dará  annos  de  muita  alegria  e  socêgo  d'alma. 
Verá  que  não  me  engana  o  presentimento...  O  seu 
mordomo  vae  amanhã  para  o  Porto.  D'aqui  a  oito 
dias  pôde  muito  bem  acontecer  que  sua  filha  aqui 
esteja,  a  pedir-lhe  perdão,  se  cahiu  n^algum  erro... 

—  Não  cahiu: — exclamou  o  velho — precipitaram- 
na;  fui  eu,  foram  todos  os  que  deviam  amparal-a 
com  o  seio,  com  o  coração,  se  ella  pendesse  a 
cahir. . . 

—  Pois  bem,  senhor  conde;  melhor  assim:  não 


05  brilhantes  do  brasileiro  233 

terá  vossa  excellencia  difficuldade  em  perdoar-lhe, 
nem  ella  ousará  accusar  seu  pae  nem  seus  paren- 
tes. 

—  Se  ella  estivesse  no  seu  coração  como  está  na 
sua  voz,  minha  senhora  I  —  murmurou  o  velho,  es- 
tendendo-lhe  a  mão  para  lh'a  apertar  em  impulsos 
de  reconhecimento. . . 


João  Pedro  foi  para  casa  d'um  lavrador  da  fre- 
guezia,  levado  pelo  doutor  sob  qualquer  pretexto, 
e  ahi  esperou  as  ordens,  contentissimo  de  ter  parte 
no  feliz  desfecho  que  promettia  o  enredo  da  recon- 
ciliação entre  a  fidalga  e  seu  pae. 

Em  quanto  corria  o  tempo  necessário  a  dissimu- 
lar a  ida  do  mordomo  e  vinda  da  resposta,  exami- 
nou Francisco  os  olhos  do  conde,  e  exultou.  A  ci- 
catrisação  era  excellente.  A  photophobia  era  quasi 
nulla.  O  velho  já  via  atravez  de  lentes  escuras  gra- 
duadas as  miudezas  dos  objectos,  bem  que  a  insis- 
tência lhe  desse  vagados  e  ligeiras  dores.  Ainda  as- 
sim, Francisco  ordenou  que  continuasse  a  escurida- 
de no  quarto. 

Entretanto,  lamentava  o  conde  que  D.  Maria  esti' 
vesse  na  cama  soíFrendo  uma  impertinente  enxaque- 
ca, ao  tempo  que  elle  tirara  o  apposito;  e  que  as  tre- 
vas do  quarto  fossem  tantas  que  elle  não  podia  des- 
tacar-lhe  as  feições,  por  que  via  tudo  a  vulto. 

Passados  os  dias  convenientes  á  simulada  inda- 
gação. Costa,  fingindo  alvoroço,  disse  ao  conde : 

—  Alviçaras  !  —  Aqui  está  carta  de  João  Pedro 
para  vossa  excellencia. 


234  Os  brilhantes  do  brasileiro 

—  Alviçaras  !  —  disse  o  conde  —  Pois  quem  sabe 
o  que  ahi  vem  ? 

—  Se  elle  não  encontrasse  boas  novas,  é  natural 
que  voltasse  logo,  ou  escrevesse  mais  tarde. 

—  Leia,  leia  então,  meu  amigo. 

A  carta  dizia  que  a  sr.^  D.  Angela,  no  dia  imme- 
diato,  sahia  para  as  Boticas,  com  seu  marido  e  fi- 
lho. Acrescentava  que  a  fidalga  vivia  muito  pobre, 
e  casada  com  um  plebeu. 

—  Ella  será  rica,  e  elle  nobre... —  murmurou  o 
senhor  do  paço  de  Gondar. 

—  Todavia,  observou  o  filho  do  sacristão  —  mais 
grato  seria  a  vossa  excellencia  que  ella  houvesse 
casado  com  um  homem  de  geração  histórica. 

—  Todas  as  gerações  são  históricas,  sr.  Costa  — 
acudiu  o  conde  —  A  geração  da  plebe  franceza  da 
minha  mocidade  é  a  mais  histórica  de  quantas  hou- 
ve. Está  enganado,  doutor,  comigo,  pelo  menos.  Eu 
casei  com  uma  pastora  dos  rebanhos  dos  meus  ca- 
seiros. Ghamava-se  Josefa  Salgueira.  Amei-a  como 
se  ella  descesse  d'um  throno  para  me  receber.  Ao 
mesmo  tempo  que  a  pastora  morria  de  dor  por  me 
ver  ferido,  a  imperatriz  da  Rússia  era  uma  devassa, 
e  a  rainha  de  Portugal  era. . .  a  esposa  do  sr.  D. 
João  VI. .  .  Vamos  ao  caso:  vem  minha  filha  ?  Dê- 
me  agora  os  parabéns,  e  deixe-me  apertar-lhe  a  mão 
de  prophetisa,  sr."  D.  Maria.  . . 

—  Vae  ver  a  sua  filha. . .  —  balbuciou  Angela  — 
Que  transportes  de  santa  alegria  vae  ter  a  ditosa 
senhora  I . . . 

—  Que  tem  de  mais  a  mais  um  filho  para  brin 
car  com  o  Antoninho. . .  —  acrescentou  o  general 


Os  brilhantes  do  brasileiro  235 

com  pueril  contentamento,  rindo  com  extranho  ges- 
to —  O'  doutor,  n'esse  dia  dá-me  luz  em  abundân- 
cia ?  Entra  o  sol  n'este  quarto  ? 

—  Sim,   senhor  conde.  N'esse  dia,  luz  á  descri- 
pção ! 


XXX 


Finalmente 


E  o  dia  chegou. 

Angela,  de  manhã,  pediu  vénia  ao  conde  para  ir 
esperar  a  Monte  Alegre  sua  filha. 

—  E'  grande  honra  que  ambos  recebemos — agra- 
deceu o  velho  —  mas,  minha  senhora,  peça  a  seu 
marido  que  me  tire  dos  olhos  estes  veosinhos  es- 
curos, e  consinta  que  me  entre  uma  resiea  de  sol 
á  chegada  de  Angela. 

—  Eu  vou  recommendar  o  seu  justo  pedido,  se- 
nhor conde  —  disse  Angela,  e  simulou  sair  de  casa. 

Francisco  substituio  os  vidros  por  outros  mais 
claros  nos  olhos  do  convalescente  e  mandou  abrir 
as  janellas  da  saleta,  por  feição  que  o  interior  da 
alcova  recebesse  bastante  luz. 

O  rosto  do  velho  banhara-se  de  consolação,  ven- 
do distinctamente  Joanna,  e  o  menino  que  lhe  brin- 
cava com  os  óculos,  pondo-os  no  próprio  nariz  e 
chamando-se  papão. 


Os  brilhantes  do  brasileiro  23  j 

—  Venho  ajudalo  a  vestir,  senhor  conde  —  disse 
o  facultativo  —  Pôde  vossa  excellencia  passar  da 
cama  para  a  priguiceira,  se  lhe  apraz. 

—  Se  eu  podesse. . .  Mas  as  pernas,  doutor? 

—  As  pernas  hão  de  ser  medicadas  com  bifes  e 
vinho  do  Porto.  Queremos  exercicio,  apetite,  e  bom 
estômago.  Toca  a  levantar,  meu  general. 

Ergueu-se  trôpego  e  amparado  a  Francisco.  De- 
pois de  vestido,  olhava  para  o  sobrado,  e  chorava 
de  alegria,  dizendo  : 

—  Já  vejo  o  chão  que  piso...  Sahi  da  sepul- 
tura . . . 

—  Ora,  senhor  conde  —  tornou  o  marido  de  An- 
gela, depois  que  o  reclinou  no  canapé  —  Vossa  ex- 
cellencia deve  preparar-se  para  ver  sua  filha,  como 
pae,  mas  também  como  homem.  Se  receia  grande 
abalo,  predisponha-se  para  rebater  as  expansões  no- 
civas á  sua  compleição  debilitada. 

—  Não  hada  haver  duvida.  Já  estou  preparado... 
Sinto  o  coração;  mas  coração  de  setenta  annos. 

Annunciou-se  a  chegada  de  Angela : 

O  conde  sentou-se  com  esforçado  ímpeto. 

—  Então ! — acalmou  Francisco — Não  quero  gran- 
des movimentos,  senhor  conde  ! . . . 

—  Oh  doutor !  Não  me  deixa  ser  ao  menos  pae  l 
sorriu  o  velho. 

Angela  entrou  vestida  como  enr»  casa,  apenas  co- 
berta d'uma  capa  de  panno  preto.  Acercou-se  do 
pae,  ajoelhou,  e  abraçouo  pela  cintura.  O  conde  in- 
clinou a  face  para  a  cabeça  d'ella,  e  murmurou: 

—  Deixa-me  ver  a  tua  face,  minha  filha. 
Angela  encarou-o   entre  risonha  e  lagrimosa.  O 


238  Os  brilhantes  do  brasileiro 

velho  contemplou-a  com  a  fixidez  d'uma  vista  dé- 
bil, beijou-a  na  fronte,  e  disse  : 

—  Bem  vinda  sejas!...  E's  a  minha  pobre  Ange- 
la !.. .  Perdoa  á  tua  fatalidade  e  á  minha. . .  levan- 
taste, e  senta  te  aqui  ao  meu  lado. 

Joanna,  Victorina,  e  João  Pedro  choravam  solu- 
çantes. 

—  Por  que  chora  esta  gente  ?  —  perguntou  o  ge- 
neral. 

—  A  satisfação  de  ver  Deus  n'este  lance  —  disse 
Fi^ncisco. 

—  Então  alegrem-se  ! — tornou  o  conde  —  Angela, 
que  é  de  teu  marido  e  de  teu  filho  ? 

—  Meu  marido  está  aqui. . .  — e  apontou  Fran- 
cisco. 

—  Onde  ?  Quem  ?  teu  marido  ! . . .  quem  é? 

—  Eu,  senhor  conde  —  disse  Gosta,  inclinandose 
a  beijar-lhe  a  mão.  —  Antoninho,  vem  cá... 

A  creancinha  correu  aos  braços  do  pae,  que  o 
levantou  aos  lábios  do  avô. 

—  Deixem  me  pensar  n'isto  que  é  um  sonho,  meu 
Deus!  —  volveu  o  general  —  Tu,  Angela...  és  a 
esposa. . .  de  Francisco  Costa. . . 

—  Sou,  meu  pae . . . 

—  Estou  portanto  em  casa  de  minha  filha. . .  do 
meu  genro...  E's  o  anjo  que  me  velavas  de  noi- 
te... és,  minha  Angela  ?  Aqui  me  trouxe  Deus,  a 
restaurar  a  luz  da  minha  alma,  e  a  descerrar  as  tre- 
vas dos  meus  olhos  para  vos  vêr,  meus  filhos ! 

—  Senhor  conde  —  disse  o  cirurgião  muito  com- 
movido  —  Eu  queria  evitar-lhe  lagrimas;  mas  não 
sei  se  me  enganaria^  por  que  também  comigo  me 


Os  brilhantes  do  brasileiro  23g 

enganei.  O  que  mais  me  commove  é  pensar  eu  que 
vossa  excellencia  tardou  tanto  em  procurar  o  puro 
e  santo  coração  de  Angela.  Eu  oíFereço  a  vida  de 
meu  filho  a  Deus  que  me  castigue  o  temerário  ju- 
ramento :  juro  por  Deus  que  não  ha  uma  nódoa  na 
alma  de  sua  filha,  senhor  conde.  Eu,  marido  d'ella, 
defendo  a,  perante  seu  pae,  por  que  ninguém  mais 
se  erguerá  contra  o  mundo  que  a  calumnía.  Eu, 
operário  pobre,  cirurgião  n'estas  pobres  montanhas, 
não  encareço  as  virtudes  da  filha  do  fidalgo  abasta- 
do:  exalto  a,  porque  é  ella  a  companheira  da  mi- 
nha vida  honrada,  será  sempre  a  graça  divina  que 
cobre  do  ouro  da  alegria  estas  paredes  nuas,  este 
desaconchego  de  regalos,  isto  que  vossa  excellencia 
já  vê  com  seus  olhos.  Não  demorarei  a  explicação 
do  processo  um  pouco  estranho  por  que  vossa  ex- 
cellencia veio  a  encontrar  Angela,  podendo  desde 
que  aqui  entrou  saber  que  era  ella  quem  passava 
as  noites  á  cabeceira  de  sua  cama.  Eu  receiei  que 
o  senhor  conde  despresasse  ainda  sua  filha  quando 
entrou  n'esta  casa.  Conheci  que  felizmente  me  en- 
ganara; mas  sobreveio  o  medo  dos  incidentes  fataes 
da  operação,  quando  grandes  excitações  moraes  im- 
plicam a  placidez  do  curativo.  Quiz  preparar  o  seu 
animo  com  delongas;  prevenil-o  de  hora  a  hora 
para  receber  sua  filha  sem  surpreza.  Esta  de  ser 
ella  a  esposa  do  seu  facultativo  cuidei  eu  que  seria 
grata  a  vossa  excellencia.  Não  será  de  vexame  ao 
nobre  conde  que  o  marido  de  sua  filha  seja  o  cirur- 
gião que  teve  a  ventura  de  lhe  abrir  os  olhos  para 
que  visse  a  creatura  feliz,  que  primeiro  trilhou  to- 
das as  vias  dolorosas  por  onde  pôde  ir  a  honra  de 


240  Os  brilhantes  do  brasil  eiró 

uma  mulher  até  ao  calvário,  em  que  o  mundo  cos- 
tuma crucifical-as  na  ignominia.  Ella  ahi  está,  se- 
nhor conde,  a  sua  filha  Angela.  Ainda  vossa  excel- 
lencia  não  viu  ao  lado  d'ella  a  sua  antiga  criada  que, 
desde  os  dois  annos,  a  acompanhou,  e  lhe  matou  a 
fome  com  os  cordões  ganhados  no  serviço  de  seu 
pae  e  sua  tia. 

.  — Es  tu,  Victorina  !  —  exclamou  o  conde  —Pois 
tu  vives,  mulher,  e  não  abraças  o  teu  amo ! 

—  Não,  que  vossa  excellencia  chamou-me  velha, 
e  fez  rir  as  minhas  amas,  a  zombar  de  mim ! 

E,  dizendo,  abraçou-se-lhe  aos  joelhos,  e  beijou- 
lhe  as  mãos,  lavando-lh'as  de  lagrimas. 

N'este  lance  annunciou-se  o  primo  Pisarro,  com 
outros  fidalgos  flavienses  que  pediam  a  honra  de 
ser  apresentados  ao  senhor  conde  de  Gondar. 

—  Que  entrem  —  disse  o  general  —  Mando  como 
em  casa  tua,  minha  Angela. 

Pisarro  foi  com  os  braços  abertos  felicitar  o  ve- 
lho que  exclamou: 

—  Sahiu-me  a  cara  que  eu  imaginava,  primo  Pi- 
sarro. Parece-se  bastante  com  o  general  seu  tio. 
Aqui  estou  com  os  meus  olhos  envidraçados;  mas 
conheço  tudo  que  Deus  creou,  e  já  sei  que  heide  ir 
vendo  terra  até  ella  se  abater  debaixo  dos  meus 
pés.  Apresento  a  vossa  excellencia  e  aos  seus  ami- 
gos que  me  honram,  Angela  da  Costa,  futura  con- 
dessa de  Gondar. 

—  Quem?!  —  inquiriu  o  pávido  fidalgo. 

—  Angela,  minha  filha,  casada  com  meu  genro  o 
sr.  Francisco  José  da  Costa.  Agora,  minha  querida 
Angela,   se   crês  que  Deus  tem  na  terra  òs   seus 


Os  brilhantes  do  brasileiro  241 

agentes  para  os  grandes  fins  de  premiar  ou  punir, 
vae  abraçar  aquelle  cavalheiro  que  foi  o  mensageiro 
providencial  que  me  trouxe  aqui. 

Angela  inclinou-se  aos  braços  respeitosos  de  Pi- 
sarro,  que,  mal  cobrado  do  seu  assombro,  disse: 

—  Sr.*  D.  Angela,  vejo  que  Deus  tomou  a  si  o 
encargo  de  a  vingar  da  sociedade. 


lò 


CONCLUSÃO 


Restaurado  de  forças  physicas  á  proporção  que 
a  alma  lhe  remoçava,  o  conde  ordenou,  em  tom 
militar,  que  toda  a  sua  família  das  Boticas  se  trans- 
ferisse para  Ponte  do  Lima.  Francisco  José  da  Costa 
contrariou  seu  sogro,  allegando  que  se  tinha  con- 
tratado por  tempo  de  três  annos  com  o  município, 
e  não  podia  deixar  os  seus  doentes,  sem  que  o  seu 
logar  estivesse  occupado.  O  conde  tacs  artes  usou, 
de  intelligencia  com  Pisarro,  que  dias  depois  um 
medico,  com  vantajosíssima  ofterta  pecuniária  do 
conde,  se  offerecia  a  substituir  Costa. 

Mudou-se  a  família  para  Ponte. 

Dias  depois,  Angela  era  agraciada  com  o  titulo 
de  condessa  de  Gondar,  e  seu  marido  participante 
do  titulo  em  duas  vidas. 

Francisco  Costa,  lendo  o  ofíicio  do  ministério  do 
reino,  dirigiu  se  ao  sogro,  e  disse  risonho  : 

—  Um  operador  de  cataratas  conde!  Meu  queri- 


Os  brilhantes  do  brasileiro  243 

do  amigo!  não  queira  vossa  excellencia  afugentar 
de  mim  os  doentes  pobres  que  precisam  dos  meus 
serviços !  Os  enfermos  indigentes  que  tem  um  col- 
meiro  de  palha  como  leito  não  ousariam  chamar  á 
sua  caverna  um  conde.  O  pobre  que  se  chama  sim- 
plesmente Francisco  folga  e  alegra-se  de  poder  cha- 
mar sr.  Francisco  ao  irmão  que  lhe  faz  a  receita. 
O  titulo  que  vossa  excellencia  pode  sem  custo  e 
com  muitíssimo  proveito  dar  ao  marido  da  condes- 
sa de  Gondar,  é  permittir  que  ella  pague  do  seu 
bolsinho  ao  boticário  as  receitas  que  eu  mande 
aviar,  e  darm'a  também  como  auxiliar  na  cura  dos 
pobresinhos  que  adoecem  de  fome  e  frio. 

O  conde  de  Gondar  viveu  dez  annos  a  mais  di- 
tosa existência  de  velho.  Ainda  viu  seis  netos  á 
volta  d'elle,  perfumando-lhe  de  primaveras  aquelles 
dez  invernos  cheios  de  sol. 

Morreu  aos  oitenta,  encostando  serenamente  a 
face  sobre  o  braço  da  filha,  que  lhe  dava  a  oscular 
a  Cruz  de  Christo. 

Um  anno  antes  tinha  descido  abençoada  á  sepul- 
tura aquella  primorosa  Victorina,  legando  os  seus 
cordões  restaurados,  e  um  bom  casal  que  lhe  dera 
Angela,  á  filha  mais  velha  de  sua  ama. 

Vivem  actualmente  a  condessa  de  Gondar,  o  ma- 
rido que  ficou  sempre  Francisco  José  da  Costa ^ 
seis  filhos,  o  mais  velho  dos  quaes,  aquelle  Antoni 
nho,  nascido  nas  Boticas,  é  o  mais  requintado  aris- 
tocrata do  Minho,  e  turde  os  seus  condiscípulos  da 
universidade  contandolhes  legendas  do  Paço  de 
Gondar,  de  que  elle  vem  a  ser  o  vigésimo  senhor. 


244  ^5  brilhantes  do  brasileiro 

A  legenda  que  elle  ignora  é  a  de  sua  avó  D.  Maria 
d'Antas. 

Angela  tem  hoje  quarenta  e  nove  annos.  As  ru- 
gas não  ousam  ainda  combater  a  mocidade  renasci- 
da n'aquelle  coração.  Cinco  meninas  formosas  que 
a  seguem  á  missa  passam  pelo  desgosto  de  ouvir 
dizer : 

—  A  mãe  é  melhor  que  as  filhas. 

Quem  ainda  vive,  a  competir  com  os  velhos  ro- 
bles do  Paço  de  Gondar,  é  João  Pedro,  que  pediu 
a  sua  reforma,  e  está  feitor  nominal  do  condado. 

Na  véspera  de  •  Natal  vem  sempre  a  Ponte  con- 
soar com  Ota  sua  gente»  diz  elle.  E  depois  que  as 
rabanadas  e  o  Porto  lhe  aguçam  a  memoria,  cos- 
tuma dizer  todos  os  annos,  a  sós  com  Angela : 

—  O'  senhora  condessa!. .  .  mal  diria  eu  quando 
a  vi  casada  com  aquelle  Hemorragildel. . . 

Angela,  com  quanto  já  conheça  de  antemão,  o 
gracejo  obrigado  da  noite  de  Natal,  applaude  sem- 
pre com  uma  risada  e  dois  piparotes  nas  orelhas 
musgosas  do  macrobrio. 


EPILOGO 


Concluido  o  livro,  suja  se  uma  verdadeira  lauda 
com  as  escavações  que  mandamos  fazer  nos  pânta- 
nos d'esta  historia. 

Descobriu-se,  atravez  dos  fétidos  esgotos,  que  os 
três  amigos  e  herdeiros  de  Hermenegildo  Fialho  de 
Barrosas  ainda  respiram  e  medram. 

Athanasio  José  da  Silva  é  barão  da  Silva 

Pantaleão  Mendes  Guimarães  é  barão  de  Mendes 
Guimarães. 

Joaquim  António  Bernardo,  como  não  tinha  apel- 
lido,  apossou  se  da  quinta  dos  Choupos  que  lhe 
fora  hypothecada  na  divida  fantástica  de  Fialho, 
e  fez-se  barão  dos  Choupos. 

Ainda  ha  mais  um  titulo. 

O  marido  de  Rosa  Catraia,  retirado  á  terra  onde 
nascera,  Cabeceiras  de  Basto,  fez-se  influente  poli- 
tico, principiando  em  regedor,  depois  camarista, 
presidente  do  município,  e  administrador  substituto 
do  concelho. 


246  Os  brilhantes  do  brasileiro 

Luctador  acérrimo  em  eleições  de  deputados,  vin- 
gou levar  ao  parlamento  um  sobrinho  de  Rosa  for- 
mado á  sua  custa.  A  commenda  que  o  agradecido 
bacharel  lhe  enviou,  fez  saltar  a  rolha  da  cornuco- 
pia  das  graças,  que  mais  se  retorcia  de  vergonha 
sua  e  da  pátria,  como  se  uma  e  outra  podessem  já 
allegar  pudor,  e  negar-se  a  solicitações  de  infames. 

Rosa  Catraia,  é  pois,  baroneza  de  Villar  d'Amo- 
res,  titulo  um  tanto  lyrico  e  romanesco,  bem  ajus- 
tado ás  escarlates  bochechas  e  túrgidos  seios  que 
resumbram  bestidade,  saúde,  alegria  e  lubricidade 
serôdia. 

As  outras  baronesas,  bastante  mais  avelhentadas, 
representam  os  estragos  da  corrupção  moral  nas  pes- 
soas, e  o  despejo  da  corrupção  politica  nos  títulos. 


FIM 


índice 


PAG. 


Prefacio  da  segunda  edição 5 

I  Afflicções  sudoriferas 7 

II  1 :65o^coo  réis  ! 1 3 

III  Retratos  do  natural 23 

IV  Tribunal  de  honra 27 

V  Considerações    plásticas ....    34 

VI  Amigos  do  seu  amigo 41 

VII  Revelações  cómicas 49 

VIII  Revelações  tristes 54 

IX  Amores  fataes    61 

X  O  Poeta 7  í 

XI  Sonhos  e  esperanças ^o 

XII  A  fuga 85 

XIII  Desamparo 91 

XIV  Via   dolorosa 98 

XV  Meio  milhão  ! 1 0() 

XVI  Por  causa  do  fígado 120 

XVII  Historia  dos  brilhantes 127 

XVIII  A  infamada 141 

XIX  Amor  próprio 149 

XX  O  doente  e  o  doutor i55 


248  índice 

PAG. 

XXI  Morre  Hermenegildo 167 

XXII  Felicidade  suprema 172 

XXIII  Os  homens  honestos 184 

XXIV  A  opinião  publica 188 

XXV  O  cego 196 

XXVI  A  Providencia , 202 

XXVIl  Vem  rompendo  a  luz  208 

XXVIII  Confidencias  do  cego 216 

XXIX  Luz  ! 227 

XXX  Finalmente 236 

Conclusão 242 

Epilogo 245 


J.  P.  OLIVEIRA  MARTINS 


OBRAS    COMPLETAS 

I.  Historia  nacional: 

Historia  da  civiIíISAção  ibérica,  4.*  ed.  (1897),  1  vol.  br.  700  rs.  Ene- 900. 

Historia  dk  Portugal,  6.«  ed.  (1901),  2  vol.,  br.  1^400  rs.  Ene.  1^800. 

O  Brazil  e  as  colónias  poRTuauBZAS,  3.*  ed.  (1888),  J  vol.,  br.  700  rs.  Ene.  900. 

Portugal  contemporâneo,  3.'  ed.  (1895),  2  vol.,  br.  2^000  rs.  Ene.  2^51400. 

Portugal  nos  mares,  (1889),  1  vol.,  br.  700  rs.  Ene.  900. 

Camões,  os  Lusíadas  e  a  renascença  em  Portugal  (1891),  1  vol.,  br.  600  rs. 
Ene.  800. 

Navegacioneb  t  descubrimikntos  de  los  portugueses  (ed.  do  Âteneo  de  Madrid 
1892),  1  vol.  (não  entrou  no  commercio.) 

A  VIDA  DK  NUN'ALVARBS,  2.*  ed.  (1894),  1  vol.,  br.  2^000  rs.  Cart.  2^^400.  Ene.  (fo- 
lhas doiradas)  Sy^200. 

Os  filhos  db  d.  João  i,  2.*  ed.,  2  vol.,  br.  1<J400  rs.  Ene.  1^800  rs. 

O  Príncipe  perfeito,  (1895)  1  vol.,  br.  2^000  rs.  Encad.,  folhas  doiradas,  3^200  rs, 

II.  Historia  geral: 

Elementos  de  anthbopolooia,  4.»  ed.  (1895),  1  vol.,  br.  700  rs.  Ene.  900. 
As  RAÇAS  HUMANAS  E  A  civiLiSAçJío  PRIMITIVA,  2  vol.,  br.   1^400  rs.  Enc.  1^800  rs 
Systema  DOS  MYTHOS  RELIGIOSOS,  2."  ed.  (1895)  1  vol.,  br.  800  rs.  Enc.  1^000. 
Quadro  das  instituições  primitivas,  2.*  ed.  (1893)  1  vol.,  br.  700  rs.  Enc.  900. 
O  REGIME  DAS  RIQUEZAS,  2.*  ed.  (1894),  1  voI.,  br.  600  rs.  Ene.  800. 
Historia  da  republica  romana,  2.*  ed.,  1897,  2  vol.,  br.  2^000  rs.  Ene.  2^400. 
O  HELLBNISMO  B  A  civiLiSACÃo  CHRiSTÃ,  2.*  ed.,  1  vol.  br.  800  rs.  Enc.  1^000  rs. 
TaboAS  de  CHRONOLOaiA  B^OEOGKAPHIA  HISTÓRICA,  (1884),  1  vol.,  br.  1^000  rs.  En- 
eadernado  1^200. 

III.  Varia : 

A  CIRCULAÇÃO  FIDUCIÁRIA,  2.»  ed.,  1  vol.  br.  800  rs.  Enc.  1^000  rs. 

A  BEORGANISAÇÃO  DO  Banco  DB  PORTUGAL,  optwcttío,  (1877)  br.  150  rs. 

o  ARTIGO  «Banco»  no  Diccionarin  Universal  Portuguez^  (1877),  1  vol  ,  br.  500  rs. 

Politica  e  bconomli  nacional,  (1885),  1  vol.,  br.  700  rs. 

Projecto  de  lbi  de  fomento  rural,  apresentado  á  camará  dos  deputados  na  sessão 

de  iS87,  1  vol.,  br.  300  rs. 
Elogio  histórico  de  Anselmo  J.  Braamcamp,  ed.  part.  (1886),  1  vol.  (esgotado). 
Theophilo  Braga  k  o  Cancioneiro,  opúsculo,  (1869)  esgotado. 
O  Socialismo,  (1872-3),  2  vol.,  br.  1^200.  (Esgotado) 
As  ELEIÇÕES,  opúsculo,  (1878),  br.  200  rs. 

Carteira  db  um  jornalista  :  I.  Portugal  em  A/rica,  (1891),  1  vol.,  br.  400  rs, 
Inglaterra  db  hojb,  cartas  de  um  viajantb,  2.'  ed.,  (1894),  1  vol.,  br.  600  rs, 
Enc.  800. 
Cartas  PENiNSULASBa,  (1895),  1  vol.  br.  600  ri.  Ene.  800  ta. 


Parceria  António  Maria  Pereira— Livraria  Editora 

Ena  Augusta,  50,  02  e  64  —  LISBOA 


Obras  de  JOSÉ  QUINTINO  TRAVASSOS  LOPES 


Nova  grammatica  elementar  da  lingua  portu- 
gueza»  redigida  segundo  as  iheorias  modernas,  e  contendo 
quadros  synopticos  muito  uteis^  cart.  160  róis. 

Compendio  de  arithmetica  e  systema  métrico, 
28*  edição,  contendo  29  gravuras  e  mais  de  2.000  exerci- 
cios  e  problemas,  reformado  segundo  os  actuaes  program- 
mas,  br.  200  réis,  cart.  280  róis. 

Resumo  de  arithmetica  e  systema  métrico,  5.» 
edição,  muito  augmentada  e  contendo  13  gravuras,  appro- 
vado  pelo  antigo  conselho  superior  de  instrucção  publica, 
br.  100  róis,  cart.  180  róis. 

Dois  mil  exercícios  e  problemas  de  aritlimetl- 
ca  e  systema  métrico,  abrangendo  os  programmas  do 
ensino  elementar  e  complementar,  em  br.  160  rs.,  cart.  240  rs. 

Compendio  de  historia  pátria,  13."  edição,  refor- 
mada, e  contendo  no  fim  uma  noticia  resumida  dos  factos 
principaes  de  cada  reinado^  br.  160  róis,  cart.  240  róis. 

Compendio  de  historia  sagrada,  2.*  edição,  illus- 
trada  com  muitas  gravuras,  approvado  pelo  antigo  conse- 
lho superior  de  instrucção  publica,  br.  160  róis,  cart,  240  rs. 

Leituras  Correntes  e  Intuitivas :  primeiras  li- 
ções sobre  objectos.  —  !.■  parte,  9.*  edição,  muito 
augmentada,  ornada  com  gravuras  e  vinhetas,  dedicada  ás 
creanças  de  7  a  9  annos,  br.  160  róis,  cart.  240  róis ;  com 
encad.  de  luxo  para  prémios  e  brindes,  300  róis. 

Leituras  Correntes  e  Intuitivas:  primeiras  li- 
ções sobre  objectos. — 2."  parte,  6.*  edição,  ornada  com 
gravuras  e  vinhetas,  dedicada  ás  creanças  de  10  a  12  annos, 
br.  160  róis,  cart.  240  róis;  com  encad.  de  luxo,  para  pré- 
mios e  brindes,  360  róis. 

Leituras  Correntes  e  Intuitivas,  obra  adoptada 
para  o  ensino  official  primário,  300  réis,  cart. 

Historias  de  animaes,  sua  vida,  costumes,  ane- 
cdotas,  fabulas,  etc.  —  noções  amenas  de  zoolo- 
gia para  creanças  —  lições  sobre  objectos,  3  volu 
mes,  obra  interessanlissima,   ornada   com    400   gravuras  e 
vinhetas,  br.  200  róis  cada  volume,  cart.  280  réis ;  com  en 
cad.  de  luxo,  para  prémios  e  brindes,  400  róis. 

Os  contos  da  avozinha,  collecço  illustrada  de  his- 
torias, lendas,  fabulas  e  contos,  cora  300  gravuras,  3  vo- 
lumes, br.  160  róis,  cart.  240  róis,  com  encad.  de  luxo, 
para  prémios  e  brindes,  360  róis  cada  volume. 


Parceria  Anlonio  Maria  Pereira— Livraría-cdilora 

Rua  Augusta,  50,  52  e  54  —  LISBOA 


I 


OBRAS  DE  CARLOS  AUGUSTO  PINTO  FERREIRA 

Engenheiro  maeklnista,  eftpltlo-tentnte  gr»da«4o  da  Armada 

INDISPINSAYEIS  A  iNWSTRIAES,  OPERÁRIOS,  ENGERBEIROS,  ARCHITECTOS,  ITC. 

Engenheiro  (O)  d^algibeira,  livro  portátil  e  utilissimo, 
espécie  de  vademecuniy  onde  se  acham  compendiadas  grande 
quantidade  de  formulas  e  dados  práticos  com  applicação  á 
engenheria  nos  seus  diíFerentes  raspos;  3.*  edição  muito 
augmentada.  Este  livro  deve  ser  o  companheiro  indispen- 
sável do  contra-mestre^  do  mestre,  do  architeeto  e  final- 
mente do  engenheiro;  pai  a  todos  tem  matéria  útil.  Livrinho 
nitidamente  impresso,  contendo  mais  de  150  tabeliãs. — 
Preço  800  réis  Dr.,  líílOOO  réis  ene. 

Guia  do  fogueiro  conductor  de  machinas  de  va- 
por, approvado  pela  associação  do.-  engenheiros  civis  por- 
tuguezes.  Livro  escripto  expressamente  para  servir  de  en- 
sinamento pratico  aos  fogueiros,  e  em  harmonia  com  a 
portaria  do  ministério  da  marinha  que  obriga  esta  classe 
de  inctividuos  a  serem  examinados.  Contém  2H0  paginas 
em  8.®  francez,  com  bastantes  gravuras  intercaladas  no 
texto  e  duas  bellas  estampas,  2.«  edição. — Preço  800  rs.  br., 
1^100  réis  ene. 

Guia  de  meclianica  pratica,  precedida  de  noções  ele- 
mentares de  arithmetica,  álgebra  e  geometria  indispensá- 
veis para  facilitar  a  resolução  dos  diversos  problemas  de 
mechanica.  Volume  de  55?  paginas  em  oitavo  francez,  ni- 
tidamente impresso,  contendo  mais  de  cera  gravuras  inter- 
caladas no  texto  e  cinco  bellas  estampas  no  fim.  Livro 
dispensável,  não  só  aos  industriaes,  mas  a  todos  os  indi- 
vidues que  desejarem  pôr  em  pratica  quaes  |uer  trabalhos 
mechanicos. — 6."  edição.  Preço  Ji^tíOO  rs-  br.,  1^900  rs.  ene. 

Manual  elementar  e  pratico  sobre  machinas  de 
vapor  marítimas  antigas  e  modernas,  com- 
prehendendo  as  de  dupla,  tríplice  e  quadru- 
pla expansão  —Livro  utilissimo  para  quem  precisa 
fazer  algum  estudo  sobre  machinas  marítimas,  eonstruil-as, 
mandal-as  construir,  ou  dirigil-as.  Vol.  de  420  pag.  em  8.® 
francez,  contendo  40  gravuras  intercaladas  no  texto  e  2 
magnificas  estampas.  Os  engenheiros  machinistas  encon- 
trarão n'eBte  livro  indicações  de  grande  utilidade  para  o 
desempenho  da  sua  difficil  missão.  Preço  2ií»000  réis  br., 
2^400  réis  ene. 

Opúsculo  acerca  das  machinas  mixtas  de  alta  e 
baixa  pressão,  applicadas  aos  navios  movidos  a  vapor. 
2.«  e^iofto,  Preço  600  róis  br.,  800  réis  ene. 

Manual  de   noções  elementares  de  technologia. 

Livro  utilisaimo  para  todos  os  que  se  dedicam  á  industria, 
e  tratando  dos  seguintes  assumptos  :  —  Madeiras.  —  Ro- 
chas e  pedras.  —  Carvão.  —  Metaes.  —  Matérias  textis.  — 
Construcções.  Adornado  de  muitas  gravuras  explicativas. 
Preço  500  réis  br.,  700  réis  ene. 


^êKÍTCíRÍ